O Chelsea começa a temporada 2026/27 com algumas perguntas que vão muito além de uma simples troca no comando técnico. Depois de terminar apenas em 10º lugar na Premier League e ficar fora das competições europeias, os Blues apostaram em Xabi Alonso para liderar um novo capítulo, enquanto também mudaram parte da estratégia de montagem do elenco.
A chegada de jogadores experientes, o descanso de nomes importantes durante a Copa do Mundo e uma agenda consideravelmente menos pesada podem transformar o cenário do Chelsea. Por outro lado, Xabi também terá desafios importantes logo em seu primeiro ano, desde controlar um elenco conhecido por sua indisciplina até encontrar espaço para tantos jogadores.
Afinal, o Chelsea continua sendo um time capaz de reunir muito talento. O problema, nas últimas temporadas, tem sido fazer tudo isso funcionar ao mesmo tempo.
Xabi Alonso conseguirá controlar o lado indisciplinado?
Antes de pensar em títulos ou grandes atuações, Xabi Alonso terá uma missão bastante básica e aparentemente complicada no Chelsea: fazer o time parar de colecionar cartões como se fossem figurinhas.
Desde a chegada de Mauricio Pochettino, em julho de 2023, o Chelsea recebeu 294 cartões amarelos e 14 vermelhos na Premier League. Nenhum outro clube acumulou tantos cartões no período de três temporadas, e os números mostram que o problema sobreviveu a diferentes treinadores.
Pochettino, Enzo Maresca e Liam Rosenior passaram pelo comando sem conseguir corrigir completamente essa característica. A temporada 2023/24, inclusive, foi a mais extrema, com 105 cartões amarelos e quatro expulsões.
A chegada de Xabi Alonso não oferece uma garantia automática de mudança. Durante sua passagem pelo Real Madrid na temporada passada, o time recebeu seis cartões vermelhos em apenas 28 partidas oficiais. Apenas o Real Oviedo teve mais expulsões no período entre o início da campanha e a saída do treinador, em janeiro.
No Santiago Bernabéu, parte dos problemas de Alonso também foi relacionada à dificuldade de administrar personalidades fortes dentro do elenco. E, embora a pressão no Chelsea seja diferente daquela encontrada no Real Madrid, o novo treinador também encontrará jogadores jovens, ambiciosos e com bastante personalidade.
A inexperiência não explica sozinha a quantidade de cartões, mas talvez exista uma relação com o perfil do elenco. O Chelsea teve o time titular mais jovem da Premier League nas últimas três temporadas, e a falta de jogadores acostumados a controlar momentos difíceis ficou evidente em várias partidas.
Chelsea aposta na experiência para mudar o ambiente
A mudança de estratégia ficou clara neste mercado. Depois de anos priorizando jogadores jovens e contratos longos, o Chelsea decidiu adicionar alguns veteranos ao grupo.
Danny Welbeck, de 35 anos, e Jordan Henderson, de 36, chegaram para aumentar a experiência de um elenco que, até então, praticamente não tinha atletas acostumados a viver as fases mais decisivas da carreira.
Na última temporada, o Chelsea teve uma média de idade de apenas 24 anos e 194 dias em seus times titulares. Foi o terceiro ano consecutivo em que os Blues terminaram como a equipe mais jovem da Premier League nesse quesito.
A situação no banco de reservas era ainda mais impressionante. Os substitutos relacionados pelo Chelsea tinham média de apenas 22 anos e 83 dias, mais de um ano e meio abaixo da média de qualquer outro clube da competição.
Welbeck e Henderson chegam, portanto, para algo que vai além do desempenho técnico. Os dois somam 863 partidas na Premier League e fazem parte de um grupo bastante seleto de jogadores com mais de 400 jogos na competição.
A experiência pode ajudar principalmente em uma das maiores fraquezas do Chelsea na última campanha: administrar vantagens. Os Blues perderam 19 pontos depois de saírem na frente no placar, enquanto conquistaram apenas 14 após começarem perdendo.
Foram 17 pontos desperdiçados em casa, o maior número da Premier League. Talvez, em alguns desses jogos, tenha faltado justamente alguém para esfriar a partida, gastar alguns segundos a mais ou simplesmente lembrar que não era necessário atacar como se o cronômetro estivesse marcando 89 minutos.
Fora da Copa do Mundo, Cole Palmer tem combustível extra
A temporada 2025/26 também representou uma queda importante para Cole Palmer. Depois de brilhar na conquista do Mundial de Clubes, incluindo uma atuação decisiva na vitória por 3 a 0 sobre o PSG na final, o inglês não conseguiu manter o mesmo nível.
Nos últimos 12 meses, Palmer participou diretamente de apenas 14 gols em 34 jogos pelo Chelsea. Sem contar os pênaltis, foram nove participações, um número distante daquele jogador que havia se tornado uma das grandes referências ofensivas da Premier League.
Antes de marcar contra o Sunderland na última rodada da liga, Palmer havia passado 12 partidas consecutivas sem marcar ou dar assistência. Foi sua pior sequência desde que chegou ao Chelsea.
A consequência foi pesada: Thomas Tuchel decidiu não levá-lo para a Copa do Mundo. Uma situação que parecia praticamente impensável um ano antes, quando Palmer vinha de uma campanha com 18 gols e 13 assistências pelo Chelsea.
Agora, porém, a ausência também pode ter um lado positivo. Enquanto muitos jogadores começaram a temporada depois de um calendário pesado e uma Copa do Mundo disputada durante o verão, Palmer teve mais tempo para descansar e se preparar.
Além disso, Xabi Alonso tem um histórico interessante no desenvolvimento de jogadores criativos. No Bayer Leverkusen, Florian Wirtz se transformou em um dos grandes nomes do futebol europeu sob o comando do espanhol.
Durante os dois anos e meio de Alonso no clube alemão, apenas Harry Kane participou de mais gols sem contar pênaltis por um clube da Bundesliga do que Wirtz. O meia também liderou vários indicadores criativos, com 41 assistências e 249 chances criadas em jogadas de bola rolando.
Se Palmer conseguir recuperar sua melhor versão, Xabi pode encontrar nele uma das peças centrais de seu novo Chelsea.
João Pedro quer aproveitar o descanso para dar outro salto
João Pedro também vive uma situação curiosa. Apesar da campanha decepcionante do Chelsea, o brasileiro teve uma primeira temporada bastante positiva individualmente.
Depois de estrear no Mundial de Clubes de 2025, justamente contra o Palmeiras, o atacante marcou 23 gols em 53 partidas pelos Blues. Foram oito gols a mais do que qualquer outro jogador do elenco.
No período, apenas Erling Haaland e Igor Thiago marcaram mais gols por clubes da Premier League.
Mesmo assim, João Pedro acabou fora da lista de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo. A decisão chamou atenção, especialmente porque Neymar, escolhido para a vaga, enfrentou problemas físicos durante boa parte da temporada no Santos.
Para o Chelsea, no entanto, a ausência do brasileiro pode acabar sendo uma ótima notícia. João Pedro teve um verão de descanso, algo raro para jogadores de clubes de elite, e chega mais inteiro para o início da nova campanha.
O atacante também começou a pré-temporada em grande forma, marcando sete gols em apenas 348 minutos de amistosos. Depois de encerrar 2025/26 com somente dois gols nas últimas 11 partidas oficiais, o descanso parece ter feito bem.
Agora resta saber se o bom momento será suficiente para transformar João Pedro em uma referência ainda maior dentro do Chelsea.
Sem competição europeia: vantagem ou problema?
Uma das mudanças mais significativas da temporada será a ausência do Chelsea nas competições europeias. Pela segunda vez em dez anos, os Blues terão apenas os torneios domésticos para disputar.
O 10º lugar na Premier League deixou o clube fora de qualquer competição continental e reduziu consideravelmente o número máximo de jogos possíveis.
Na última temporada, o Chelsea disputou 59 partidas a partir de agosto, além das sete realizadas no Mundial de Clubes entre junho e julho. Em 2026/27, mesmo chegando às finais da FA Cup e da Copa da Liga Inglesa, o time poderá fazer no máximo 50 jogos.
Para Xabi Alonso, isso significa mais tempo no campo de treinamento. O treinador poderá trabalhar seu modelo de jogo com menos interrupções e preparar as partidas com uma semana praticamente inteira em diversas oportunidades.
Por outro lado, menos competições também significam menos chances para rodar o elenco. E isso pode ser um problema para um clube que continua tendo um dos grupos de jogadores mais numerosos da Premier League.
Ainda assim, há exemplos recentes que mostram como uma agenda mais leve pode ajudar. O Manchester United melhorou em 29 pontos seu desempenho na Premier League na última temporada e terminou em terceiro lugar depois de disputar apenas 40 partidas em todas as competições.
O Newcastle também apresentou campanhas fortes em temporadas sem compromissos europeus, conseguindo classificações para a Champions League e chegando a finais da Copa da Liga.
Para o Chelsea, a falta de jogos europeus pode até parecer estranha para um clube acostumado a disputar grandes noites continentais. Mas, depois de uma temporada tão decepcionante, talvez seja justamente a pausa necessária para reconstruir.
Temporada para provar que o Chelsea aprendeu
O Chelsea não conquista uma copa doméstica desde a FA Cup de 2017/18. O dado é ainda mais curioso porque o clube chegou a uma final da FA Cup ou da Copa da Liga em sete das últimas oito temporadas.
Ou seja, oportunidades não faltaram. O problema foi transformar boas campanhas em títulos.
Agora, com Xabi Alonso no comando, jogadores experientes chegando, Palmer e João Pedro mais descansados e um calendário menos caótico, o Chelsea terá poucos motivos para reclamar de falta de condições.
A grande questão é se tudo isso será suficiente para finalmente dar estabilidade a um clube que passou os últimos anos acumulando talento, cartões, mudanças e frustrações.
A temporada 2026/27 pode representar um novo começo para o Chelsea. Mas, para isso acontecer, Xabi Alonso precisará fazer algo que seus antecessores não conseguiram: transformar uma equipe imprevisível em um time realmente confiável. E, se possível, pedir para o elenco deixar alguns cartões amarelos para os outros times da Premier League.
Foto: Reprodução/Chelsea



