O Barcelona começou a temporada criando um problema positivo
O Barcelona de Hansi Flick dificilmente poderia pedir um começo melhor.
São oito vitórias em oito partidas, liderança de La Liga e seis pontos de vantagem sobre o Real Madrid. Mais do que os números, porém, chama atenção a profundidade que o treinador passou a ter à disposição.
E é justamente aí que surge um novo desafio.
Quanto mais opções um técnico possui, mais difícil fica escolher quem joga. Jogadores importantes em temporadas anteriores passaram a disputar minutos, enquanto alguns nomes de peso começaram a assistir às partidas do banco.
Koundé, Gavi, Balde e Frenkie de Jong representam situações diferentes, mas ajudam a explicar o mesmo problema: Flick precisa manter todo o elenco preparado sem mexer demais em uma equipe que começou a temporada vencendo tudo.
Koundé precisa recuperar um espaço que parecia garantido
A lateral direita é o exemplo mais claro.
Jules Koundé foi durante muito tempo uma das peças mais confiáveis da defesa do Barcelona. Agora, porém, Eric García ganhou espaço e passou a ser uma alternativa importante para Flick.
Koundé disputou apenas 261 minutos nas oito primeiras partidas, contra 469 de García. Mais significativo ainda é o fato de ter permanecido no banco sem entrar nos três últimos jogos do clube antes da pausa internacional.
A situação seria difícil de imaginar pouco tempo atrás.
O francês continua tendo qualidade para recuperar a posição, mas precisa voltar ao nível que apresentou anteriormente e reduzir os erros de concentração que ajudaram García a ganhar espaço.
A atuação de Koundé pela França, com 90 minutos contra a Turquia, pode ser importante para recuperar ritmo e confiança. E a disputa ainda pode mudar rapidamente. Andreas Christensen está lesionado, enquanto a condição física de García também será acompanhada.
Se surgir uma oportunidade, Koundé terá de aproveitá-la.
Gavi descobriu que talento não garante minutos
A situação de Gavi é ainda mais delicada. O meio-campista disputou apenas 81 minutos nesta temporada, depois de enfrentar problemas físicos que interromperam sua sequência.
Ao mesmo tempo, o Barcelona aumentou a qualidade e a quantidade de opções no meio-campo. A concorrência ficou maior justamente enquanto Gavi tentava recuperar sua melhor condição.
Flick claramente conhece o que o espanhol pode oferecer, mas confiança não significa titularidade automática. Para Gavi, o primeiro passo será recuperar regularidade física. Depois, aproveitar os minutos que receber. Para Flick, o desafio será mantê-lo envolvido sem alterar uma estrutura que vem funcionando.
Esse equilíbrio será importante porque uma temporada longa inevitavelmente exigirá mais jogadores do que os titulares habituais.
Balde vive uma situação ainda mais complicada
Alejandro Balde enfrenta um cenário diferente.
O lateral-esquerdo disputou apenas 12 minutos nesta temporada e já havia sido envolvido em especulações sobre uma possível saída durante o verão europeu. O Barcelona considerou negociá-lo, mas o jogador permaneceu para disputar espaço.
Por enquanto, não conseguiu recuperá-lo.
Xavi Espart e João Cancelo aparecem à frente na disputa por minutos, deixando Balde em uma posição delicada.
A temporada ainda é longa e lesões ou desgaste podem abrir uma oportunidade. Mas, neste momento, o lateral precisa mostrar nos treinamentos e nas poucas chances que receber que pode voltar a fazer parte da rotação.
Para Flick, existe também uma questão de gestão. Jogadores que passam muito tempo fora do time precisam continuar enxergando um caminho para recuperar espaço.
De Jong pode mudar novamente o meio-campo
A situação mais interessante ainda está por acontecer.
Frenkie de Jong não entrou em campo nesta temporada por causa de uma lesão. Quando estiver pronto para retornar, encontrará um Barcelona que construiu sua campanha sem um dos jogadores mais experientes do elenco.
O meio-campo ganhou novas referências, e a chegada de Rodri aumentou ainda mais a concorrência. De Jong também perdeu a condição de capitão. Nada disso significa que o holandês tenha deixado de ser importante.
Mas ele terá de encontrar seu espaço em uma estrutura que mudou durante sua ausência.
Para Flick, a decisão será relevante. De Jong oferece características capazes de ampliar o repertório da equipe, mas qualquer alteração em um meio-campo que começou a temporada com excelente rendimento precisa ser feita com cuidado.
O maior desafio de Flick não está no time titular
O Barcelona já encontrou uma formação capaz de vencer. Agora precisa descobrir como fazer isso durante uma temporada inteira.
La Liga e Champions League vão aumentar a quantidade de partidas, enquanto lesões, suspensões e desgaste obrigarão Flick a recorrer a jogadores que hoje estão fora do time principal.
É por isso que Koundé, Gavi, Balde e De Jong são tão importantes mesmo quando não começam as partidas.
A profundidade do elenco só se transforma em vantagem quando os reservas estão preparados para assumir responsabilidades sem que o nível da equipe caia de maneira significativa.
Flick terá de evitar dois extremos: preservar demais uma formação que funciona ou utilizá-la até que o desgaste cobre seu preço.
O Barcelona tem mais opções, mas agora precisa saber administrá-las
O início perfeito aumentou as expectativas em torno do Barcelona, mas também criou uma questão que não existia com a mesma intensidade na temporada passada. Há jogadores de qualidade esperando por oportunidades.
Koundé precisa recuperar espaço. Gavi precisa ganhar sequência. Balde busca voltar à rotação. De Jong terá de encontrar seu lugar quando estiver recuperado.
Nenhum desses casos representa necessariamente um problema imediato. O risco está em não administrar bem essas situações ao longo dos meses.
Flick já mostrou que consegue montar um Barcelona competitivo. O próximo passo será provar que também consegue fazer um elenco profundo trabalhar a favor do time, mantendo os titulares protegidos e os reservas preparados.
Porque oito vitórias em oito jogos mostram que o Barcelona começou muito bem.
Mas uma temporada inteira será decidida pela capacidade de manter esse nível quando todos começarem a precisar de minutos.
Foto: Manaure Quintero/AFP



