A vitória de Bia Mesquita sobre Montserrat Rendon no UFC Vegas 114 reforçou uma impressão que já vinha surgindo desde sua estreia no UFC: a brasileira pode ser uma das raras lendas do jiu-jitsu que conseguiu realmente traduzir seu talento para o MMA moderno.
Mesquita finalizou Rendon ainda no primeiro round com um mata-leão pouco mais de dois minutos após o início da luta, mantendo seu cartel invicto e consolidando seu início dominante dentro do UFC.
Mas o que torna essa vitória tão relevante não é apenas o resultado. É a forma como ela luta. Ao contrário de muitas estrelas históricas do jiu-jitsu que migraram para o MMA, Mesquita vem demonstrando uma adaptação extremamente eficiente ao estilo de combate do UFC.
O desafio que muitas lendas do jiu-jitsu não conseguiram superar
Durante décadas, o jiu-jitsu brasileiro foi considerado a arte marcial mais dominante do MMA. A própria história do UFC nasceu dessa premissa, quando Royce Gracie dominou os primeiros torneios da organização. Mas o esporte evoluiu.
O MMA moderno exige uma integração completa de habilidades: wrestling defensivo, striking funcional, controle de distância e capacidade de transição entre fases da luta. Apenas ser um grappler extraordinário já não é suficiente.
Por isso, vários dos maiores campeões da história do jiu-jitsu tiveram dificuldades para repetir no MMA o mesmo nível de sucesso que alcançaram nos tatames.
Entre os exemplos mais conhecidos estão: Rodolfo Vieira, múltiplo campeão mundial de BJJ, mas que encontrou dificuldades contra adversários com bom wrestling e striking. Marcus “Buchecha” Almeida, considerado um dos maiores grapplers de todos os tempos, mas cuja transição para o MMA tem sido irregular e tardia e Kron Gracie, filho da dinastia Gracie, que sofreu derrotas duras ao tentar aplicar um jiu-jitsu tradicional em um ambiente muito mais dinâmico.
Todos esses atletas possuem habilidades técnicas extraordinárias no solo, mas enfrentaram dificuldades quando obrigados a lidar com o ritmo, o volume de golpes e a pressão tática do MMA moderno.
O que Bia Mesquita tem de diferente
Mesquita parece ter entendido algo que muitos especialistas do grappling demoraram para aceitar: no UFC, o jiu-jitsu precisa ser adaptado.
Não basta ter o melhor jogo de guarda ou a melhor raspagem do mundo se o adversário nunca entra nesse tipo de posição.
A brasileira, que possui dez títulos mundiais de jiu-jitsu e um ouro no ADCC, fez sua transição para o MMA de forma estratégica. Em vez de depender exclusivamente de posições clássicas do BJJ, ela incorporou elementos fundamentais do MMA:
Na vitória contra Rendon, Mesquita não ficou esperando a luta ir para o chão. Ela iniciou o combate com agressividade e rapidamente impôs seu grappling de forma ofensiva.
Esse tipo de abordagem é essencial no MMA, onde a luta pode se perder rapidamente se o grappler aceitar lutar apenas no tempo do adversário.
Outro aspecto importante é a maneira como Mesquita combina controle no solo com golpes.
Muitos especialistas de jiu-jitsu tentam finalizar imediatamente após uma queda. Mesquita usa o ground and pound para forçar reações e abrir espaço para a finalização, exatamente o que aconteceu contra Rendon.
O MMA não permite as pausas estratégicas comuns em competições de jiu-jitsu esportivo. Mesquita parece confortável com esse ritmo acelerado, passando rapidamente de controle para finalização.
Essa fluidez é uma das razões pelas quais ela conseguiu finalizar adversárias com tanta rapidez desde que começou sua carreira no MMA.
Um início promissor no UFC
A vitória sobre Rendon foi a segunda apresentação de Mesquita no Ultimate. Na estreia, ela já havia impressionado ao finalizar Irina Alekseeva no UFC Rio, resultado que lhe rendeu bônus de performance.
Com o triunfo no UFC Vegas 114, a brasileira ampliou seu cartel invicto no MMA e reforçou a ideia de que pode rapidamente entrar no radar do ranking do peso-galo feminino.
Mais importante que os números é a impressão deixada dentro do octógono: Mesquita parece confortável em um ambiente que costuma ser hostil para especialistas de uma única arte marcial.
No entanto, o sucesso inicial de Mesquita também faz parte de uma tendência maior.
Hoje, grapplers que migram para o MMA costumam treinar desde cedo com foco no esporte completo, e não apenas adaptar um estilo de jiu-jitsu puro. Isso gera atletas mais versáteis e preparados para lidar com lutadores completos.
Mesquita se encaixa perfeitamente nesse modelo moderno.Ela continua sendo uma das maiores especialistas em jiu-jitsu da história, mas luta como uma atleta de MMA, não como uma competidora de BJJ tentando sobreviver no octógono.
O que vem a seguir
Aos 34 anos, Mesquita não tem muito tempo para um desenvolvimento lento dentro da organização. Mas se continuar apresentando performances como a de UFC Vegas 114, o UFC pode acelerar seu caminho na divisão.
O peso-galo feminino tem passado por uma fase de renovação, e uma lutadora com pedigree de jiu-jitsu e capacidade real de adaptação pode rapidamente se tornar uma ameaça às atletas ranqueadas.
Se isso acontecer, Mesquita poderá fazer algo que poucas lendas do grappling conseguiram: provar que dominar o jiu-jitsu mundial é apenas o primeiro passo de uma carreira de sucesso no MMA.
(Foto: Zuffa LLC)