Paulo Borrachinha
Lutas UFC

Borrachinha muda de divisão no momento certo, mas assume risco desnecessário com adversário duro

A decisão de Paulo “Borrachinha” Costa de subir definitivamente para os meio-pesados era aguardada há anos. Para muitos, inclusive dentro do próprio UFC, essa mudança parecia inevitável diante das dificuldades recorrentes do brasileiro para bater o limite dos médios e do desgaste físico que isso lhe causava. No entanto, se o movimento de categoria faz sentido estratégico e esportivo, a escolha do adversário para essa estreia em tempo integral levanta questionamentos importantes, e pode custar caro.

Confirmado no UFC 327, em abril, Borrachinha enfrentará o russo Azamat Murzakanov, atual número 6 do ranking dos meio-pesados, em Miami. O combate tem todos os ingredientes de um confronto de alto nível, mas também carrega riscos evidentes para um lutador que tenta reconstruir seu caminho rumo ao topo.

Borrachinha vai se sentir melhor nos meio-pesados, mas Murzakanov é perigoso

Do ponto de vista físico, a mudança de categoria é quase um acerto óbvio. Borrachinha construiu grande parte de sua carreira lidando com cortes de peso agressivos. Mesmo quando conseguia bater os 84 kg, frequentemente parecia desidratado, o que comprometia não apenas seu desempenho, mas também sua consistência entre uma luta e outra. Não à toa, o brasileiro flertou diversas vezes com a ideia de subir para os 93 kg, inclusive em momentos de maior turbulência em sua carreira.

A vitória convincente sobre Roman Kopylov no UFC 318, após derrotas para Sean Strickland e Robert Whittaker, mostrou que Borrachinha ainda é um atleta de elite quando está focado, saudável e mentalmente presente. Mas também deixou claro que seu futuro nos médios era limitado. O topo da divisão está congestionado, e o brasileiro já havia perdido espaço dentro da categoria. Subir era, portanto, mais do que uma escolha: era uma necessidade.

O problema está no “como”. Azamat Murzakanov não é um adversário de transição. Pelo contrário. Invicto em 16 lutas, o russo é um dos nomes mais perigosos e subestimados da divisão. Seu cartel recente inclui vitórias sobre Aleksandar Rakic, Alonzo Menifield e Brendson Ribeiro, sempre com um estilo agressivo, físico e disciplinado. Apesar de já ter 36 anos, Murzakanov é visto há tempos como campeão, tendo sua ascensão interrompida apenas por uma suspensão da USADA.

Colocar Borrachinha diante de um lutador com esse perfil logo na estreia definitiva nos meio-pesados parece um salto alto demais. Não se trata apenas do nível técnico, mas do momento de cada um. Murzakanov está em clara trajetória ascendente, buscando desesperadamente uma vitória de impacto que o coloque em posição de disputar o cinturão. Borrachinha, por outro lado, ainda tenta entender seu lugar na nova divisão, adaptar seu ritmo, sua defesa e, principalmente, sua resistência contra adversários naturalmente maiores e mais fortes.

Há também a questão do estilo. Borrachinha sempre foi um striker agressivo, baseado em pressão constante, golpes potentes e trocação frontal. Nos médios, essa abordagem funcionava pela vantagem física que ele frequentemente impunha. Nos meio-pesados, essa margem diminui drasticamente. Murzakanov, além de forte, é explosivo, técnico e não costuma recuar diante da pressão, exatamente o tipo de adversário que neutraliza as principais virtudes do brasileiro.

A luta faz sentido para o UFC

Do ponto de vista do UFC, o casamento faz sentido. O brasileiro ainda é um nome relevante, vende lutas e chama atenção. Murzakanov precisa de um “nome” no currículo para justificar um title shot. O duelo resolve duas questões com uma luta só. Para Borrachinha, no entanto, o risco é desproporcional. Uma derrota pode jogá-lo diretamente no limbo da divisão, apagando o discurso de “title eliminator” e transformando sua mudança de categoria em mais um capítulo frustrante da carreira.

Curiosamente, esta não será a primeira experiência de Borrachinha nos 93 kg. Em 2021, ele enfrentou Marvin Vettori em um duelo marcado às pressas, em peso casado, após o italiano aceitar subir de divisão. Aquela luta, embora competitiva, terminou em derrota e deixou mais dúvidas do que certezas. Agora, a situação é diferente, mas o desafio é ainda maior.

Nada disso significa que Borrachinha não tenha chances. Seu poder de nocaute segue sendo uma ameaça real em qualquer categoria. Um triunfo sobre Murzakanov o colocaria imediatamente entre os principais nomes da divisão, talvez a uma vitória de uma disputa de cinturão. O problema é que essa é uma aposta de alto risco para um atleta que ainda precisa de estabilidade.

Em resumo, o brasileiro acerta ao ouvir seu corpo e subir de categoria. A mudança pode prolongar sua carreira e devolver parte do ímpeto que o levou a disputar o cinturão anos atrás. Mas erra ao escolher um adversário que não oferece margem para adaptação. Nos meio-pesados, não há espaço para testes, e Borrachinha já começa sua nova jornada andando na corda bamba.

(Foto: Divulgação/UFC)