Gabriel Bortoleto tem sido uma das gratas surpresas da temporada 2025 da Fórmula 1. Estreante pela modesta Sauber, o brasileiro vem demonstrando velocidade, frieza e uma maturidade que poucos esperavam de um piloto recém-chegado à categoria.
Neste sábado (30), durante a classificação para o GP dos Países Baixos, o paulista ficou a meros 0s1 de avançar ao Q3. Diante da frustração por perder a vaga entre os dez melhores, Bortoleto apontou a influência que Yuki Tsunoda teve na sua eliminação.
“Certamente me atrapalhou. Não é que acabou com a minha volta, mas o ar sujo interfere muito e, nesse circuito, se tem um lugar ruim para ficar na frente de outro piloto é naquele trecho. Estava muito perto entre as curvas 9 e 10. Já tinha saído de traseira e perdido 0s1 em relação à volta anterior”, disse Bortoleto à Band.
“Sobre o rádio, é coisa do momento. Ficamos frustrados porque queremos fazer a volta perfeita, sabemos que para chegarmos ao Q3 temos de encaixar tudo muito bem e qualquer coisa pode atrapalhar. Como falei, não é culpa do Tsunoda não ter avançado ao Q3, mas não ajudou”, completou.
É verdade que o japonês não bloqueou diretamente o brasileiro, tampouco o forçou a abortar a volta. Mas o impacto do chamado “ar sujo” é amplamente conhecido no mundo da Fórmula 1, e isso se agrava ainda mais em circuitos de média para alta carga aerodinâmica, como Zandvoort.
Ficar próximo de outro carro entre as curvas 9 e 10, justamente onde a aderência e o equilíbrio do carro são mais exigidos, pode custar preciosos décimos. Foi o que aconteceu. Bortoleto perdeu aderência traseira, escorregou e acabou perdendo o tempo crucial que o separou do Q3.

Mais do que isso: a crítica ao comportamento de Tsunoda não é isolada. O japonês vive mais uma temporada marcada por erros, inconsistências e decisões duvidosas em pista. A essa altura, Tsunoda já deixou de ser uma promessa para se tornar um enigma mal resolvido da Fórmula 1.
Tsunoda em baixa, Bortoleto em alta
Com cinco temporadas nas costas, Tsunoda ainda alterna boas performances ocasionais com um festival de patacoadas que comprometem sua imagem e colocam em risco sua permanência na categoria. Não surpreende, portanto, que ele esteja novamente no radar negativo da mídia especializada.
O contraste com Bortoleto é gritante. O brasileiro, mesmo com um carro inferior, tem mostrado um nível de autocontrole, técnica e leitura de corrida que justificam o investimento da Sauber e, quem sabe, abrem portas maiores no futuro.
Bortoleto reconheceu a frustração, expressou sua visão com clareza, mas evitou cair no vitimismo barato ou na transferência de responsabilidade completa. Isso, por si só, já mostra uma mentalidade de campeão.
A Fórmula 1 precisa de mais pilotos como Gabriel Bortoleto: talentosos, ambiciosos, mas com os pés no chão. Gente que entende que o sucesso na categoria depende de trabalho duro, leitura estratégica e, sim, espírito competitivo. Porque foi isso que vimos neste sábado, um piloto frustrado, mas determinado. Irritado, mas consciente. E acima de tudo, competitivo ao ponto de cobrar mais, de si mesmo e dos outros ao seu redor.
Yuki Tsunoda, por sua vez, precisa refletir seriamente sobre o que pretende da sua carreira. Já não é mais o novato impulsivo de 2021. Já deveria ter aprendido e evoluído. Mas segue sendo parte do problema em diversos fins de semana de corrida, como foi hoje. Sua pilotagem errática não apenas o prejudica, mas também interfere no desempenho dos colegas de grid, como ficou claro no caso de Bortoleto.
No fim das contas, o brasileiro sai fortalecido, mesmo largando apenas em 13º. Mostrou velocidade, mostrou coragem e competitividade em alto nível. Agora, é mirar uma boa corrida neste domingo e, quem sabe, beliscar pontos.
Se há justiça no automobilismo, algo raro, é verdade, a sorte há de sorrir para quem trabalha com seriedade. Gabriel Bortoleto merece isso.
(Imagem de capa: Chandan Khanna / AFP)