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Botafogo cresce com Franclim Carvalho, mas possível saída de Danilo ameaça frear sonho alvinegro

O Botafogo ainda parece viver naquela famosa montanha-russa emocional que o torcedor conhece bem. Em poucos dias, o clube empatou com o Internacional no Nilton Santos, levou uma virada dolorosa para o Remo dentro de casa e, logo depois, conseguiu uma vitória gigante contra o Racing na Sul-Americana.

Se existe uma definição perfeita para o atual momento alvinegro, talvez seja justamente essa: instabilidade nos resultados, mas crescimento claro dentro de campo. E muito disso passa pelas mãos de Franclim Carvalho.

O treinador ainda está longe de ter um Botafogo totalmente pronto, dominante e confiável, mas algumas mudanças começam a ficar evidentes. O time parece mais organizado sem a bola, mais competitivo em jogos grandes e, principalmente, voltou a ter uma identidade minimamente reconhecível, algo que vinha faltando em vários momentos da temporada.

O problema? Existe uma sensação cada vez mais forte de que o Botafogo talvez esteja começando a se encontrar justamente quando pode perder o seu principal jogador. E não estamos falando de uma peça qualquer.

Danilo virou o rosto do Botafogo

Danilo decidiu novamente na vitória sobre o Racing e reforçou algo que já vinha ficando óbvio há algum tempo: hoje, ele é o jogador mais importante do elenco, é a cara do Botafogo. Simplesmente existiu um com ele, e outro pior sem sua presença.

O gol que garantiu o triunfo por 2 a 1 não foi apenas decisivo no placar. Foi mais uma demonstração de personalidade em um time que ainda oscila emocionalmente durante as partidas. Danilo virou aquele tipo de jogador que o torcedor sente confiança quando pega na bola. E isso vale ouro.

Além da qualidade técnica, o meia consegue acelerar transições, quebra linhas carregando a bola e aparece muito bem próximo da área, tem sido muito fatal quando é colocado para marcar os gols. É o atleta que dá criatividade ao time, mas também intensidade. Basicamente aquele famoso “cara que resolve” quando o jogo começa a ficar feio.

E sinceramente? O futebol brasileiro está cada vez mais carente desse perfil. O Botafogo sabe disso. O mercado europeu sabe disso. E provavelmente CBF  também já percebeu.

A Copa do Mundo deixou de ser um ponto distante desde a convocação dele neste ano, Danilo fez questão de se adaptar rapidamente, e colocar um ponto de interrogação forte na cabeça de Lucas Paquetá, que era visto como uma escolha bem segura para o setor. Agora, a dúvida cai nas costas de Andrey Santos também, porque não se sabe ao certo se o jogador conseguirá recuperar os pontos perdidos, enquanto o jogador do Botafogo fazia chover.

E a equipe alvinegra vive uma realidade onde ignorar uma venda milionária simplesmente não parece possível.

Botafogo evolui, mas a realidade está longe de ser interessante

Existe um lado esportivo da discussão e existe o lado financeiro. No caso do Botafogo, os dois problemas caminham juntos e talvez o segundo seja ainda mais preocupante neste momento.

Porque, apesar da evolução dentro de campo sob comando de Franclim Carvalho, a realidade financeira do clube é extremamente delicada. E não estamos falando apenas de uma situação “apertada”. O cenário atual do Botafogo é tratado internamente quase como uma corrida contra o tempo para evitar um colapso ainda maior.

O balanço financeiro divulgado recentemente pela SAF revelou uma dívida próxima de R$ 2 bilhões. Só em valores relacionados à contratação de jogadores, o clube acumula cerca de R$ 1,1 bilhão em pendências. Além disso, mais de R$ 1,3 bilhão aparecem como dívidas de curto prazo, ou seja, com vencimento em até 12 meses.

A situação ficou tão séria que a auditoria responsável pelo balanço se recusou a emitir uma opinião definitiva sobre as contas do clube, alegando falta de acesso completo às informações financeiras. E isso ajuda a explicar por que o Botafogo hoje não pensa em vender jogadores por estratégia esportiva. A sensação é muito mais de necessidade.

Danilo, Álvaro Montoro e Alexander Barboza viraram os principais ativos do clube para tentar aliviar o caixa. Não porque o Botafogo queira desmontar o elenco no meio da temporada, mas porque talvez não exista outra saída viável no curto prazo.

Relatórios recentes apontam que o clube projeta arrecadar até 70 milhões de euros, aproximadamente R$ 409 milhões com as possíveis vendas do trio. O problema é que vender os principais jogadores para sobreviver financeiramente quase sempre cobra um preço esportivo pesado.

Danilo, por exemplo, talvez seja hoje o atleta mais importante do elenco. Além do impacto técnico dentro de campo, o meia ainda pode se valorizar ainda mais caso confirme presença na Seleção Brasileira. O Botafogo sabe que uma convocação para a Copa do Mundo praticamente explode o valor de mercado do jogador.

Já Montoro aparece como uma das maiores joias do clube. Internamente, existe até discussão sobre segurá-lo até dezembro para tentar valorização maior, mas a crise financeira torna qualquer resistência muito complicada. No caso de Barboza, o cenário parece ainda mais avançado. O zagueiro já aparece fortemente ligado ao Palmeiras em uma negociação que pode girar em torno de US$ 4 milhões.

E o mais preocupante para o torcedor talvez seja perceber que o Botafogo não transmite sensação de controle sobre a situação. Nos últimos meses, o clube acumulou problemas envolvendo transfer ban da FIFA, atrasos em pagamentos, empréstimos considerados extremamente pesados e até ações judiciais relacionadas a comissões de jogadores.

Um dos casos mais alarmantes envolve um empréstimo milionário feito pela SAF. Segundo informações recentes, a dívida ligada à operação já ultrapassaria R$ 270 milhões, com juros extremamente agressivos e garantias envolvendo futuras receitas do clube, incluindo possíveis vendas de atletas.

Ou seja: quando se fala sobre Danilo, Montoro e Barboza, não é exagero dizer que o Botafogo enxerga os três como peças fundamentais para evitar um cenário ainda pior financeiramente. E isso cria uma situação complicada dentro de campo.

Porque o clube começa a mostrar evolução com Franclim Carvalho justamente no momento em que corre enorme risco de perder alguns dos jogadores mais importantes do elenco. É quase como montar um time competitivo enquanto o teto da casa continua desabando.

A vitória sobre o Racing Club mostrou que existe potencial técnico para competir em alto nível. O Botafogo parece mais organizado, mais intenso e emocionalmente mais forte do que em outros momentos da temporada. Só que a realidade financeira impede qualquer sensação de tranquilidade. Hoje, o Botafogo não vende porque quer vender. O clube vende porque precisa sobreviver.

Franclim começa a encontrar soluções, mas perder Danilo mudaria tudo

Apesar dos altos e baixos, Franclim Carvalho começa a mostrar ideias interessantes.

O Botafogo parece mais agressivo na pressão pós-perda, os laterais participam mais do jogo ofensivo e existe uma tentativa clara de aumentar intensidade sem a bola. Não é um time brilhante ainda, mas pelo menos deixou de parecer completamente perdido em campo. E isso tem mérito do treinador.

A vitória sobre o Racing talvez tenha sido o principal exemplo até aqui. O clube argentino naturalmente oferece um nível de dificuldade muito maior do que a maioria dos adversários nacionais, e mesmo assim o Botafogo conseguiu competir fisicamente e mentalmente durante boa parte do jogo.

O problema é que o crescimento coletivo ainda depende demais de Danilo. E perder um jogador desse nível no meio da evolução pode mudar completamente o planejamento da temporada. É quase aquela sensação de estar montando um quebra-cabeça e perceber que a peça principal pode ir embora antes do desenho ficar pronto.

Claro, o Botafogo já passou por situações parecidas antes. O futebol brasileiro inteiro vive isso constantemente. Palmeiras, Flamengo, Athletico-PR e vários outros clubes também precisaram reaprender a competir mesmo vendendo talentos para fora.

Mas existe uma diferença importante: Danilo não parece apenas uma promessa comum. Ele tem potencial para virar protagonista de alto nível no futebol europeu e presença constante na Seleção Brasileira. E quando um jogador alcança esse patamar, segurar fica quase impossível.

No fim das contas, o Botafogo vive um momento curioso. O time começa a dar sinais reais de evolução com Franclim Carvalho, volta a competir melhor em jogos grandes e encontra um caminho minimamente otimista para a temporada.

Só que, ao mesmo tempo, talvez já esteja acontecendo a contagem regressiva para perder justamente o jogador que torna tudo isso possível.

Foto: Vitor Silva/Botafogo