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Botafogo tem evolução clara, mas precisa ajustar detalhes para brigar no Brasileirão

O Botafogo vive um processo de reconstrução sob o comando de Franclim Carvalho, e o empate por 1 a 1 com o Fluminense, no último sábado, pelo Brasileirão, deixou justamente essa sensação. O time apresenta sinais de evolução, tem uma ideia de jogo cada vez mais perceptível e já consegue competir em diferentes contextos, mas ainda está longe de ser uma equipe plenamente consolidada. O clássico no Nilton Santos mostrou tanto o potencial do trabalho quanto algumas limitações que precisarão ser corrigidas na reta final da temporada.

O resultado, diante de um Fluminense que entrou em campo com uma equipe mista, não chega a ser ruim isoladamente. O problema está na maneira como a partida se transformou depois do intervalo. O Botafogo foi superior em boa parte do primeiro tempo mesmo tendo menos posse de bola, mas perdeu intensidade na etapa final e permitiu que o rival transformasse o controle da bola em domínio territorial e produção ofensiva.

Essa diferença entre os dois tempos talvez seja o principal diagnóstico que Franclim Carvalho precise fazer. O Botafogo já parece saber como jogar quando consegue executar seu plano, mas ainda precisa descobrir como reagir quando o adversário consegue impedir que esse plano funcione.

Botafogo não precisa necessariamente ter a bola, mas precisa saber sofrer

A proposta de Franclim parece relativamente clara. O Botafogo não busca necessariamente controlar as partidas através da posse de bola. A ideia passa por povoar o meio-campo, fechar espaços e, quando recuperar a bola, atacar com velocidade e objetividade.

Foi exatamente isso que aconteceu no primeiro tempo. O Fluminense terminou os 45 minutos com 56% de posse, mas não conseguiu transformar essa superioridade estatística em controle real da partida. O Botafogo, mesmo com menos tempo com a bola, parecia mais perigoso e mais confortável no jogo.

A equipe conseguiu circular rapidamente quando recuperava a posse, encontrou espaços no campo ofensivo e criou as melhores oportunidades. O gol de Alex Telles, em uma bela cobrança de falta aos 43 minutos, foi a recompensa de uma atuação na qual o Botafogo conseguiu executar sua proposta com eficiência.

O problema apareceu quando o Fluminense conseguiu mudar a natureza da partida. No segundo tempo, o rival não apenas ficou mais tempo com a bola, mas passou a controlar o território, empurrando o Botafogo para trás. Em menos de 20 minutos, criou cinco oportunidades, número superior ao de todo o primeiro tempo. O empate de Ignácio, aos 13 minutos, foi consequência dessa pressão.

É justamente aí que está um dos principais pontos de evolução do Botafogo: não basta aceitar jogar sem a bola; é necessário saber sofrer quando o adversário consegue controlar o jogo.

Uma equipe pode perfeitamente conquistar resultados importantes sem ter maior posse. O problema aparece quando a ausência da bola significa também ausência de controle. Foi o que aconteceu no Nilton Santos durante boa parte da segunda etapa.

Franclim precisa encontrar uma maneira de fazer o Botafogo continuar competitivo nesses momentos. Isso pode acontecer através de uma pressão mais coordenada, de uma saída de bola capaz de aliviar a defesa ou simplesmente de períodos maiores de posse para diminuir o ritmo do adversário.

Eficiência ofensiva também é um problema

Se o comportamento defensivo ainda precisa de ajustes, o ataque apresenta uma questão igualmente importante: a capacidade de transformar volume em gols.

O Botafogo terminou a partida com 21 finalizações, nove delas no alvo. Os números mostram uma equipe capaz de chegar ao último terço e produzir oportunidades, mas que ainda não consegue aproveitar tudo aquilo que constrói.

E esse problema ganha ainda mais peso em uma equipe que não pretende controlar os jogos através da posse. Se o plano é ter menos bola, as oportunidades criadas precisam ser aproveitadas com uma taxa de eficiência maior. Não há tanta margem para desperdiçar chances quando o adversário provavelmente terá mais tempo para controlar a partida.

O próprio clássico mostrou isso. Antes de o Fluminense empatar, o Botafogo teve oportunidades para ampliar com Arthur Cabral e Vilalba. Se uma delas tivesse terminado em gol, o cenário provavelmente seria completamente diferente.

Esse é um ponto importante porque o Botafogo parece ter encontrado mecanismos para chegar ao ataque. O próximo passo é transformar essas chegadas em uma ameaça mais constante.

A equipe não pode depender exclusivamente de um lance individual, como aconteceu com Alex Telles, ou de momentos de inspiração. Para disputar objetivos maiores, precisará ser mais eficiente.

Franclim percebeu rapidamente que o jogo havia mudado e fez alterações para tentar recuperar o controle. Matheus Martins e Barrera entraram nas vagas de Kauan Toledo e Vilalba. Posteriormente, Paulinho, Danilo Pereira e Lucas Emanuel também foram acionados.

As mudanças, porém, não foram suficientes para modificar a dinâmica da partida. Isso não significa necessariamente que as substituições tenham sido equivocadas. O problema parece mais profundo: o Botafogo perdeu intensidade como equipe. O Fluminense passou a controlar o meio-campo e o time alvinegro não encontrou uma resposta coletiva capaz de recuperar o comportamento apresentado no primeiro tempo.

É um tipo de problema comum em equipes que ainda estão em processo de construção. A ideia de jogo pode existir, mas sua execução ainda não é suficientemente estável para sobreviver a todos os momentos de uma partida.

Por isso, o trabalho de Franclim precisa avançar justamente nesse aspecto. O Botafogo precisa ter mais de uma maneira de controlar um jogo.

A reconstrução já apresenta sinais positivos, mas a reta final exigirá mais

O empate com o Fluminense não deve ser tratado como um retrocesso. Depois da Copa, o Botafogo soma duas vitórias e dois empates, ambos os últimos em casa. Existe uma evolução de desempenho e, principalmente, uma identidade que começa a aparecer sob Franclim.

Mas também seria precipitado transformar essa sequência em prova de que todos os problemas foram solucionados. O Botafogo ainda precisa mostrar que consegue manter intensidade durante os 90 minutos, controlar períodos de pressão adversária e ser mais eficiente diante do gol. São detalhes que podem fazer enorme diferença em uma reta final na qual cada ponto terá peso.

A classificação direta para a Libertadores e a disputa pelo título da Sul-Americana exigem justamente uma equipe capaz de sobreviver aos momentos ruins sem perder completamente o controle da partida.

O clássico contra o Fluminense mostrou que o Botafogo já consegue competir. O próximo passo é conseguir dominar diferentes tipos de jogo.

E talvez essa seja a principal missão de Franclim Carvalho nos próximos meses: transformar uma equipe que já demonstra bons momentos em um time capaz de sustentá-los. A reconstrução está em andamento, mas o Botafogo ainda precisa provar que consegue sofrer sem ser dominado, atacar sem desperdiçar e, principalmente, manter sua identidade quando o plano inicial deixa de funcionar.

(Foto: Vitor Silva/Botafogo)