A demissão de Martín Anselmi no Botafogo escancarou um problema estrutural que vem se repetindo no clube desde a chegada da SAF: a ausência de uma linha clara de pensamento futebolístico. E nada evidencia mais essa desorganização do que a lista de nomes especulados para assumir o cargo.
Entre os possíveis substitutos aparecem Hernán Crespo, Fernando Diniz, Pepa e Juan Pablo Vojvoda. Quatro treinadores, quatro estilos radicalmente diferentes. Mais do que uma simples diversidade de opções, essa variedade revela um clube que ainda não sabe exatamente o que quer ser dentro de campo.
A busca que revela incoerência
Em um cenário ideal, a escolha de um treinador seria consequência de um projeto previamente definido. Primeiro, o clube estabelece sua identidade, estilo de jogo, perfil de elenco, filosofia de formação, coisa que Textor até prometeu com o “Botafogo Way”, e, a partir disso, busca um técnico alinhado a esses princípios.
No caso do Botafogo, o processo parece invertido. Os nomes analisados pela diretoria não compartilham uma mesma visão de futebol. Pelo contrário, representam abordagens quase opostas: Hernán Crespo traz perfil pragmático, com forte organização defensiva e transições rápidas Fernando Diniz é adepto de um modelo aposicional extremo, baseado em posse, aproximação e construção desde trás
Pepa, por sua vez, é um treinador mais flexível, com tendências ao jogo direto e adaptação ao elenco, mas que é conhecido por demorar para emplacar seus trabalhos. Vojvoda é conhecido por intensidade, marcação alta e variações táticas bem estruturadas.
Essa amplitude de perfis sugere que o clube não está procurando “o treinador ideal”, mas sim tentando encontrar uma solução emergencial, qualquer uma que funcione no curto prazo.
O reflexo da gestão de John Textor
A condução desse processo recai diretamente sobre John Textor. Desde que assumiu o controle do clube, Textor tem adotado um modelo de gestão agressivo, com mudanças frequentes e decisões muitas vezes reativas. A demissão de Anselmi se encaixa nesse padrão.
Contratado como parte de uma reformulação, o argentino não teve tempo suficiente para consolidar seu trabalho. Sua saída precoce levanta dúvidas não apenas sobre sua capacidade, mas sobre o próprio critério de escolha inicial. E a lista de possíveis substitutos reforça essa percepção: não há continuidade, apenas ruptura. Cada um dos nomes especulados traz consigo vantagens e riscos, mas, sobretudo, exigências específicas.
Hernán Crespo, por exemplo, demandaria um elenco disciplinado taticamente e adaptado a um modelo mais reativo. Sua experiência recente mostra capacidade de organização, mas também limitações em contextos de maior exigência ofensiva.
Diniz representa o extremo oposto. Seu estilo exige tempo, paciência e jogadores tecnicamente preparados para executar um modelo complexo. Em um ambiente instável como o do Botafogo atual, a adaptação poderia ser turbulenta.
Pepa surge como uma opção intermediária, mais pragmática, mas sem o mesmo peso ou histórico que inspire confiança imediata em um momento de pressão. Já Vojvoda poderia forçar uma transição de formação e de estilo de jogo que talvez não seja o perfil ideal para o Botafogo no momento. Quando tentou fazer isso no Santos, encontrou barreiras que se tornaram intransponíveis, gerando sua demissão.
Falta de identidade como problema central
O ponto mais preocupante não é a qualidade dos nomes, mas o que eles representam em conjunto. Quando um clube considera perfis tão distintos, a mensagem implícita é clara: não existe uma identidade definida.
Isso impacta diretamente o desempenho em campo. Jogadores são contratados para um estilo que pode mudar em poucos meses. Elencos ficam desequilibrados. E o tempo de adaptação se reinicia a cada troca de treinador. No futebol moderno, onde continuidade é cada vez mais valorizada, essa falta de direção se torna um obstáculo significativo.
A pressão por resultados imediatos é compreensível, especialmente após eliminações e desempenho abaixo do esperado. Mas decisões baseadas exclusivamente no curto prazo tendem a comprometer o futuro. O Botafogo já viveu esse ciclo recentemente: mudanças rápidas, expectativas elevadas e frustrações recorrentes. Sem uma mudança de abordagem, a troca de treinador corre o risco de ser apenas mais um capítulo de um roteiro previsível
A falha do “Botafogo way”
O Botafogo não sofre por falta de alternativas no mercado. Crespo, Diniz, Pepa e Vojvoda são nomes relevantes, cada um com qualidades comprovadas. O problema está na ausência de um critério claro para escolhê-los.
Sem uma visão definida, qualquer contratação corre o risco de se tornar apenas temporária. E, nesse cenário, o clube permanece preso a um ciclo de reinvenção constante — onde cada novo começo já nasce com prazo de validade.
No fim, a questão central não é quem será o próximo treinador. É se, desta vez, o “Botafogo way” finalmente seguirá um caminho correto em um projeto que respira por aparelhos.
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