A contratação de Ayyoub Bouaddi pode parecer, à primeira vista, um movimento curioso do Manchester City. Afinal, o clube acabou de desembolsar £116 milhões para tirar Elliot Anderson do Nottingham Forest e reforçar o meio-campo. Por que, então, gastar novamente em outro jogador para o mesmo setor? A resposta passa por uma palavra que resume o atual momento do time: reconstrução.
O Manchester City não está apenas procurando mais uma peça para completar o elenco. O clube precisa preparar um meio-campo capaz de sobreviver às mudanças provocadas pelo fim da era Pep Guardiola e, principalmente, por uma possível saída de Rodri. Nesse cenário, Bouaddi aparece com características bastante diferentes das de Anderson e, justamente por isso, os dois podem ser complementares em vez de concorrentes diretos.
Aos 18 anos, o jovem do Lille já acumulou uma experiência que foge completamente do padrão para alguém de sua idade. Ele estreou profissionalmente poucos dias depois de completar 16 anos, disputou a Champions League ainda adolescente e ganhou destaque em uma Copa do Mundo na qual conseguiu enfrentar alguns dos melhores meio-campistas do planeta sem parecer intimidado.
Agora, o Manchester City acredita que ele pode estar pronto para dar o próximo passo.
Bouaddi chamou atenção antes mesmo da Copa do Mundo
Quem acompanhou a campanha de Marrocos na Copa do Mundo certamente já percebeu o nome de Ayyoub Bouaddi. O meio-campista chamou atenção não apenas pelo cabelo cacheado que virou uma espécie de marca registrada, mas principalmente pela tranquilidade apresentada em um palco no qual a maioria dos jogadores de sua idade ainda estaria tentando entender o tamanho da oportunidade.
Um dos jogos que mais ajudaram a colocar Bouaddi no radar internacional foi justamente o confronto contra o Brasil. Diante de um meio-campo experiente, com Casemiro e Bruno Guimarães, o jovem conseguiu competir fisicamente e tecnicamente, aparecendo com frequência para recuperar bolas e iniciar as jogadas.
Não foi a primeira vez que ele impressionou contra adversários de elite.
Bouaddi fez sua estreia pelo Lille em 2023, apenas três dias depois de completar 16 anos. Um ano depois, no dia em que completou 17, foi titular em sua primeira partida completa pela Champions League e ajudou o Lille a derrotar o Real Madrid. E não foi uma vitória qualquer.
O time francês encerrou uma sequência de 14 partidas de invencibilidade do gigante espanhol na competição. No meio-campo do Real estavam Fede Valverde, Eduardo Camavinga e Jude Bellingham, mas quem acabou chamando atenção foi justamente um adolescente que ainda era praticamente desconhecido fora da França.
Bouaddi percorreu mais distância do que qualquer outro jogador naquela partida. Não é exatamente o tipo de apresentação que passa despercebida.
O que Bouaddi pode oferecer ao City?
A principal característica de Ayyoub Bouaddi é a capacidade de atuar como um meio-campista mais recuado, responsável por controlar o ritmo da partida e proteger a equipe quando ela perde a bola, sem esquecer de ser uma das principais pessoas a armar o ataque da equipe.
É justamente aqui que aparece a comparação com Rodri.
Bouaddi não é uma cópia do espanhol e seria injusto colocar esse peso sobre um jogador de apenas 18 anos. Porém, seu perfil tático apresenta semelhanças. O marroquino funciona como uma espécie de âncora no meio-campo, oferecendo linhas de passe, recuperando bolas e conduzindo a equipe para frente.
Isso é diferente do que Elliot Anderson oferece.
Contratado por £116 milhões, Anderson tem um perfil mais associado ao jogador box-to-box. É um meio-campista que percorre grandes distâncias, participa das duas áreas e oferece intensidade para atacar e defender.
Bouaddi, por outro lado, pode atuar mais atrás. E essa diferença ajuda a explicar por que o Manchester City entende que os dois podem jogar juntos.
Anderson e Bouaddi podem formar uma dupla complementar
No 4-2-3-1 utilizado por Enzo Maresca, a combinação entre Elliot Anderson e Ayyoub Bouaddi pode fazer bastante sentido.
Enquanto Anderson teria maior liberdade para avançar, pressionar e aparecer próximo da área adversária, Bouaddi poderia permanecer mais próximo da defesa, oferecendo equilíbrio e funcionando como o primeiro organizador das jogadas.
Em outras palavras, Anderson pode ser o motor e Bouaddi o cérebro mais recuado.
Essa divisão de responsabilidades permitiria ao Manchester City ter um meio-campo mais equilibrado. E isso é especialmente importante diante da possibilidade de perder Rodri, Bernardo Silva e até Tijjani Reijnders, dependendo dos movimentos do mercado.
Por isso, contratar Bouaddi não significa necessariamente que o City esteja repetindo a mesma contratação. A ideia é preencher funções diferentes.
Números mostram por que Bouaddi impressiona
A pouca idade de Bouaddi não significa pouca experiência. O jogador já se aproximou das 100 partidas competitivas pelo Lille, número impressionante para alguém que acaba de completar 18 anos.
Na última temporada, ele liderou todos os companheiros de equipe em recuperações de posse, com 151. Também registrou 5,8 recuperações por 90 minutos, número que ficou no topo do elenco.
Esses dados ajudam a explicar por que ele despertou o interesse de alguns dos maiores clubes da Europa.
Arsenal, Paris Saint-Germain e Bayern de Munique já monitoraram o jogador, mas o Manchester City parece ter avançado mais rapidamente na disputa. O clube inglês entende que o marroquino não é apenas uma aposta para daqui a três ou quatro anos.
A intenção é utilizá-lo desde já.
Enzo Maresca acredita que Bouaddi está pronto
Esse ponto talvez seja o mais importante de toda a negociação.
O Manchester City não estaria buscando Ayyoub Bouaddi apenas para deixá-lo no banco, emprestá-lo ou esperar pacientemente até que ele esteja pronto para o futebol inglês. Enzo Maresca acredita que o jogador possui condições de integrar imediatamente o elenco.
A confiança vem justamente da experiência acumulada pelo jovem.
Bouaddi já jogou contra adversários de alto nível, participou da Champions League e disputou uma Copa do Mundo. Ele também passou por todas as categorias de base da França antes de optar por defender Marrocos no futebol internacional.
Ainda existe, obviamente, um processo de adaptação.
A Premier League é mais intensa, física e veloz do que a Ligue 1 em diversos aspectos, e jogadores que chegam da França nem sempre conseguem fazer a transição de maneira imediata. Por isso, seria exagero esperar que Bouaddi simplesmente desembarque na Inglaterra e assuma o papel de Rodri no primeiro jogo.
Por que o City precisa de outro meio-campista?
A explicação mais simples está no calendário.
O Manchester City terá uma temporada com mais de 60 partidas possíveis entre Premier League, Champions League, copas nacionais e demais competições. Para uma equipe que pretende disputar todos os títulos, ter apenas um ou dois jogadores confiáveis para determinadas funções seria um risco enorme.
A saída de Bernardo Silva já diminui a experiência do setor.
Caso Rodri também deixe o clube, a necessidade será ainda maior. E se Tijjani Reijnders também entrar no mercado, a situação pode exigir uma reformulação quase completa do meio-campo.
É nesse contexto que a contratação de Anderson e a possível chegada de Bouaddi deixam de parecer exageradas.
O Manchester City não está simplesmente enchendo o elenco de meio-campistas. Está tentando evitar que uma posição fundamental fique dependente de poucas peças.
Bouaddi tem características que combinam com o estilo do City
Outro motivo para o interesse está na maneira como Bouaddi joga.
O marroquino combina força física com tranquilidade para receber a bola sob pressão. Ele consegue conduzir a posse por longas distâncias, escapar da marcação e encontrar companheiros em posições avançadas.
Essa capacidade é especialmente valiosa para uma equipe que pretende controlar a partida através da posse de bola.
No Manchester City, o meio-campista não terá apenas de recuperar a bola. Precisará saber o que fazer depois de recuperá-la.
Bouaddi parece ter essa característica.
Rayan Cherki, companheiro do jogador nas seleções de base da França, chegou a apelidá-lo de “Einstein”, uma referência à sua inteligência dentro de campo. Quando um jogador tecnicamente talentoso como Cherki utiliza esse tipo de comparação, é um sinal de que existe algo diferente ali.
City não pode esperar um novo Rodri imediatamente
Apesar de todas as semelhanças, é importante colocar as expectativas no lugar certo. Ayyoub Bouaddi tem apenas 18 anos.
Rodri chegou ao Manchester City com 23 e já tinha experiência considerável no futebol profissional. O espanhol levou tempo para assumir completamente o controle do meio-campo e se tornar um dos melhores jogadores do mundo em sua posição.
Bouaddi terá seu próprio processo.
A vantagem é que o Manchester City parece disposto a oferecer esse espaço dentro do próprio elenco. Em vez de contratar um jogador jovem pensando apenas no futuro, o clube acredita que o marroquino já pode contribuir enquanto continua evoluindo.



