A Seleção teve dificuldades para construir jogadas desde o primeiro tempo. A Austrália conseguiu encontrar espaços para atacar e chegou a criar algumas situações perigosas, enquanto o Brasil demorava para conectar seus meio campistas com os quatro jogadores de frente. Estêvão, Endrick, Vinicius Júnior e Raphinha formaram um ataque com muito talento individual, mas a equipe não conseguiu transformar essa qualidade em uma produção ofensiva consistente.
O cenário ficou ainda mais complicado depois do gol australiano. Irakunda acertou uma bela cobrança de falta e colocou a Austrália em vantagem, obrigando o Brasil a buscar uma reação. Ancelotti promoveu mudanças durante a etapa final, mas manteve praticamente as mesmas funções para os jogadores. A Seleção passou a atacar principalmente pelos lados e acumulou cruzamentos, chegando a 22 durante a partida. No último deles, Rayan apareceu para marcar de cabeça e evitar a derrota.
Danilo e Bruno Guimarães recuam demais e Brasil perde criatividade

Um dos principais problemas apresentados pelo Brasil esteve na construção pelo meio de campo. Danilo e Bruno Guimarães recuavam constantemente para receber a bola praticamente ao lado dos zagueiros. A intenção de ajudar na saída de jogo é compreensível, mas o movimento acabou criando outro problema: quando os dois avançavam, os atacantes estavam muito distantes e a conexão entre os setores praticamente desaparecia.
Com poucas opções próximas para receber a bola, o Brasil passou a procurar os jogadores de ataque principalmente através de lançamentos e passes em profundidade. O problema é que essas tentativas não estavam causando um efeito positivo constante e muitas jogadas terminavam sem que a equipe conseguisse entrar em condições favoráveis no campo de ataque.
Danilo também poderia oferecer mais criatividade. O meio campista tem capacidade para avançar, participar da construção e aparecer dentro da área, mas durante a partida exerceu muitas vezes uma função semelhante à de terceiro zagueiro. Com isso, apareceu pouco na criação.
A questão não está na qualidade individual de Danilo ou Bruno Guimarães. Os dois possuem capacidade técnica para jogar em alto nível. O problema está na estrutura. Com apenas dois meio campistas, ambos acabam tendo uma responsabilidade defensiva muito grande e o Brasil perde jogadores entre as linhas. O resultado é uma equipe com quatro atacantes no papel, mas com dificuldade para fazer a bola chegar até eles em boas condições.
Falta entrosamento entre os quatro atacantes

Outro problema ficou evidente no setor ofensivo. O Brasil possui quatro jogadores de ataque com enorme capacidade individual, mas ainda falta entrosamento para que eles consigam interpretar os movimentos uns dos outros de maneira natural.
Um lance aos 34 minutos resume bem essa questão. Estêvão recebeu um lançamento, conseguiu escapar da marcação e encontrou Vinicius Júnior. Depois de dominar a bola, Vinicius tinha Raphinha aparecendo em infiltração e oferecendo uma opção clara de passe que poderia deixá-lo em condição de ficar cara a cara com o goleiro.
Vinicius, porém, optou pelo cruzamento para a área e a jogada não funcionou. O lance mostra que o problema não é a falta de alternativas. Em alguns momentos, o Brasil chega ao ataque com três ou quatro jogadores próximos e oferece diferentes possibilidades de passe. O que ainda falta é uma compreensão melhor entre eles para escolher a melhor solução.
O próprio gol brasileiro reforça essa dificuldade. Apesar de contar com quatro atacantes, o Brasil só conseguiu marcar em uma cobrança de escanteio. A bola parada acabou sendo mais eficiente do que as jogadas construídas com a bola rolando.
Vinicius Júnior continua sem conseguir ser decisivo

Vinicius Júnior também teve uma atuação abaixo do esperado e manteve uma fase ruim que já vinha sendo observada no Real Madrid. O atacante terminou a partida com três finalizações, mas nenhuma delas realmente levou perigo ao gol australiano.
O dado mais chamativo foi a ausência de dribles tentados. A jogada individual é uma das principais características do futebol de Vinicius, especialmente quando recebe a bola aberto e parte para cima dos defensores. Contra a Austrália, ele não conseguiu apresentar essa característica nenhuma vez.
Além disso, Vinicius perdeu a posse de bola oito vezes, recebeu apenas uma falta e registrou somente duas conduções progressivas. Para um jogador que normalmente consegue carregar a bola por muitos metros e quebrar linhas através da velocidade e do drible, os números mostram uma participação ofensiva abaixo do que se espera.
É importante considerar que a estrutura da equipe também não ajudou o atacante. Vinicius recebeu muitas vezes a bola distante dos companheiros e teve poucas combinações próximas. Ainda assim, sua atuação individual ficou abaixo do nível que ele normalmente apresenta.
O 4 2 4 funciona no contra ataque, mas apresenta problemas com posse

A utilização de quatro atacantes pode funcionar quando o Brasil recupera a bola e consegue acelerar rapidamente. Foi possível observar alguns momentos em que a Seleção recuperava a posse e encontrava os atacantes correndo em direção ao gol. Nesses momentos, a velocidade de Vinicius, Raphinha, Estêvão e Endrick pode ser extremamente perigosa.
O problema é que esse não será o cenário da maioria dos jogos do Brasil. A Seleção tende a ter bastante posse de bola contra adversários que vão se defender mais atrás. Por isso, o 4-2-4 precisa oferecer respostas também quando o adversário fecha os espaços.
Contra a Austrália, isso ficou evidente depois do gol de Irakunda. A equipe australiana recuou e o Brasil encontrou ainda mais dificuldades para entrar na área. Sem espaços pelo centro, a Seleção passou a buscar os cruzamentos constantemente.
Foram 22 cruzamentos durante a partida, um número que mostra como o Brasil passou a utilizar esse recurso com frequência. Porém, a maioria não conseguiu criar perigo suficiente. O único cruzamento realmente decisivo aconteceu no último lance, quando Raphinha colocou a bola na cabeça de Rayan e o atacante marcou o gol de empate.
O problema, portanto, não é simplesmente ter quatro atacantes. É conseguir criar mecanismos para que esses jogadores recebam a bola em condições favoráveis quando o adversário estiver fechado.
Hugo Souza também deixa dúvidas nas bolas aéreas

Outro ponto que chamou atenção foi a atuação de Hugo Souza. O goleiro teve dificuldades principalmente nas bolas aéreas e nas cobranças de bola parada.
Antes do gol australiano, Hugo já havia demonstrado insegurança em algumas situações. Em uma cobrança de escanteio, saiu para tentar afastar a bola, mas não conseguiu alcançá-la e a bola passou por ele. Pouco depois, em outra cobrança, mostrou novamente receio para sair do gol. A bola atravessou a área e passou muito perto da trave oposta, em um lance que quase terminou em um gol olímpico.
Na cobrança que terminou no gol de Irakunda, a situação foi ainda mais importante. O australiano bateu de longe, mas Hugo Souza nem sequer foi na bola, ficando parado enquanto a cobrança terminou no fundo das redes.
Dentro de um ciclo em que Ancelotti precisa avaliar opções para o futuro, esse cenário também abre espaço para que outros goleiros convocados sejam observados. Pedro Morisco e Otávio estão entre os nomes que podem receber oportunidades nos amistosos e serem avaliados em situações reais com a Seleção.
Ancelotti muda os jogadores, mas mantém as mesmas funções

As substituições também levantaram uma questão importante sobre o trabalho de Ancelotti. Durante a partida, o treinador mudou os jogadores, mas não conseguiu alterar significativamente o funcionamento do sistema.
O ponto mais interessante é que os quatro atacantes possuem características que permitem diferentes movimentações. Raphinha pode circular pelo meio, cair pela direita e também exercer a função de 9, posição em que vem atuando no Barcelona. Estêvão também possui qualidade para jogar por dentro e participar mais da construção. Endrick pode se movimentar pelos lados, enquanto Vinicius naturalmente consegue trocar de posição e atacar diferentes espaços.
Contra a Austrália, porém, essas possibilidades foram pouco exploradas. Raphinha teve poucas movimentações pelo centro, Estêvão ficou muito preso ao lado direito e Endrick permaneceu praticamente responsável pela função de 9.
As substituições seguiram a mesma lógica. Rayan entrou no lugar de Estêvão e ocupou o lado direito. Samuel Lino substituiu Vinicius Júnior pela esquerda, enquanto Pedro entrou no lugar de Endrick e permaneceu como referência central.
Ou seja, os nomes mudaram, mas as funções continuaram praticamente iguais. Para uma equipe que ainda está buscando identidade, talvez seja justamente essa capacidade de movimentação que possa fazer diferença. O Brasil tem jogadores capazes de desempenhar diferentes funções, mas precisa encontrar uma maneira de fazer essas características funcionarem juntas.
O empate com a Austrália, portanto, deixa mais perguntas do que respostas. O resultado foi salvo no último lance, mas a partida mostrou problemas na construção, falta de entrosamento no ataque, dificuldades contra uma defesa fechada e dúvidas em algumas posições. Para Ancelotti, o grande desafio desse novo ciclo será transformar a qualidade individual disponível em um time capaz de controlar os jogos também quando o contra ataque não for a principal arma.
(Foto de capa: SAEED KHAN / AFP)


