Uma das gerações mais elogiadas do futebol mundial hoje é a do Japão. Com nomes como Takumi Minamino, Takefusa Kubo, Daichi Kamada, Ritsu Doan e Hiroki Ito, os Samurais Azuis vêm acumulando resultados expressivos, como as incluindo vitórias recentes sobre o Brasil, Alemanha e Espanha. Esse crescimento técnico e tático não é por acaso. Existe um fio histórico que conecta essa evolução a uma das principais ligas do mundo: a Bundesliga.
O futebol alemão funcionou — e ainda funciona — como um verdadeiro laboratório para o jogador japonês. Uma relação que começou há mais de um século e atravessa gerações, passando por nomes como Hidetoshi Nakata, Keisuke Honda e Yasuhiko Okudera, pioneiros nesse intercâmbio que hoje parece natural.
Seleção japonesa e o “prisioneiro de Hiroshima”
Parece roteiro de filme, mas é um episódio real — e fundamental para entender essa conexão. Em 1919, no pós-Primeira Guerra Mundial, o Japão mantinha prisioneiros alemães em seu território. Foi nesse contexto, na cidade de Hiroshima, que aconteceu um dos primeiros contatos diretos dos japoneses com o futebol europeu.
Em um amistoso entre estudantes locais e os alemães, a superioridade técnica dos germânico chamou atenção. A derrota japonesa foi apenas um detalhe diante do impacto gerado. O professor responsável pela equipe local correu atrás para aprender mais sobre o jogo — e passou a receber instruções de Hugo Klaiber.
A partir dali, conceitos táticos e fundamentos técnicos começaram a ser assimilados. Esse intercâmbio ajudou a transformar Hiroshima em um dos primeiros polos do futebol japonês. O conhecimento foi replicado, difundido e, pouco a pouco, o esporte ganhou estrutura no país.
A revolução alemã nos anos 60

Décadas depois, a influência alemã voltaria a ser determinante. Pensando nos Jogos Olímpicos de Tóquio 1964, o Japão buscou apoio externo para evoluir competitivamente — e encontrou em Dettmar Cramer a peça-chave dessa transformação.
Cramer implementou métodos modernos de treinamento, introduziu conceitos avançados de preparação física e ajudou a estruturar o futebol japonês de forma mais profissional. Seu impacto foi além da seleção: influenciou treinadores, organização e mentalidade.
O resultado veio rápido. O Japão chegou às quartas de final em 1964 e, quatro anos depois, conquistou o bronze nos Jogos Olímpicos de 1968 — campanha esta que foi liderada pelo intérprete Dammer. Este foi um ponto de virada que consolidou o avanço técnico da seleção e deixou bases sólidas para as gerações seguintes.
O pioneiro que abriu as portas

Esse intercâmbio não ficou apenas no campo das ideias. Com o tempo, ele pavimentou o caminho para o primeiro grande salto do futebol japonês rumo à Europa — e esse marco leva o nome de Yasuhiko Okudera.
Na década de 1970, o meia já era destaque da Japan Soccer League. Em 1977, durante um período de treinamentos na Alemanha Ocidental, chamou a atenção de Hennes Weisweiler e acabou contratado pelo 1. FC Köln — uma mudança ousada para a época, saindo de um futebol ainda amador para a elite europeia.
A resposta veio em campo. Okudera participou da conquista da Bundesliga 1977/78 e também venceu a Copa da Alemanha na mesma temporada. No ano seguinte, tornou-se o primeiro jogador asiático a disputar a Copa dos Campeões da Europa.
Mais do que títulos, sua trajetória teve um peso simbólico: mostrou que o jogador japonês podia competir em alto nível na Europa — e ajudou a consolidar a Alemanha como um destino natural para esse desenvolvimento.
Ideias que batem
Muito antes de Zico liderar outra revolução no futebol japonês, a influência alemã já havia moldado as bases do país. E isso não é coincidência. A cultura japonesa valoriza hierarquia, disciplina e o coletivo — elementos que conversam diretamente com o modelo alemão, baseado em organização, intensidade e precisão. É um encaixe quase natural.
Por outro lado, a Bundesliga oferece o ambiente ideal: competitividade, espaço para jovens e um contexto mais favorável de adaptação em comparação a outras grandes ligas. Isso ajudou a transformar o campeonato em porta de entrada para gerações de japoneses.
Casos como os de Shinji Kagawa, além dos já citados Nakata e Honda, abriram caminho para o presente. E ajudam a explicar por que perfis como o de Ritsu Doan — hoje destaque do Eintracht Frankfurt — são cada vez mais comuns: jogadores intensos, inteligentes e adaptados ao ritmo europeu. No fim das contas, não é só uma coincidência histórica. É um processo que continua em andamento.
A segunda casa do Japão

Não é por acaso que a Alemanha passou a ser vista como uma segunda casa para jogadores japoneses. Ao longo dos anos, a Bundesliga reuniu uma longa lista de nomes importantes, como Hiroshi Kiyotake, Makoto Hasebe, Atsuto Uchida, Shinji Okazaki, Genki Haraguchi e Hiroki Sakai, entre outros.
Na temporada 2022/23, o campeonato alemão ainda concentrava o maior número de atletas japoneses entre as principais ligas da Europa — e esse fluxo segue forte. Em 2025/26, novos nomes reforçam essa presença, como Yukinari Sugawara (Werder Bremen), Kaishu Sano (Mainz 05), Joel Chima Fujita (St. Pauli), Kento Shiogai (Wolfsburg) e Shuto Machino (Borussia Mönchengladbach).
Outros mercados europeus, como a Bélgica, até passaram a disputar esse espaço recentemente. Mas nenhum conseguiu replicar o ambiente oferecido pela Alemanha.
Mais do que uma questão de oportunidade, trata-se de perfil. O jogador japonês que chega à Bundesliga não vai apenas para cumprir contrato — vai para aprender, evoluir e entender o jogo em outro nível. É um processo que envolve adaptação tática, leitura de jogo e desenvolvimento coletivo.
Existe uma lógica por trás disso. O futebol japonês absorveu a ideia de que conhecimento compartilhado potencializa o crescimento. E isso se reflete diretamente dentro de campo: são atletas disciplinados, consistentes e taticamente confiáveis. Não por acaso, dificilmente um treinador aposta em um jogador japonês sem saber exatamente o que está buscando.
Um exemplo recente é Wataru Endo, hoje no Liverpool. Sua chegada cercada de dúvidas contrastava com o respeito que já havia construído na Alemanha, especialmente pelo desempenho no Stuttgart. O resultado foi imediato: um jogador funcional, inteligente e totalmente alinhado às exigências do jogo europeu.
Japão na Copa do Mundo
O reflexo desse processo aparece na seleção. Neste sábado (28), o Japão enfrenta a Escócia, às 14h, no Hampden Park, em amistoso preparatório para a Copa do Mundo. Sob o comando de Hajime Moriyasu, a equipe já está garantida no Mundial e terá pela frente Holanda, Tunísia e o vencedor da repescagem da Europa B (entre Polônia e Suécia).
Mais do que uma geração talentosa, o Japão chega respaldado por um processo sólido — construído ao longo de décadas, com influência direta de um modelo que encontrou na Alemanha seu principal ponto de apoio. Hoje, o resultado é claro: um futebol cada vez mais competitivo, preparado e pronto para medir forças com qualquer potência mundial.
Créditos da foto de capa: Reprodução/MiBundesliga