O empate por 0 a 0 contra a Espanha colocou Cabo Verde definitivamente no radar do futebol mundial. Para muita gente, o resultado apareceu como uma surpresa inesperada. Uma seleção estreante em Copa do Mundo segurando uma potência europeia parecia um daqueles roteiros improváveis que o futebol costuma entregar. Mas quem acompanha o crescimento dos Tubarões Azuis sabe que esse momento está longe de ser fruto do acaso.
Cabo Verde chegou ao Mundial de 2026 pela primeira vez na história, mas o trabalho que levou a seleção até esse palco começou muito antes. O país, um arquipélago localizado na costa oeste da África e independente de Portugal desde os anos 1970, construiu um caminho silencioso, organizado e baseado em continuidade. O empate diante da Espanha foi apenas a consequência mais visível de um processo que já vinha dando sinais há mais de uma década.
Enquanto parte do público descobriu agora o nome da seleção cabo-verdiana, dentro do continente africano o respeito existe há bastante tempo. O crescimento constante nas Eliminatórias e nas participações na Copa Africana de Nações transformou o país em um adversário que deixou de ser considerado acessível.
O início da transformação e a cicatriz de 2014
O ponto de virada para Cabo Verde começou em 2013. Naquele momento, a seleção conseguiu um feito histórico ao eliminar Camarões na repescagem e garantir presença na Copa Africana de Nações pela primeira vez. A campanha surpreendeu ainda mais quando os cabo-verdianos chegaram até as quartas de final antes de serem eliminados por Gana.
Na sequência, veio um episódio que marcou profundamente o futebol do país. Cabo Verde chegou a conquistar dentro de campo uma vaga para a Copa do Mundo de 2014 ao superar a Tunísia. No entanto, acabou desclassificada por escalar um atleta irregular: Varela. O sonho do primeiro Mundial terminou fora das quatro linhas e deixou uma sensação de oportunidade perdida.
Mesmo com o golpe, o país não abandonou o projeto esportivo. Em 2015, a seleção conquistou um resultado simbólico ao vencer Portugal por 2 a 0 em amistoso. Os gols de Fortes e Gegé serviram como demonstração de que o potencial competitivo permanecia vivo e que o futebol local poderia continuar crescendo.
Bubista e a construção de uma identidade competitiva
A consolidação desse projeto passa diretamente pelo trabalho de Bubista. Ex-capitão da seleção e treinador desde 2020, ele assumiu com uma proposta clara: aproveitar a herança técnica do futebol português e criar um time competitivo sem abrir mão da organização defensiva.
Os resultados começaram a aparecer rapidamente. Sob seu comando, Cabo Verde fez campanhas consistentes na Copa Africana de Nações. Em uma edição, caiu nas oitavas diante de Senegal, que posteriormente seria campeão. Em outra, alcançou as quartas de final e acabou eliminado apenas nos pênaltis pela África do Sul depois de uma campanha que incluiu vitória sobre o Egito ainda na fase de grupos.
Nem tudo foi perfeito. A seleção ficou fora da edição continental de 2025, mas não abandonou o plano. O foco passou a ser a classificação para o Mundial. E ela veio de forma simbólica: novamente diante de Camarões. A vitória por 1 a 0 em Praia entrou para a história graças ao gol de Dailon Rocha Livramento, atacante conhecido do futebol europeu e personagem central daquele momento.

Um país que vive futebol sem perder a racionalidade
Existe também um aspecto cultural que ajuda a explicar a evolução de Cabo Verde. Diferentemente de países onde o futebol paralisa completamente a rotina, os cabo-verdianos convivem com o esporte de forma mais equilibrada. A paixão existe, mas sem exageros.
Um episódio durante as Eliminatórias ilustra bem isso. No dia do empate em 3 a 3 contra a Líbia, partida que poderia ter garantido a vaga antecipada para a Copa, grande parte da população de Praia seguiu normalmente com suas atividades de trabalho. O sentimento era simples: comemorar apenas quando tudo estivesse realmente confirmado.
A celebração aconteceu depois, com a vitória decisiva por 3 a 0 sobre Eswatini, mas sem grandes excessos. O próprio governo fez campanhas para evitar invasões de campo e manter a organização. Essa postura ajuda a explicar por que muitos observadores enxergam Cabo Verde como uma seleção extremamente disciplinada.
Mais do que surpresa: uma seleção pronta para competir
Dentro do arquipélago, o futebol português continua sendo acompanhado com enorme intensidade e divide espaço com os clubes locais e, claro, com a própria seleção nacional. Existe identificação histórica e cultural, mas também uma tentativa cada vez maior de construir uma identidade própria.
Por isso, o empate diante da Espanha não deve ser encarado apenas como uma zebra. Foi o encontro entre uma potência tradicional e uma equipe que há anos trabalha para reduzir distâncias técnicas e estruturais.
Cabo Verde talvez tenha chegado ao Mundial apenas agora, mas seu crescimento começou muito antes. Depois de mais de dez anos acumulando experiências, superando frustrações e fortalecendo um projeto esportivo, os Tubarões Azuis finalmente conseguiram mostrar ao planeta aquilo que o futebol africano já conhecia: essa seleção deixou de ser promessa e passou a ser uma realidade competitiva.
Foto: Buda Mendes/Getty Images/AFP