A segunda passagem de Roberto Mancini pela seleção italiana começou com uma mudança que pode ter consequências maiores do que o simples preenchimento de uma vaga. A lesão de Federico Dimarco obrigou o treinador a repensar a lateral esquerda e abriu espaço para Riccardo Calafiori atuar em uma posição que, apesar de ser familiar no Arsenal, praticamente não fez parte de sua trajetória com a Azzurra. No primeiro treinamento em Coverciano, o jogador foi testado como lateral-esquerdo em uma linha de quatro, justamente no momento em que Mancini começa a reconstruir a Itália a partir de uma ideia diferente daquela utilizada nas últimas gestões.
Dimarco não conseguiu se recuperar do problema físico sofrido pelo Inter e deixou a concentração italiana. Para substituí-lo, Mancini convocou Matteo Ruggeri, do Aston Villa. Mesmo assim, a primeira alternativa testada para o setor foi Calafiori, com Honest Ahanor aparecendo como outra possibilidade. A decisão não é definitiva, mas oferece uma indicação importante sobre a maneira como o novo treinador enxerga o defensor do Arsenal.
A mudança ganha ainda mais significado porque Mancini começou seu trabalho apontando para o retorno do 4-3-3. O treinador ainda não confirmou que esse será o sistema definitivo para todos os compromissos da Data Fifa, mas o primeiro treinamento serviu para estabelecer uma direção: a Itália voltou a trabalhar com uma linha de quatro defensores e Calafiori foi colocado justamente em uma das posições mais importantes dessa nova estrutura.
Uma posição nova para a seleção
Para quem acompanha Calafiori no futebol inglês, vê-lo como lateral-esquerdo não chega a ser uma surpresa. No Arsenal, o italiano já vem desempenhando esse papel e construiu parte importante de sua imagem recente justamente pela capacidade de atuar aberto pela esquerda, participar da construção e avançar pelo corredor.
Na seleção, porém, a história é completamente diferente. Antes dessa nova experiência, Calafiori havia atuado quase sempre como integrante de uma linha de três. Sua função podia variar entre o zagueiro pela esquerda, o defensor central ou até o lado direito da linha, mas a referência era sempre a mesma: jogar como um dos três defensores.
A única exceção havia acontecido justamente contra a Turquia, em junho de 2024. Na ocasião, Calafiori entrou no segundo tempo no lugar de Dimarco e ocupou a lateral esquerda. Foi, até agora, a única partida entre suas 14 aparições pela seleção em que desempenhou essa função desde o início de sua trajetória internacional.
A coincidência é significativa. Dois anos depois, é novamente uma ausência de Dimarco que pode colocar Calafiori naquele setor. A diferença é que, desta vez, o contexto é completamente diferente: ele chega ao encontro internacional com experiência consolidada como lateral no futebol inglês e sob um treinador que pretende utilizar uma defesa com quatro jogadores.
A mudança combina com o novo projeto de Mancini
O posicionamento de Calafiori também precisa ser analisado dentro de uma transformação maior. Mancini não voltou à seleção apenas para dar continuidade ao trabalho anterior. O treinador convocou 34 jogadores para o início dessa nova etapa, incluindo nove atletas sem partidas pela equipe principal, em uma tentativa declarada de renovar a base da Azzurra depois do fracasso na classificação para a Copa do Mundo de 2026.
Nesse cenário, o 4-3-3 representa mais do que uma alteração no desenho tático. Ele muda a maneira como alguns jogadores precisam interpretar suas posições. A linha de três permitia que Calafiori tivesse mais liberdade para sair da defesa e conduzir a bola, enquanto a linha de quatro exige que o lateral controle uma faixa maior do campo e também seja responsável por defender o corredor.
Por outro lado, a mudança pode potencializar uma das principais características do jogador: sua capacidade de participar da construção desde trás.
Calafiori não é um lateral que depende exclusivamente da velocidade para chegar ao ataque. Ele consegue conduzir a bola, encontrar passes por dentro e aparecer em zonas mais avançadas. Em uma equipe que pretende controlar o jogo com posse e utilizar um 4-3-3, essas características podem ser particularmente úteis.
O desafio será equilibrar essa liberdade ofensiva com a necessidade de proteger o lado esquerdo. A Itália terá pela frente adversários como Bélgica e França, além da Turquia, em uma sequência de partidas que oferecerá testes bem diferentes para o novo sistema.
Calafiori pode ganhar uma nova dimensão na Azzurra
A maior consequência da experiência pode estar justamente na ampliação das possibilidades de Calafiori dentro da seleção. Nas últimas temporadas, sua versatilidade foi uma das características mais valorizadas. Ele pode atuar como zagueiro pela esquerda, lateral e defensor em uma linha de três. Para Mancini, isso significa ter um jogador capaz de alterar a estrutura sem necessariamente precisar fazer uma substituição.
O primeiro treinamento já mostrou que essa versatilidade faz parte da ideia do treinador. Mancini dividiu os jogadores por posições e trabalhou com diferentes alternativas para praticamente todos os setores. Na lateral esquerda, Calafiori apareceu ao lado de Ahanor como uma das opções, enquanto Ruggeri chegava posteriormente para completar o grupo após a saída de Dimarco.
Isso pode ser especialmente importante durante a reconstrução da Itália. Em vez de montar uma equipe dependente de onze titulares fixos, Mancini parece trabalhar com diferentes combinações e jogadores capazes de exercer mais de uma função. Calafiori se encaixa naturalmente nesse perfil.
Existe ainda um detalhe que torna a decisão de Mancini particularmente interessante: Calafiori chega à seleção depois de ganhar experiência justamente no papel que agora começa a ser testado pela Azzurra.
No Arsenal, o italiano encontrou um ambiente em que a lateral esquerda exige participação constante na construção ofensiva. Sua experiência no futebol inglês, portanto, pode servir como uma espécie de laboratório para a nova função internacional.
A diferença é que o Arsenal possui mecanismos coletivos específicos para proteger os espaços deixados pelos laterais. Na seleção, Mancini terá pouco tempo para instalar esses comportamentos. A preparação para os quatro jogos da Nations League acontece em uma janela curta, o que torna a organização coletiva ainda mais importante.
Por isso, o desempenho de Calafiori não poderá ser analisado apenas pelo número de ações ofensivas. Será necessário observar como a Itália reage quando perde a bola, quem cobre o espaço deixado pelo lateral e até que ponto o meio-campo consegue compensar seus movimentos.
O primeiro treino já indicou que Mancini está preocupado com esses mecanismos. A atividade trabalhou especificamente os movimentos da linha de quatro contra uma estrutura com dois atacantes e dois jogadores abertos, uma maneira de começar a preparar a equipe para situações que serão recorrentes durante os jogos.
Uma lesão abriu uma oportunidade
A ausência de Dimarco, portanto, pode acabar produzindo uma consequência inesperada para a seleção italiana. O que inicialmente parecia apenas um problema de elenco transformou-se em uma oportunidade para Mancini testar uma solução que combina a experiência recente de Calafiori com a nova estrutura que pretende implementar.
Ainda não há garantia de que o italiano será o titular da lateral esquerda quando a Itália entrar em campo. Ruggeri foi chamado justamente para ocupar essa lacuna, e Mancini ainda possui outras alternativas no elenco. Além disso, o próprio treinador deixou claro que os primeiros testes não significam uma definição permanente do sistema.
Mas a experiência faz sentido. Calafiori já conhece a posição, possui experiência recente em uma linha de quatro e oferece uma característica importante para o projeto de Mancini: a capacidade de atuar em diferentes funções sem alterar radicalmente a estrutura da equipe.
Depois de anos em que a seleção italiana se acostumou a utilizar três defensores, a volta do 4-3-3 exige jogadores capazes de interpretar espaços de outra maneira. Calafiori pode ser um dos nomes que melhor representam essa transição.
O que começou como uma consequência da lesão de Dimarco pode, portanto, se transformar em uma oportunidade para a Itália descobrir uma nova versão de um jogador que já vinha sendo utilizado de maneira diferente no futebol de clubes. Para Mancini, encontrar essa solução pode ser apenas um detalhe de sua reconstrução. Para Calafiori, porém, pode representar o início de uma nova fase com a camisa da Azzurra.
(Foto: Getty Images)



