Camavinga
Futebol La Liga

Camavinga e o desafio de agradar: por que volante tem a melhor chance de voltar ao rumo no Real Madrid e na seleção?

Eduardo Camavinga chegou ao Real Madrid com uma expectativa que poucos jogadores de sua geração precisaram carregar tão cedo. Aos 18 anos, quando foi contratado pelo clube espanhol, já era tratado como um dos grandes projetos do futebol francês e como um possível sucessor de uma geração de meio-campistas que havia marcado uma era em Madri. Cinco anos depois, aos 23, o cenário é mais complexo. O talento continua evidente, o físico continua impressionante e o potencial nunca desapareceu, mas a regularidade que parecia ser apenas uma questão de tempo ainda não chegou.

A última temporada expôs esse problema de maneira especialmente dura. Camavinga disputou 2.199 minutos pelo Real Madrid, mas sem conseguir estabelecer uma sequência consistente de atuações. Foram partidas em que parecia capaz de dominar o meio-campo e outras em que erros de concentração, decisões precipitadas e problemas simples de execução voltavam a aparecer. O momento mais doloroso veio fora do clube, quando Didier Deschamps decidiu não convocá-lo para a Copa do Mundo.

A ausência teve um efeito diferente daquele que poderia ser esperado. Em vez de colocar Camavinga em uma trajetória de saída do Real Madrid, parece ter provocado uma reação. O francês voltou das férias determinado a recuperar o espaço perdido e passou a tratar a própria irregularidade como um problema que precisava ser resolvido.

Agora, ele começa uma nova tentativa justamente com dois treinadores que podem ajudá-lo a reconstruir a confiança. José Mourinho encontrou no início da temporada um jogador que precisava ser lapidado, mas que ainda enxergava como uma peça importante para o Real Madrid. Na seleção francesa, Zinedine Zidane fez algo ainda mais importante: devolveu a Camavinga um papel de protagonismo e mostrou que ainda acredita no perfil de meio-campista que ele pode se tornar.

O desafio de Camavinga, portanto, não é mais provar que possui talento para jogar no Real Madrid. Isso ele já fez. A questão é conseguir transformar esse talento em regularidade.

O problema nunca foi falta de capacidade

A carreira de Camavinga é marcada por uma característica curiosa: ele quase sempre parece estar a uma sequência de boas atuações de se tornar exatamente o jogador que todos imaginavam.

O francês possui força física, velocidade, capacidade para conduzir a bola, qualidade para pressionar e versatilidade suficiente para atuar em diferentes posições. Pode jogar como primeiro volante, segundo homem de meio-campo ou interior, além de já ter sido utilizado como lateral-esquerdo em diferentes momentos. Esse repertório é justamente uma de suas maiores qualidades, mas também pode ter contribuído para o problema.

Camavinga passou boa parte da carreira sendo tratado como um jogador capaz de fazer muitas coisas, sem necessariamente estabelecer uma função na qual pudesse construir uma identidade definitiva. No Real Madrid, isso ganhou uma dimensão ainda maior porque a concorrência no meio-campo sempre foi enorme.

Quando chegou ao clube, encontrou nomes como Casemiro, Luka Modric, Toni Kroos e Federico Valverde. Depois, passou a disputar espaço com Aurélien Tchouaméni, Jude Bellingham e outros jogadores capazes de ocupar diferentes zonas do campo. Nesse ambiente, ser versátil é uma vantagem, mas também pode transformar o jogador em uma espécie de solução para todos os problemas sem que ele necessariamente se torne a primeira escolha para nenhum deles.

Além disso, existe a expectativa.  Camavinga foi tão precoce em sua afirmação no futebol profissional que o mundo passou a esperar que sua evolução também acontecesse rapidamente. O próprio jogador reconheceu recentemente que precisa cometer menos erros e que sua carreira avançou em uma velocidade enorme desde o início. Talvez seja justamente essa percepção que explique a maturidade de suas declarações recentes. Camavinga parece ter entendido que ainda existe tempo para construir o jogador que deseja ser, mas também que não pode continuar adiando essa transformação.

A ausência na Copa do Mundo mudou a forma como Camavinga olha para si mesmo

Ficar fora de uma Copa do Mundo aos 22 anos, especialmente quando se joga pelo Real Madrid e se pertence a uma das seleções mais talentosas do planeta, abalaria a confiança de qualquer um. Com Camavinga, aconteceu o contrário.

Deschamps justificou a ausência pelo baixo número de minutos e pela irregularidade do jogador na temporada anterior. Camavinga não tinha apenas perdido espaço na seleção. Ele havia deixado de entregar no clube o nível que poderia justificar uma convocação. A consequência foi um confronto com a própria carreira. O jogador que havia sido considerado uma das grandes promessas do futebol francês passou a assistir à Copa de casa enquanto outros meio-campistas ocupavam os espaços que um dia pareciam destinados a ele.

A resposta veio durante as férias. Camavinga trabalhou mais, voltou ao Real Madrid com uma motivação diferente e passou a tratar os pequenos erros como obstáculos que precisavam ser eliminados. Isso é importante porque seu problema nunca pareceu ser falta de esforço. O francês sempre foi reconhecido pelo poder físico e pela capacidade de trabalhar. A questão era transformar essa energia em controle.

Um meio-campista pode correr muito, ganhar duelos e conduzir a bola por 30 metros. Mas, se perder a concentração em um passe simples, deixar de acompanhar uma movimentação ou tomar uma decisão precipitada, todo o restante pode perder valor. É exatamente esse tipo de detalhe que Camavinga sabe que precisa corrigir.

Zidane devolveu ao jogador algo que o Real Madrid ainda procura

A chegada de Zinedine Zidane à seleção francesa criou uma oportunidade. O treinador conhece o Real Madrid e sabe o que significa jogar em um meio-campo pressionado pela necessidade de controlar partidas. Mais do que isso, Zidane entende um tipo de jogador que combina capacidade física, condução e liberdade para avançar. Por isso, a confiança depositada em Camavinga não parece ser apenas uma escolha por falta de alternativas. Zidane enxerga no jogador um perfil que está se tornando raro dentro da própria seleção francesa.

A atuação contra a Bélgica em Bruxelas foi a primeira demonstração clara disso. Camavinga terminou a partida com 94% de acerto nos passes, acertando 41 de 42 tentativas no campo adversário, além de seis duelos vencidos e cinco recuperações. Foi utilizado com liberdade pelo interior e ajudou a melhorar a circulação de bola da equipe.

No segundo confronto contra os belgas, voltou a ser titular e permaneceu em campo até os 88 minutos, participando de uma atuação ainda mais sólida sem a bola, com cinco duelos vencidos, oito recuperações e quatro interceptações. A França venceu por 4 a 1 e Camavinga deixou o campo sob aplausos.

O mais importante não são apenas os números. Zidane conseguiu utilizar Camavinga em uma função na qual suas características aparecem de maneira mais equilibrada. O francês não precisava ser apenas o jogador que cobre espaços ou que recupera a bola. Também podia participar da circulação, conduzir, aproximar-se dos companheiros e avançar.

Mourinho recebeu um Camavinga disposto a recomeçar

No Real Madrid, a situação é diferente. José Mourinho não tem a mesma liberdade que Zidane possui na seleção. Ele precisa montar um time competitivo imediatamente e não pode garantir minutos a um jogador apenas porque acredita no potencial que ele possui.

Ainda assim, o treinador português demonstrou confiança. Camavinga foi o único jogador do Real Madrid a ser titular em todas as partidas da pré-temporada e começou a temporada como uma das peças observadas com maior atenção por Mourinho. No início do campeonato, acumulou 240 minutos e dois jogos como titular. Ainda não assumiu a titularidade absoluta, mas está na rotação do meio-campo.

Mourinho parece enxergar Camavinga como um jogador que precisa ser desenvolvido, não descartado. Depois da vitória sobre o Málaga, inclusive, o treinador o defendeu publicamente ao afirmar que um jogador pouco valorizado havia feito uma grande partida.nA mensagem é clara: existe confiança, mas também existe uma cobrança.

Mourinho sabe que Camavinga tem apenas 23 anos e que o componente mental será fundamental para sua evolução. Ao mesmo tempo, sabe que o Real Madrid não pode esperar indefinidamente que um jogador cumpra uma promessa feita anos atrás. Esse equilíbrio talvez seja justamente o que Camavinga precisa neste momento.O Real Madrid ainda pode ganhar um meio-campista de elite

Existe uma tentação natural de tratar Camavinga como um jogador que não cumpriu aquilo que prometia. Aos 23 anos, porém, essa conclusão seria precipitada.

A carreira dele já possui títulos, experiências em jogos grandes e uma quantidade enorme de minutos em um dos clubes mais exigentes do mundo. O problema é que o nível apresentado ainda não corresponde à expectativa criada ao seu redor.

A boa notícia para o Real Madrid é que o jogador parece consciente disso. Camavinga não está procurando uma saída. Apesar do interesse de outros clubes, o objetivo continua sendo triunfar no Santiago Bernabéu.

(Foto: Getty Images)