Gonzalo García e Raul Asencio se cumprimentam Real Madrid. Foto: Diego Souto/Getty Images.
Futebol La Liga

Real Madrid encontra nova fórmula para lucrar com jogadores da base; entenda

O Real Madrid chamou atenção na última janela ao investir €125 milhões na contratação de Yan Diomande, mas talvez os movimentos mais importantes do clube tenham acontecido justamente nas saídas.

A verdadeira novidade esteve na maneira como o Real negociou jogadores jovens e atletas que estavam fora dos principais planos da equipe. Em vez de simplesmente vender essas peças e encerrar qualquer ligação com elas, o clube passou a estruturar acordos com percentuais de futuras transferências, direitos de recompra e preferência em possíveis negociações.

A estratégia transforma vendas relativamente pequenas no presente em investimentos capazes de continuar gerando dinheiro durante vários anos. Em um cenário de crescente diferença financeira entre a Premier League e as demais grandes ligas europeias, esse modelo pode ganhar ainda mais importância.

Real Madrid vende, mas continua ligado aos jogadores

Gonzalo García foi a maior venda tradicional da base do Real Madrid durante a janela. O atacante deixou o clube por €40 milhões para defender o Fulham, mas o valor inicial representa apenas uma parte do acordo.

Segundo a publicação, o Real manteve 30% de uma futura venda, direito de preferência e cláusulas de recompra que poderão ser utilizadas a partir da segunda temporada do jogador no clube inglês.

Na prática, mesmo depois de receber €40 milhões, o Real Madrid ainda poderá lucrar novamente caso Gonzalo se valorize. Dependendo das condições estabelecidas, também terá mecanismos para tentar recuperar o atacante no futuro.

O mesmo modelo apareceu em outras operações.

César Palacios foi negociado por €10 milhões, mas o Real teria mantido 50% de seus direitos econômicos.

No caso de Manuel Ángel, o clube espanhol também preservou 50% dos direitos do meio-campista e ainda garantiu preferência em uma eventual negociação futura.

A estratégia também apareceu nas saídas de Fran González e Víctor Valdepeñas, negociados com Sevilla e Fiorentina, respectivamente. O Real Madrid manteve cláusulas que lhe dão direito a 50% de futuras vendas dos dois jogadores.

O objetivo fica claro: permitir que jogadores sem espaço imediato se desenvolvam em outros lugares sem que o Real abra completamente mão de uma possível valorização.

Nico Paz mostrou ao Real Madrid que estratégia funciona

O principal exemplo por trás dessa política é Nico Paz.

O meia deixou o Real Madrid para defender o Como em 2024 por cerca de €6 milhões. Na época, o valor já parecia baixo para um jogador considerado uma das principais promessas da base madridista.

O clube espanhol, porém, protegeu seus interesses.

O acordo incluía 50% sobre uma futura transferência e diferentes opções de recompra. Depois de chegar à Serie A, Nico Paz se valorizou rapidamente e mostrou exatamente por que essas condições eram tão importantes.

O Real poderia recuperá-lo por apenas €10 milhões. Como não enxergava necessidade imediata de incorporá-lo ao elenco, escolheu outra alternativa: negociou a parte restante dos direitos do jogador com o Como por mais €60 milhões.

Assim, uma venda inicial de apenas €6 milhões acabou se transformando em uma operação muito mais lucrativa alguns anos depois.

Foi a prova de que o modelo poderia funcionar em escala maior.

Clube terceiriza desenvolvimento sem perder valorização

A estratégia também resolve um dos principais problemas enfrentados pelos gigantes europeus.

Clubes como o Real Madrid conseguem produzir diversos jogadores de qualidade nas categorias de base, mas simplesmente não existem vagas suficientes no elenco principal para todos eles.

Manter esses atletas no banco ou em equipes inferiores pode atrasar o desenvolvimento.

Vendê-los definitivamente também representa um risco: o jogador pode explodir em outro clube e passar a valer dezenas de milhões de euros sem que sua antiga equipe receba qualquer benefício.

Com percentuais de futuras vendas e opções de recompra, o Real tenta encontrar um meio-termo.

O atleta recebe minutos em outro clube, enquanto os espanhóis continuam economicamente ligados ao seu desenvolvimento.

Caso o jogador não alcance o potencial esperado, o risco é relativamente pequeno. Se virar uma estrela, o Real pode receber uma nova quantia significativa ou, em determinadas operações, ter a possibilidade de contratá-lo novamente.

Nico Paz virou o exemplo perfeito dessa lógica.

Modelo pode ganhar força entre os gigantes europeus

Cláusulas de recompra e percentuais sobre futuras vendas não são invenções do Real Madrid. Elas já existem há muito tempo no mercado de transferências.

O diferencial está na maneira sistemática como o clube passou a utilizá-las.

Em vez de enxergar jogadores fora dos planos apenas como oportunidades de gerar receitas imediatas, o Real também considera quanto eles poderão render daqui a três, quatro ou cinco anos.

A estratégia se torna especialmente interessante diante do poder financeiro dos clubes da Premier League.

Com receitas televisivas maiores, as equipes inglesas possuem enorme capacidade de investimento. Gigantes do restante da Europa precisam encontrar maneiras alternativas de aumentar suas receitas e continuar competitivos.

O Real Madrid parece ter encontrado uma delas dentro da própria base.

O clube recebe dinheiro imediatamente, libera espaço no elenco e ainda permanece ligado ao futuro do jogador.

Nem todos terão uma valorização semelhante à de Nico Paz. Mas não é necessário que todos tenham.

Se apenas alguns desses jovens explodirem em outros clubes, vendas inicialmente modestas podem gerar dezenas de milhões de euros adicionais.

O Real Madrid construiu sua fama no mercado realizando algumas das maiores contratações da história. Agora, o clube também tenta aperfeiçoar o caminho contrário: vender um jogador sem necessariamente abrir mão de seu futuro.

Foto: Diego Souto/Getty Images.