A noite em Chicago foi histórica para o UFC. Khamzat Chimaev confirmou aquilo que muitos já projetavam há anos: sua ascensão ao topo dos médios. No UFC 319, diante de Dricus Du Plessis, então campeão e conhecido por sua resistência e capacidade de reverter lutas improváveis, o checheno fez talvez a atuação mais dominante da história da divisão. Foram cinco rounds de absoluto controle, neutralizando completamente o sul-africano, sem oferecer sequer uma brecha para qualquer reação.
No entanto, se dentro do octógono a performance foi irretocável, fora dele a reação foi surpreendente: vaia generalizada da torcida presente no United Center. O público esperava uma guerra sangrenta, um espetáculo empolgante, mas recebeu uma exibição fria, metódica e sufocante. Chimaev não deixou espaço para emoção, e isso levantou um questionamento importante: até que ponto a dominância absoluta pode se tornar um problema para o espetáculo que o UFC vende?
A consagração de um campeão inevitável
Chimaev vinha sendo apontado há anos como futuro campeão. Sua combinação de wrestling sufocante, explosão física e agressividade fez com que despontasse como uma das maiores promessas já vistas dentro da organização. O duelo contra Du Plessis foi encarado como um verdadeiro teste de fogo, já que o sul-africano havia mostrado coração de campeão em batalhas recentes contra Sean Strickland e Israel Adesanya.
O que se viu, porém, foi um combate de um só lado. Chimaev levou a luta para o solo desde os primeiros segundos, encaixou posições de domínio e não permitiu ao rival sequer levantar-se com consistência. Embora não tenha conseguido o nocaute ou a finalização, deixou claro que está em um nível técnico e físico muito acima de qualquer outro lutador da divisão.
A frieza da luta, no entanto, expôs um dilema para o UFC. O esporte é, antes de tudo, um negócio movido pela capacidade de gerar entretenimento. E, por mais brilhante que seja a atuação de Chimaev do ponto de vista técnico, o público deixou claro que espera mais emoção.
O paralelo imediato é com nomes como Georges St-Pierre ou até mesmo Khabib Nurmagomedov, que também dominavam rivais com facilidade, mas que conseguiram, de diferentes formas, se conectar com o público. Chimaev, embora tenha carisma fora do octógono, corre o risco de ver suas lutas se tornarem previsíveis e, consequentemente, menos atraentes para o fã casual.
Alguém pode parar Chimaev?
O problema para o UFC se intensifica ao olhar para o ranking dos médios. Os principais nomes da divisão parecem incapazes de oferecer real perigo ao novo campeão. Caio Borralho, brasileiro em ascensão, tem ótimo jiu-jitsu e evolução em pé, mas até agora não enfrentou adversários do nível de Chimaev. Seu jogo pode ser facilmente neutralizado pelo wrestling sufocante do campeão.
Nassourdine Imavov, francês em alta, é um striker técnico, mas mostrou falhas defensivas no jogo de grade e no solo, setores onde Chimaev é absoluto. Reinier de Ridder, multicampeão do ONE Championship que recentemente migrou para o UFC, tem experiência e um jogo de grappling de elite, mas sua velocidade e capacidade de lidar com o ritmo intenso de Chimaev ainda são uma incógnita.
Em todos os cenários, o resultado parece apontar para uma repetição do que ocorreu com Du Plessis: lutas dominadas, mas pouco atrativas para o público.
O que o UFC pode fazer?
O UFC sabe da importância de Chimaev como estrela global. Ele é jovem, invicto e fala diretamente a diferentes audiências — muçulmana, europeia e até americana. Mas, para mantê-lo relevante também como vendedor de lutas a organização precisa encontrar um equilíbrio.
Uma possibilidade seria promover desafios em divisões diferentes, algo que já foi cogitado em momentos anteriores. O retorno a uma luta nos meio-médios, por exemplo, poderia render um supercombate contra Islam Makhachev, se ele vencer Jack Della Maddalena. Outra alternativa seria uma “superluta” contra Israel Adesanya, mesmo sem cinturão envolvido, apenas pelo fator espetáculo.
Ainda assim, o dilema persiste: o que fazer quando se tem um campeão que parece invencível, mas cujo estilo pode afastar parte do público?
Um campeão que precisa conquistar corações
No final, Chimaev conquistou o cinturão dos médios com autoridade indiscutível. Ninguém pode questionar seu talento ou sua legitimidade como campeão. Mas a vaia em Chicago deixou um recado claro: dominar não é suficiente, é preciso também entreter.
Para o UFC, essa é uma equação delicada. O esporte exige resultados, mas o negócio exige espetáculo. E enquanto Chimaev continuar empilhando atuações perfeitas, porém pouco empolgantes, a organização terá de encontrar novas formas de vender ao público a ideia de que assistir ao campeão vale cada centavo pago no ingresso ou no pay-per-view.
(Foto: Zuffa LLC)