A estreia de Carrick como técnico do Manchester United superou todas as expectativas. Poucos imaginavam que ele conseguiria conjurar uma atuação tão completa diante do Manchester City a ponto de Pep Guardiola admitir que sua equipe poderia ter sido derrotada mesmo se Diogo Dalot tivesse sido expulso nos minutos iniciais. Com a vitória por 2 a 0, o ex-meio campista acrescentou o nome de Guardiola à lista de técnicos que já superou como comandante do United — que também inclui Unai Emery e Mikel Arteta — além de um empate diante do Chelsea de Thomas Tuchel.
Ao deixar o gramado sob os ecos do canto criado pela torcida quando chegou ao clube, em 2006, o treinador pôde refletir sobre um dia que dificilmente poderia ter sido melhor.
“É um grande começo, não dá para negar” — comemorou
Sem frases de efeito, mas com ideias claras

Carrick claramente não é Rúben Amorim. Não é do seu perfil lançar frases de impacto nem transformar entrevistas em espetáculos. Tampouco demonstra o entusiasmo quase performático do antecessor português. Experiente o suficiente, sabe que um grande resultado isolado não sustenta um projeto.
“Consistência é a chave para qualquer sucesso”, afirmou. “Não teremos sempre jogos com a mesma emoção do que hoje. Mas existe um padrão e uma expectativa que precisamos manter. Esse é o desafio.”
Mesmo afastado do vestiário por mais de uma década, Carrick jamais se desconectou do clube. Ele e a família mantiveram-se fiéis aos Red Devils e nesta temporada apareceu com frequência como comentarista, analisando partidas do United. Observava, absorvia — e já tinha em mente como extrair mais desse elenco.
Isso passava, antes de tudo, por abandonar o sistema de três zagueiros de Amorim. E passava, sobretudo, por Kobbie Mainoo — talvez o maior símbolo de um talento subaproveitado pela rigidez do modelo anterior, algo que até executivos do clube passaram a questionar.
“Tenho assistido a muitos jogos. Você passa a conhecer os jogadores e desenvolve o seu próprio olhar. Existem instintos que começam a fazer sentido quando você percebe que talvez seja a sua vez de agir.” — contou Carrick
Mainoo, Casemiro e uma base que funcionou

A recompensa veio rapidamente. Mainoo formou dupla com Casemiro em um meio-campo que deu sustentação, equilíbrio e intensidade — uma combinação que Amorim jamais pareceu disposto a explorar. O camisa 37, inclusive, chegou a ser elogiado pelo “novo” comandante.
Na defesa, Harry Maguire voltou a ser titular pela primeira vez desde 8 de novembro e teve papel central ao lado de Lisandro Martínez na anulação de Erling Haaland. O City terminou a partida com um xG de apenas 0,45 — o segundo mais baixo em 364 jogos de Premier League sob Guardiola.
“Foi um grande desafio para o ‘H’ (Harry Maguire). Ele treinou só dois ou três dias nas últimas oito ou nove semanas. Era um risco, mas ele passou no teste e foi fantástico.”
Reconhecimentos, aplausos merecidos e uma reconexão rara
O desempenho rendeu elogios até de ex-capitães céticos quanto à nomeação. Gary Neville descreveu o cenário como um “paraíso” para Carrick, enquanto Roy Keane foi direto: “Foi uma tarde perfeita. Não venceram por acaso.” Wayne Rooney foi mais além e reforçou o sentimento à BBC Sport:
“Os torcedores estavam carentes disso. Foi uma atuação, claro, mas mostrou o quão empolgante esse time pode ser. Intensidade sem a bola, pontas recompondo, identidade. Foi o melhor United que vi em muito tempo.”
O domínio foi ainda maior do que o placar sugere. O United acertou a trave duas vezes, teve três gols anulados por impedimento e exigiu quatro grandes defesas de Donnarumma — uma delas, em finalização de Casemiro no segundo tempo, arrancou até uma mordida frustrada na camisa do brasileiro.
Muito se discutiu durante a semana se Carrick seria apenas uma solução temporária até o verão europeu. Mas essas análises ignoram o peso emocional de uma atuação como essa. Pela primeira vez em muito tempo, Old Trafford reagiu positivamente a um time que se entregou, executou um plano claro e fez jus à atmosfera do estádio.
“Os jogadores sentiram isso. Eles estavam desesperados para ir bem. Precisamos encontrar equilíbrio entre emoção e clareza. Este lugar pode ser mágico — e sentir isso foi exatamente o que queríamos. É algo sobre o qual precisamos construir.” — concluiu Carrick.
O próximo desafio está lançado: contra o Arsenal, fora de casa, no domingo que vem (25). O Manchester United está na quinta posição da Premier League, com 35 pontos conquistados. Essa pode ser mais uma chance de mostrar que nem tudo na temporada dos Red Devils está perdido — ainda há o que recuperar. Diante dos Gunners, o time de Old Trafford vai em busca de mais um triunfo e Carrick de uma nova vítima entre os técnicos do, até então top-3, do torneio.
Créditos da foto de capa: Divulgação/Manchester United