O Manchester United viveu mais uma noite que parece saída diretamente de sua própria história. Durante boa parte da partida contra a Roma, a equipe de Michael Carrick flertou com uma situação constrangedora na Champions League, ocupando a 24ª posição da classificação geral e correndo o risco de ser ultrapassada por adversários de menor expressão.
Então veio a reação.
Impulsionado por Old Trafford, o United conseguiu uma virada espetacular e transformou uma noite que poderia ter aumentado ainda mais a pressão sobre Carrick em um momento de euforia. O treinador reconheceu depois da partida que o peso histórico do estádio ainda influencia esse tipo de jogo.
O problema é que o Manchester United já viveu situações semelhantes muitas vezes nos últimos anos. Grandes noites europeias ajudaram treinadores a ganhar tempo, mas raramente foram suficientes para mudar completamente a trajetória de uma equipe em crise.
Por isso, a grande questão agora é simples: a força de Old Trafford pode realmente salvar Carrick ou apenas adiar uma decisão que parecia próxima?
United encontra no passado uma força para reagir
A remontada contra a Roma trouxe de volta imagens que fazem parte da identidade histórica do clube. Sir Alex Ferguson estava nas arquibancadas, enquanto a torcida empurrava a equipe durante os minutos finais.
Carrick não gosta de utilizar constantemente o passado como ferramenta de motivação, mas admitiu que os jogadores sabem o que Old Trafford representa.
Existe, porém, uma ironia nesse cenário. O Manchester United é frequentemente criticado justamente por permanecer excessivamente preso à própria história, tentando recriar épocas que já passaram e buscando soluções em antigos jogadores ou figuras ligadas ao período mais vitorioso do clube.
Mesmo assim, contra a Roma, foi exatamente essa identidade que pareceu ajudar.
Por uma noite, o United venceu porque voltou a se comportar como o Manchester United que sua torcida reconhece.
Carrick já esteve perto da saída
A situação do treinador continua extremamente delicada.
Carrick sobreviveu depois da goleada sofrida por 3 a 0 para o Bournemouth em Old Trafford, em parte porque Jason Wilcox e Omar Berrada ainda não haviam encontrado uma alternativa clara para o comando da equipe.
Depois da derrota para o Chelsea, a expectativa era de que o treinador pudesse ser demitido durante a próxima Data Fifa.
Agora, a reação contra a Roma mudou novamente o cenário.
Antes da intervenção de Matheus Cunha, o United caminhava para completar dez partidas consecutivas sem vitória na mesma temporada, algo que não acontecia desde antes do nascimento de Carrick.
A vitória evitou essa marca, mas não apaga os problemas.
Histórico mostra que grandes viradas podem enganar
O Manchester United já teve outras noites desse tipo durante seu período de instabilidade.
David Moyes parecia ter encontrado uma resposta quando reverteu uma derrota por 2 a 0 contra o Olympiacos e venceu por 3 a 0 em Old Trafford. Pouco mais de um mês depois, acabou demitido.
Ole Gunnar Solskjaer, com Carrick em sua comissão técnica, viu o United sair de 2 a 0 contra a Atalanta para vencer por 3 a 2. O resultado também prolongou sua permanência apenas por algumas semanas.
Ruben Amorim teve uma remontada ainda mais improvável, vencendo o Lyon por 5 a 4 depois de estar perdendo por 4 a 2 contra um adversário com dez jogadores. Ainda assim, sua passagem terminou pouco tempo depois.
Esse histórico explica por que a vitória sobre a Roma precisa ser tratada com cautela.
Pode ser o início de uma reação ou apenas mais uma grande noite isolada.
Problemas no elenco continuam evidentes
Mesmo com a vitória, o United segue apresentando dificuldades importantes.
O lado esquerdo da defesa tem sido um problema recorrente. Lisandro Martínez foi expulso contra o Chelsea e estará suspenso diante do Aston Villa, enquanto Ayden Heaven teve uma atuação ruim diante da Roma.
O meio-campo também preocupa. Carlos Baleba, considerado a opção mais móvel entre os jogadores disponíveis para o setor, está lesionado.
Além disso, a relação entre equipe e torcida continua frágil. Martínez foi vaiado quando entrou contra a Roma, enquanto Bruno Fernandes também tenta recuperar confiança depois de semanas complicadas.
Os aplausos ao final mostraram que ainda existe conexão, mas ela pode desaparecer rapidamente se os resultados voltarem a piorar.
Aston Villa e Liverpool serão testes decisivos
Carrick agora enfrenta um problema ainda maior: os próximos adversários são teoricamente mais fortes.
O United encara o Aston Villa em Old Trafford antes de visitar o Liverpool depois da pausa internacional. Dependendo dos resultados da rodada, pode até entrar em campo na última posição da Premier League.
Por isso, a vitória sobre a Roma precisa produzir algo além de emoção.
Carrick espera que a confiança criada naquela reação seja transportada para o campeonato. O treinador acredita que seus jogadores ainda estão comprometidos com seu projeto e a forma como reagiram diante da Roma reforçou essa impressão.
Agora será necessário provar isso novamente.
Old Trafford e o peso da camisa conseguiram salvar o Manchester United por uma noite. Para salvar Michael Carrick de maneira definitiva, porém, serão necessários resultados muito mais consistentes.
Foto: Reprodução/REUTERS

