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Vasco tem virada com a cara de Pedro Emanuel e mostra como erros de treinadores não são o fim do mundo; confira as impressões do jogo

O Vasco precisava de uma vitória para respirar na luta contra o rebaixamento e recuperar a confiança antes de uma decisão pela Copa do Brasil. Conseguiu muito mais do que isso na Arena da Baixada. Depois de um primeiro tempo ruim e de sair atrás no placar, o time de Pedro Emanuel reagiu, marcou três gols em cinco minutos e venceu o Athletico por 3 a 1, encerrando um jejum de 19 anos sem triunfar no estádio do adversário pelo Brasileirão. O resultado teve peso na tabela, mas a principal notícia para o treinador pode ter sido a descoberta de uma formação capaz de oferecer novas possibilidades ao elenco.

A vitória não deve esconder os problemas apresentados pelo Vasco durante boa parte da partida. A equipe começou desorganizada, encontrou dificuldades para construir jogadas e permitiu que o Athletico explorasse os espaços entre o meio-campo e a defesa. A mudança para uma formação com três zagueiros, que inicialmente causou estranhamento, não funcionou como esperado na primeira etapa. A resposta veio no intervalo, quando Pedro Emanuel corrigiu a estrutura sem abandonar o desenho tático escolhido para o confronto.

O Vasco ganhou presença no meio-campo, passou a encontrar Lescano com mais frequência e conseguiu aproximar seus jogadores de ataque. A melhora não foi imediata nem transformou a equipe em um time dominante durante todo o segundo tempo, mas criou as condições para uma reação que mudou completamente o cenário do jogo. Mais do que a virada, o desempenho depois das substituições mostrou que o treinador pode ter encontrado uma alternativa interessante para variar o funcionamento ofensivo da equipe.

A mudança tática não funcionou no primeiro tempo

A decisão de Pedro Emanuel de escalar o Vasco com três zagueiros chamou atenção porque o treinador ainda não havia utilizado esse sistema desde sua chegada. A equipe vinha trabalhando com formações baseadas na presença de pontas, uma característica que marcou o modelo de jogo do clube nos últimos anos. Na Arena da Baixada, porém, o português decidiu alterar a estrutura e colocou Thiago Mendes como volante, acompanhado de Sosa em uma função mais próxima da proteção à defesa.

O problema foi que a formação deixou o Vasco com dificuldades para progredir com a bola. Sosa, um jogador de características mais defensivas, passou a ter responsabilidades maiores na construção, justamente em uma função na qual não apresenta suas principais qualidades. O Athletico percebeu a limitação e passou a pressionar os passes do argentino, dificultando a saída de jogo e forçando erros em regiões perigosas.

O gol de Mendoza foi um exemplo das dificuldades defensivas do Vasco. O colombiano recebeu espaço na entrada da área, sem a pressão necessária dos volantes ou da linha de zaga, teve tempo para ajeitar o corpo e finalizou de fora da área para abrir o placar. A falha de posicionamento expôs a falta de coordenação entre os setores e reforçou a impressão de que o time ainda não havia assimilado completamente a nova organização.

Além dos problemas sem a bola, o Vasco também teve pouca criatividade no ataque. Lescano ficou isolado e encontrou dificuldades para participar da construção, enquanto a equipe não conseguiu estabelecer uma circulação que aproximasse os jogadores das zonas de finalização. O desempenho foi abaixo do esperado e indicava que a mudança tática, pelo menos daquela maneira, não estava produzindo os efeitos desejados.

O lance envolvendo Brenner, derrubado por Mycael dentro da área, também poderia ter alterado o roteiro do primeiro tempo. A arbitragem não marcou o pênalti nem revisou a jogada no VAR, embora a análise de arbitragem dos Canais Globo tenha considerado que houve infração. Ainda assim, a reclamação não deve servir para esconder os problemas apresentados pelo Vasco durante a etapa inicial.

Pedro Emanuel corrigiu o meio-campo e encontrou o caminho para a virada

A principal intervenção do treinador aconteceu no intervalo. Pedro Emanuel manteve a formação com três zagueiros, mas retirou Sosa e colocou Colidio. A mudança foi importante porque acrescentou um jogador com maior capacidade de participação ofensiva e ofereceu novas opções de passe no meio-campo. O Vasco deixou de depender tanto de uma saída de bola concentrada em jogadores de características defensivas e passou a encontrar mais alternativas para avançar.

Lescano foi um dos principais beneficiados. Depois de passar boa parte do primeiro tempo isolado, o argentino encontrou mais espaço para receber, conduzir e conectar a defesa ao ataque. Sua participação foi fundamental para dar fluidez às transições e permitir que o Vasco ocupasse o campo ofensivo com mais jogadores. Mesmo sem marcar ou dar assistência, teve influência direta na mudança de comportamento da equipe.

A melhora, no entanto, não se traduziu imediatamente em oportunidades claras. O Vasco ainda apresentava dificuldades para transformar a maior presença ofensiva em chances de gol, e o empate acabou surgindo em uma jogada que também teve participação do acaso. Cuiabano, que fazia uma partida irregular até aquele momento, cruzou com força para a área e contou com o desvio de Aguirre contra a própria meta.

O gol mudou o ambiente da partida. O Athletico sentiu o impacto do empate, enquanto o Vasco ganhou confiança e passou a pressionar com mais intensidade. A reação também foi impulsionada pelo comportamento das arquibancadas, que aumentaram a cobrança sobre Mycael depois do gol contra. O cenário favoreceu o time carioca, que soube aproveitar o momento para transformar uma atuação até então limitada em uma sequência ofensiva decisiva.

Os outros dois gols, diferentemente do empate, foram construídos a partir de movimentos coletivos mais claros. Com mais jogadores próximos da área, o Vasco passou a encontrar espaços para triangulações e ultrapassagens. Puma Rodríguez aproveitou uma liberdade pelo lado direito, chegou à linha de fundo e cruzou para Bruno Duarte completar. Pouco depois, Colidio participou da construção de uma jogada de bola parada, e Gabriel Pereira marcou de cabeça para confirmar a virada.

A sequência mostrou uma equipe mais agressiva, com melhor ocupação dos espaços e maior capacidade de envolver a defesa adversária. O Vasco não apenas colocou mais jogadores no ataque, mas passou a oferecer alternativas para quem tinha a bola. Essa foi a principal diferença em relação ao primeiro tempo, quando a equipe dependia de ações individuais e encontrava dificuldades para conectar os setores.

Uma vitória que pode representar mais do que três pontos

O resultado encerrou um jejum de 19 anos sem vencer o Athletico como visitante pelo Campeonato Brasileiro, mas seu significado vai além do retrospecto. O Vasco chegou aos 41 pontos e abriu quatro de vantagem em relação ao Grêmio, primeiro time dentro da zona de rebaixamento. A equipe ainda tem uma partida atrasada contra a Chapecoense, marcada para 14 de novembro, na Arena Condá, o que oferece a possibilidade de ampliar a distância para os concorrentes diretos.

A situação continua exigindo atenção, mas a vitória representa um alívio importante em um momento no qual qualquer tropeço poderia aumentar a pressão sobre o elenco e a comissão técnica. O Vasco precisava de uma resposta depois de resultados que deixaram a permanência na primeira divisão como uma preocupação central. Sair da Arena da Baixada com uma virada convincente também ajuda a recuperar a confiança para a sequência da temporada.

Pedro Emanuel, por sua vez, ganhou argumentos para manter a formação com três zagueiros em determinadas partidas. O sistema ainda precisa de ajustes, principalmente na saída de bola e na proteção dos espaços entre o meio-campo e a defesa, mas o segundo tempo mostrou que a estrutura pode funcionar quando há jogadores suficientes para conectar os setores e oferecer alternativas ofensivas.

A atuação de Lescano foi um dos exemplos mais claros dessa evolução. O argentino não precisou aparecer diretamente na súmula para ser decisivo, pois sua capacidade de conduzir a bola e encontrar companheiros entre as linhas ajudou a transformar o funcionamento do time. A entrada de Colidio também foi fundamental para que o Vasco tivesse mais presença ofensiva e não deixasse a construção concentrada em jogadores com características predominantemente defensivas.

Isso não significa que a mudança tática esteja definitivamente resolvida. O primeiro tempo mostrou que a simples utilização de três zagueiros não garante equilíbrio e que a escolha dos jogadores para o meio-campo precisa ser compatível com as responsabilidades de construção. Contra um adversário que pressione a saída de bola, a equipe ainda pode encontrar dificuldades se não tiver alternativas para superar a primeira linha de marcação.

A vitória, portanto, deve ser vista como um sinal promissor, mas não como a confirmação de que todos os problemas foram solucionados. O Vasco precisará demonstrar que consegue repetir a organização apresentada depois do intervalo e que a nova formação pode funcionar desde o início de uma partida. Ainda assim, encontrar uma alternativa tática em um momento tão importante da temporada é um ganho grande para Pedro Emanuel.

(Foto: João Heim)