Championship caminha para um colapso financeiro
Futebol

A Championship caminha para um colapso financeiro?

A Championship vive uma crise financeira silenciosa, mas cada vez mais evidente. Nos últimos 10 anos, os clubes da segunda divisão acumularam perdas totais superiores a £3 bilhões. 

Esse número impressionante não é apenas uma estatística: ele revela um modelo de negócio insustentável, baseado em gastos excessivos na esperança de chegar à Premier League, mesmo que isso signifique operar no vermelho ano após ano.

A situação é tão grave que o presidente do Portsmouth, Michael Eisner, alertou publicamente para uma possível “catástrofe”. Segundo ele, “nenhum clube consegue sobreviver a longo prazo nesse sistema” e, se nada mudar, pode haver um colapso real, com apenas a Premier League sobrevivendo.

Um ciclo vicioso de gastos e dívidas

Os números são assustadores. Apenas três clubes registraram lucro na temporada 2024-25, e um deles (Stoke City) só conseguiu isso porque o novo proprietário perdoou uma dívida de £90 milhões. Fora isso, a maioria das equipes opera com prejuízos constantes. Leicester City, por exemplo, perdeu £305,7 milhões nos últimos cinco anos, mais do que qualquer outro clube da divisão. Bristol City, Preston, QPR e Middlesbrough também acumulam prejuízos ano após ano, sem perspectiva de equilíbrio.

Esse desequilíbrio vem de uma lógica perversa: os clubes gastam cada vez mais para tentar subir para a Premier League, onde o prêmio financeiro é enorme (cerca de £106 milhões só pela TV, além de pagamentos de paraquedas). Como as chances de acesso são pequenas (teoricamente uma em oito), a maioria dos proprietários acaba bancando o prejuízo como se fosse um “bilhete de loteria”. O problema é que esse “bilhete” custa caro e, quando não dá certo, deixa dívidas que podem levar o clube à administração.

Sheffield Wednesday é o exemplo mais recente e dramático. O clube perdeu cerca de £200 milhões sob a gestão de Dejphon Chansiri, entrou em administração e foi rebaixado para a League One de forma antecipada, a mais rápida da história da EFL.

Casos semelhantes já aconteceram com Derby, Wigan, Bury e Bolton nos últimos anos. O padrão se repete: proprietários injetam dinheiro, o clube gasta além da conta e, quando o dinheiro acaba ou o dono desiste, o clube entra em colapso.

Os donos dos clubes da Championship estão perdidos

O economista esportivo Kieran Maguire resume bem o problema: os clubes da Championship vivem em um sistema onde o salário supera a receita gerada antes mesmo de pagar as contas básicas. Isso só é possível porque proprietários ricos continuam injetando dinheiro, muitas vezes na forma de “empréstimos” que todos sabem que nunca serão pagos. Steve Lansdown, dono do Bristol City, já perdeu £218 milhões desde 2002. A família Hemmings, do Preston, coloca £1 milhão por mês. John Coates, do Stoke, perdoou £90 milhões.

Enquanto houver gente disposta a subsidiar o futebol dessa forma, o sistema se mantém. Mas Maguire alerta: esse modelo depende de “pessoas dispostas a serem altruístas”. E esse tipo de benfeitor está se tornando cada vez mais raro. Quando os donos decidirem parar de bancar os prejuízos, muitos clubes simplesmente não terão dinheiro para pagar as contas em poucas semanas.

Um sistema quebrado que afeta toda a pirâmide

O problema não fica restrito à Championship. As perdas já começam a “vazar” para a League One, onde a média anual de prejuízo triplicou nos últimos anos. O futebol inglês como um todo está viciado em um modelo que prioriza o curto prazo (subir para a Premier League) em detrimento da sustentabilidade.

A própria Premier League também registra perdas altas, mas o dinheiro da TV e dos patrocinadores mascara o problema. No segundo escalão, não há esse colchão. O resultado é um campeonato onde quase todos os clubes operam no vermelho, torcendo para que um dia o “prêmio” da promoção compense os anos de prejuízo.

Michael Eisner, do Portsmouth, foi claro: “Existem nuvens escuras pairando sobre a pirâmide do futebol inglês”. Ele vê o risco real de um colapso onde apenas a Premier League sobrevive, enquanto o resto da estrutura entra em crise.

O que precisa mudar na Championship?

Para evitar o “cenário do juízo final”, como define Maguire, é necessário controle mais rígido de custos, limites reais de gastos e uma mudança cultural. Clubes precisam parar de gastar como se a promoção fosse garantida. A EFL e a nova reguladora precisam impor regras mais duras de sustentabilidade, ou o sistema continuará gerando vítimas.

Enquanto isso, a Championship segue como um campeonato bonito de se assistir, mas financeiramente insustentável. Os donos bancam, os torcedores sonham com a Premier League e o risco de novas administrações e rebaixamentos administrativos aumenta a cada ano.

A pergunta que fica é: até quando os proprietários estarão dispostos a continuar colocando dinheiro em um buraco sem fundo? Se a resposta for “não por muito tempo”, o colapso financeiro que muitos temem pode estar mais perto do que imaginamos.

A Championship não está apenas perdendo dinheiro. Ele está perdendo sustentabilidade. E se nada mudar, a “catástrofe” prevista por Eisner pode deixar de ser uma ameaça e virar realidade.