No próximo evento do UFC em Winnipeg, no Canadá, dia 18 de abril, o nome de Charles Jourdain pode entrar para a história. O canadense chega para enfrentar Kyler Phillips com a possibilidade de igualar o recorde de vitórias por guilhotina dentro do Ultimate, que pertence a um dos lutadores mais populares de todos os tempos, Nate Diaz.
E o mais curioso é que, mesmo perto de um feito tão específico e simbólico, Jourdain segue fora dos rankings oficiais e praticamente desconhecido do grande público. Esse contraste escancara uma realidade comum no MMA moderno. Nem sempre desempenho técnico, regularidade ou capacidade de finalização se traduzem em popularidade, marketing ou posição no ranking.
A trajetória de Charles Jourdain é um exemplo quase didático de como um atleta pode ser extremamente perigoso dentro do octógono e ainda assim não receber o mesmo reconhecimento que outros nomes da divisão.
Nascido em Beloeil, Quebec, Jourdain construiu carreira sólida no circuito canadense antes de chegar ao UFC. Ele foi campeão dos penas e campeão interino dos leves na organização TKO, principal evento do Canadá, antes de assinar com o Ultimate em 2019. Desde então, acumulou vitórias por nocaute e por finalização, mantendo a fama de lutador agressivo, técnico e sempre disposto a buscar o fim da luta.
De acordo com os dados oficiais, Jourdain soma várias vitórias por submissão, incluindo múltiplas guilhotinas, golpe que se tornou uma de suas marcas registradas.
Nos últimos anos, ele finalizou adversários como Lando Vannata, Ricardo Ramos, Victor Henry e Davey Grant usando exatamente esse estrangulamento, mostrando consistência rara em um golpe que costuma depender muito de timing e oportunidade.
É justamente essa sequência que o coloca perto do recorde de Nate Diaz, que tem cinco vitórias por guilhotina no UFC, número considerado o maior da história da organização para essa técnica específica. Mesmo assim, Jourdain não aparece entre os principais nomes da divisão.
O cartel do canadense mostra um padrão curioso. Ele raramente faz lutas sem ação. Com 17 vitórias na carreira, a maioria veio por interrupção, seja por nocaute ou finalização, o que normalmente é suficiente para chamar atenção no UFC. Ainda assim, sua trajetória dentro da organização é marcada por altos e baixos, alternando grandes vitórias com derrotas em decisões equilibradas.
Esse tipo de irregularidade costuma ser decisivo para explicar por que alguns lutadores não entram no ranking. O sistema oficial do UFC é definido por votação de um painel de jornalistas e leva em conta sequência de resultados, força dos adversários e relevância das lutas. Sem vitórias consecutivas contra nomes ranqueados, fica difícil subir, mesmo para atletas talentosos.
Além disso, Jourdain passou boa parte da carreira alternando entre categorias, lutando nos penas e depois descendo para o peso-galo, o que atrasou sua consolidação dentro de uma divisão específica.
Mudanças de categoria costumam reiniciar o caminho rumo ao ranking, já que o atleta precisa provar novamente seu valor contra novos adversários.
Outro fator que pesa contra ele é o estilo. Apesar de empolgante, Jourdain não tem o perfil de trash talk, rivalidades ou grandes histórias pessoais que normalmente impulsionam a popularidade de um lutador. Em um esporte cada vez mais dependente de narrativa, isso faz diferença.
Enquanto nomes com menos finalizações aparecem com frequência em cards principais, Jourdain muitas vezes luta em posições intermediárias, mesmo entregando combates mais técnicos e emocionantes.

Performances não garantem fama e Jourdain prova isso
O fato de um lutador poder igualar uma marca de Nate Diaz e ainda assim não ser tratado como destaque mostra como o UFC funciona em camadas.
Existem os campeões, os “contenders”, os nomes populares e também os especialistas perigosos, que podem vencer qualquer um, mas que não recebem o mesmo espaço.
Se vencer Kyler Phillips e alcançar o recorde de guilhotinas, ele entrará para uma lista extremamente curta dentro da organização. Poucos lutadores conseguem repetir tantas vezes a mesma finalização em alto nível, ainda mais em categorias leves, onde a velocidade e a defesa costumam dificultar esse tipo de golpe.
Mesmo assim, nada garante que isso será suficiente para colocá-lo entre os 15 melhores. E talvez seja justamente isso que torna a história ainda mais interessante. Charles Jourdain pode não ser famoso, pode não estar no ranking, pode não ser promovido como estrela, mas está a uma finalização de dividir um recorde com Nate Diaz.
E, no UFC, às vezes é exatamente esse tipo de lutador que ninguém quer enfrentar. Porém, caso chegue ou quebre o recorde, Jourdain pode ter o que mais precisa para aparecer mais: Uma história consistente, que terá papel fundamental na venda de suas próximas lutas.
(Imagem de capa: Getty Images)