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Como a MLS virou uma fábrica de talentos para a seleção dos Estados Unidos

A Major League Soccer (MLS) está mudando a forma como os Estados Unidos desenvolvem seus jogadores. Durante anos, a transferência precoce para a Europa foi vista como o caminho natural para os principais talentos do país. Agora, a liga norte-americana oferece uma alternativa cada vez mais consistente: formar adolescentes, dar espaço no futebol profissional e prepará-los para a seleção principal.

O movimento ganhou força após a Copa do Mundo de 2026. À frente da seleção dos Estados Unidos, Mauricio Pochettino tem à disposição uma geração que não precisa necessariamente deixar o país para adquirir experiência no futebol profissional. Cavan Sullivan, do Philadelphia Union, é o principal símbolo dessa transformação, mas está longe de ser um caso isolado.

Segundo dados citados pela Sports Illustrated, 84 adolescentes já haviam atuado na MLS até meados de setembro, um recorde para a liga. Juntos, esses jogadores também haviam marcado 57 gols, outro número inédito. Os registros ajudam a dimensionar uma mudança que vai além do surgimento de uma ou duas promessas: a formação de jovens começa a fazer parte da identidade esportiva da competição.

Como a MLS passou a formar tantos jovens?

A resposta começa nas categorias de base. Há duas décadas, a estrutura de formação dos clubes norte-americanos era mais limitada. Muitos talentos dependiam de oportunidades no futebol universitário ou de uma transferência para a Europa para dar passos importantes na carreira.

Esse cenário mudou com a expansão da MLS e os investimentos nas academias. Estruturas como a YSC Academy, ligada ao Philadelphia Union, e a academia do New York Red Bulls passaram a oferecer treinamento profissional e acompanhamento educacional, criando um ambiente mais adequado para desenvolver atletas desde cedo.

As regras da própria liga também tiveram papel importante. A política de contratos para jogadores formados nos clubes, introduzida em 2008, facilitou a promoção de atletas das categorias de base ao elenco profissional. Em 2021, a regra sub-22 ampliou as possibilidades de manter jovens talentos com contratos mais vantajosos dentro das limitações financeiras da competição.

Outro passo foi a criação da MLS NEXT e da MLS NEXT Pro, em 2020 e 2021, respectivamente. As competições estabeleceram etapas intermediárias entre as academias e as equipes principais, permitindo que os adolescentes adquirissem experiência antes de enfrentar regularmente jogadores mais velhos e experientes.

A expansão da liga também aumentou o número de clubes, academias e vagas nos elencos profissionais. Com mais oportunidades disponíveis, jovens que antes poderiam passar anos esperando uma chance ganharam caminhos mais claros para chegar ao time principal.

O resultado é um sistema mais sustentável: os clubes conseguem desenvolver seus próprios atletas, aproveitá-los no profissional e, posteriormente, negociar transferências importantes. O caso de Jack McGlynn, que se transferiu para o Stoke City em uma negociação que poderia chegar a US$ 5,5 milhões, ilustra o potencial financeiro desse modelo.

Cavan Sullivan e Julian Hall representam a nova geração

A trajetória de Cavan Sullivan ajuda a entender como esse processo funciona. Formado na estrutura do Philadelphia Union, o meia ganhou destaque ainda muito jovem e passou pela MLS NEXT Pro antes de conquistar espaço na equipe principal.

A experiência nas categorias de base e na competição de desenvolvimento permitiu que o jogador evoluísse sem precisar dar um salto direto para um dos principais campeonatos europeus. Aos poucos, Sullivan deixou de ser apenas uma promessa e passou a contribuir com gols, assistências e criatividade no futebol profissional.

Sullivan é uma das joias norte-americanas (Isaiah Vazquez/MLS/Getty Images)

Julian Hall, do New York Red Bulls, percorreu um caminho semelhante. Depois de duas temporadas na equipe da MLS NEXT Pro, o atacante ganhou espaço no time principal e transformou a oportunidade em desempenho. Na atual temporada, ele já soma 15 gols e três assistências em 33 jogos pelo Clube.

A diferença em relação a muitos jovens que chegam à Europa está na frequência das oportunidades. Em clubes de grandes ligas europeias, adolescentes podem passar longos períodos entre o banco de reservas e participações pontuais. Na MLS, alguns dos principais talentos já recebem responsabilidades relevantes e acumulam minutos de forma consistente.

Isso não significa que a liga norte-americana seja superior aos centros europeus de formação. Significa que o caminho para o desenvolvimento deixou de depender exclusivamente de uma transferência internacional. Para um jovem, jogar regularmente pode ser mais valioso do que integrar o elenco de um clube famoso sem perspectiva imediata de participação.

Pochettino já colhe os efeitos da mudança

A transformação da MLS também começa a aparecer nas convocações da seleção dos Estados Unidos. Na última Data Fifa, sete adolescentes que atuavam na liga integraram o grupo de Pochettino.

O treinador argentino tem diante de si uma geração capaz de acelerar a renovação da equipe após o Mundial de 2026. Christian Pulisic, Tyler Adams e Weston McKennie foram referências de um ciclo em que jovens norte-americanos buscaram espaço em grandes clubes europeus. Agora, novos talentos podem chegar à seleção com experiência acumulada em sua própria liga.

Sullivan é o rosto mais conhecido desse movimento, enquanto Hall e outros jovens começam a demonstrar que também podem disputar espaço. O desafio de Pochettino será transformar o potencial individual em uma equipe competitiva, sem confundir a empolgação com adolescentes promissores com a garantia de resultados.

A formação não termina quando um jogador estreia no profissional ou recebe sua primeira convocação. A evolução exige continuidade, acompanhamento e capacidade de lidar com a pressão. A seleção também precisará criar um ambiente em que esses atletas possam amadurecer sem carregar sozinhos a expectativa de transformar o futebol do país.

A Europa continua no horizonte, mas deixou de ser o único caminho

O crescimento da MLS não elimina a importância da Europa. Jovens norte-americanos continuam buscando oportunidades em clubes como Borussia Dortmund e Barcelona, e a experiência em campeonatos mais exigentes pode ser decisiva para determinados perfis de jogador.

A diferença é que a liga dos Estados Unidos passou a oferecer uma plataforma mais sólida antes de uma eventual transferência. Em vez de precisar sair cedo para desenvolver o próprio futebol, um adolescente pode crescer em sua cidade, atuar em uma estrutura profissional e chegar ao mercado internacional com experiência e valor esportivo maiores.

Essa evolução também beneficia os clubes, que passam a ter mais condições de revelar atletas, aproveitá-los no time principal e negociar suas saídas em condições favoráveis. Ao mesmo tempo, fortalece a seleção, que ganha acesso a jogadores com ritmo de competição e responsabilidades reais.

Ainda é cedo para afirmar que essa geração alcançará o impacto de Pulisic, Adams e McKennie. A mudança estrutural, porém, já é significativa. A MLS deixou de ser apenas um destino para veteranos ou uma etapa secundária na carreira de jogadores norte-americanos.

Com academias mais preparadas, competições intermediárias e espaço crescente para adolescentes, a liga construiu caminhos que antes eram exceção. Sullivan pode ser o símbolo mais visível da transformação, mas o avanço que o cerca é resultado de um trabalho iniciado anos antes — e que agora começa a influenciar diretamente o futuro da seleção dos Estados Unidos.

Foto: Getty Images