O Como é uma das histórias mais interessantes do futebol europeu. Enquanto Real Madrid e Manchester City concentram alguns dos maiores talentos do planeta, o clube italiano encontrou em jogadores que não conseguiram espaço nesses gigantes as peças fundamentais para construir um projeto competitivo. Jogadores como Nico Paz, Jacobo Ramón, Máximo Perrone e Lucas Da Cunha representam diferentes versões dessa trajetória: atletas que precisaram sair de ambientes de enorme prestígio para descobrir, sob o comando de Cesc Fàbregas, como transformar potencial em desempenho.
A ascensão do Como não pode ser explicada apenas pelo investimento de seus proprietários ou pela ambição de disputar espaço entre os principais clubes da Itália. Existe um trabalho de identificação, desenvolvimento e utilização de jogadores que ainda tinham muito a oferecer, mas não encontravam condições para demonstrar isso em suas equipes anteriores. O clube oferece algo que parece cada vez mais escasso nos grandes centros do futebol: continuidade, confiança e funções pensadas de acordo com as características individuais.
O mais curioso é que parte dessa transformação envolve atletas que passaram por algumas das estruturas de formação mais respeitadas do mundo. O Real Madrid desenvolveu Nico Paz e Jacobo Ramón, enquanto o Manchester City contratou Máximo Perrone como uma aposta para o futuro. Os três tiveram contato com ambientes de excelência, mas encontraram no Como a oportunidade de participar efetivamente de um projeto esportivo. Lucas Da Cunha completa esse grupo por outro caminho: sem a mesma passagem por um gigante europeu, tornou-se um exemplo ainda mais claro de como uma mudança de posição pode alterar completamente a trajetória de um jogador.
A discussão, portanto, vai além de reconhecer o mérito de Fàbregas. O Como também expõe uma dificuldade estrutural de grandes clubes: investir na formação de talentos não significa necessariamente saber desenvolvê-los até o futebol profissional. Em muitos casos, os jovens são preparados para alcançar o time profissional, mas não encontram espaço, paciência ou uma função adequada quando chegam ao nível mais alto.
Nico Paz e Jacobo Ramón: dois talentos que o Real Madrid não conseguiu aproveitar
Nico Paz é provavelmente o rosto mais conhecido dessa geração do Como. Formado em La Fábrica, a tradicional categoria de base do Real Madrid, o argentino passou anos dentro de uma estrutura acostumada a revelar jogadores de alto nível. Chegou a estrear pela equipe principal, inclusive na Champions League, mas a concorrência no elenco madridista tornava muito difícil conquistar uma sequência de oportunidades.
Em agosto de 2024, o meia deixou a Espanha e assinou com o Como em busca de minutos. A decisão mudou sua carreira. Sob o comando de Fàbregas, encontrou um sistema que valoriza sua capacidade de receber entre as linhas, conduzir a bola, encontrar passes verticais e aparecer próximo da área. Em vez de ser tratado como uma promessa que precisava aguardar uma oportunidade eventual, passou a ocupar uma posição central no funcionamento da equipe.
A evolução também apareceu no cenário internacional. Nico conquistou espaço na seleção argentina e estreou pela equipe principal em outubro de 2024, em uma partida contra a Bolívia, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, na qual deu assistência para Lionel Messi. A oportunidade de jogar regularmente em uma liga competitiva foi determinante para que seu talento deixasse de ser apenas uma expectativa.
O caso de Jacobo Ramón apresenta semelhanças, embora envolva uma posição que costuma exigir ainda mais experiência. O zagueiro espanhol, nascido em 2005, também foi formado pelo Real Madrid e chegou a disputar partidas pela equipe principal e pelo Castilla. No entanto, a presença de jogadores experientes e a concorrência por espaço na defesa madridista dificultavam a construção de uma trajetória regular.
A transferência para o Como, em 2025, ofereceu uma alternativa que o Real Madrid não poderia garantir naquele momento: a possibilidade de disputar uma temporada inteira como protagonista. E Ramón aproveitou a oportunidade. Em sua primeira campanha na Itália, foi titular em 35 das 37 partidas da equipe na Serie A, além de contribuir ofensivamente com dois gols. Na temporada seguinte, continuou como uma das referências defensivas do elenco.
O Real Madrid, naturalmente, manteve mecanismos contratuais para preservar parte do controle sobre o futuro dos dois atletas. Isso mostra que o clube reconhece o potencial de suas antigas promessas. A questão é justamente essa: se os jogadores demonstram qualidade suficiente para despertar o interesse e a proteção contratual de uma das maiores equipes do mundo, por que não encontraram espaço para evoluir dentro dela?
A resposta não está necessariamente em uma avaliação ruim de seus talentos. O Real Madrid precisa competir por títulos imediatamente, possui um elenco repleto de estrelas e não pode oferecer minutos ilimitados a todos os jovens. No entanto, o caso de Nico e Ramón revela o custo dessa lógica. O clube pode preservar seus direitos econômicos, mas o desenvolvimento esportivo dos atletas acaba acontecendo em outro lugar.
Máximo Perrone encontrou no Como a função que o Manchester City não ofereceu
A história de Máximo Perrone acrescenta outra dimensão ao debate. O argentino chegou ao Manchester City em janeiro de 2023, depois de se destacar pelo Vélez Sarsfield. Aos 20 anos, era considerado uma aposta interessante para o futuro, principalmente por sua capacidade de organizar o meio-campo, distribuir passes e participar da construção das jogadas.
O problema foi encontrar espaço em uma equipe comandada por Pep Guardiola e formada por jogadores de nível internacional em praticamente todas as posições. Perrone fez apenas duas aparições pela equipe principal do City durante sua passagem pelo clube e precisou buscar experiência em outros lugares. Primeiro, foi emprestado ao Las Palmas, onde disputou 30 partidas pelo Campeonato Espanhol. Depois, chegou ao Como, inicialmente por empréstimo, antes de ser contratado em definitivo.
Foi na Itália que suas características passaram a ser aproveitadas de maneira mais consistente. Fàbregas encontrou em Perrone um meio-campista capaz de oferecer equilíbrio ao sistema, controlar o ritmo da partida e conectar os setores por meio da qualidade no passe. O argentino não precisava ser o jogador responsável por decidir as partidas individualmente, mas se tornou fundamental para que os companheiros pudessem exercer suas funções ofensivas.
Sua participação no jogo vai além dos números de assistência e gols. Perrone recebe a bola sob pressão, identifica rapidamente as opções de passe e procura acelerar a circulação quando encontra espaços para avançar. Também apresenta capacidade de recuperação e leitura defensiva, características que permitem ao Como manter jogadores mais ofensivos próximos da área adversária sem perder completamente o equilíbrio.
Em sua primeira temporada pelo clube, o argentino teve 90,9% de acerto nos passes, além de ter criado 22 oportunidades de finalização. Mais importante do que os números isolados, porém, é a maneira como sua presença ajuda a organizar a equipe. Perrone tornou-se uma espécie de metrônomo, responsável por controlar o ritmo e oferecer continuidade às jogadas.
A diferença entre o City e o Como está na utilização. Perrone precisava de um ambiente no qual pudesse participar regularmente da construção, assumir responsabilidades e desenvolver sua leitura de jogo por meio da repetição. O Como ofereceu essas condições e acabou transformando uma aposta que não encontrou espaço em Manchester em um investimento permanente.
Lucas Da Cunha prova que o problema também pode estar na função
Se Nico Paz, Jacobo Ramón e Máximo Perrone precisaram deixar grandes clubes para encontrar espaço, Lucas Da Cunha representa uma situação diferente. O francês passou pela formação do Rennes e teve experiências no Nice, no Lausanne e no Clermont, mas ainda não havia encontrado uma posição na qual conseguisse explorar plenamente suas características.
Quando chegou ao Como, em janeiro de 2023, o clube ainda disputava a segunda divisão italiana. Da Cunha era utilizado principalmente como jogador de lado de campo ou como uma opção mais avançada, com liberdade para atuar atrás dos atacantes. Sua versatilidade era reconhecida, mas ainda faltava uma definição sobre como poderia contribuir de maneira mais consistente.
A mudança aconteceu com a chegada de Fàbregas ao comando técnico. O treinador percebeu que Da Cunha poderia oferecer muito mais no centro do campo e começou a utilizá-lo como meio-campista. A transformação foi significativa: o francês deixou de depender da velocidade e da capacidade de atacar espaços pelos lados para assumir responsabilidades na circulação da bola, na organização das jogadas e no controle do ritmo.
O resultado foi uma evolução que também se refletiu em sua importância dentro do elenco. Da Cunha tornou-se capitão, participou da trajetória que levou o Como da Serie B à Champions League e passou a ser considerado uma das referências do projeto. Em 2026, recebeu um novo contrato de cinco anos depois de uma temporada em que disputou praticamente todos os compromissos do clube, com seis gols e quatro assistências no Campeonato Italiano.
A transformação também ganhou reconhecimento da seleção. O francês passou a ser observado para a seleção de seu país, um caminho que parecia distante quando ainda buscava espaço como atacante pelos corredores do campo. Sua evolução mostra que o talento não depende apenas da qualidade técnica, mas também da capacidade de encontrar um contexto no qual as melhores características possam aparecer.
Da Cunha talvez seja o exemplo mais forte de que o Como não está simplesmente recolhendo jogadores descartados por grandes clubes. O trabalho de Fàbregas envolve identificar possibilidades que nem sempre foram exploradas anteriormente. O treinador não apenas oferece minutos: modifica a maneira como determinados atletas participam do jogo.
Essa é uma diferença importante em relação a projetos que contratam jovens promessas e esperam que elas se desenvolvam naturalmente. O Como procura entender o que cada jogador pode oferecer e constrói uma função a partir disso. No caso de Da Cunha, a mudança de posição foi tão importante quanto a oportunidade de jogar regularmente.
O Como expõe uma falha das grandes categorias de base
A ascensão desses jogadores levanta uma discussão incômoda para os clubes mais poderosos da Europa. Real Madrid e Manchester City possuem estruturas de formação, análise e recrutamento que movimentam recursos enormes, além de acesso a profissionais especializados no desenvolvimento de jovens atletas. Ainda assim, parte dos jogadores que passaram por esses ambientes precisou encontrar em outro clube as condições para alcançar o melhor futebol.
Isso não significa que as categorias de base desses gigantes sejam ruins. Pelo contrário, o fato de Nico Paz e Jacobo Ramón terem chegado ao profissionalismo em um nível tão alto demonstra a qualidade do trabalho de formação. O problema aparece na transição entre a base e o elenco principal, especialmente quando o jovem precisa competir com jogadores consolidados e não encontra um plano de desenvolvimento que permita uma evolução gradual.
Em clubes como Real Madrid e Manchester City, a exigência por resultados imediatos reduz a margem de experimentação. Um erro de um jovem pode custar pontos importantes, enquanto um jogador experiente oferece maior previsibilidade. O treinador, pressionado por títulos e resultados, tende a recorrer às opções mais confiáveis. O jovem, por sua vez, passa a depender de lesões, suspensões ou partidas de menor importância para receber oportunidades.
O problema é que o desenvolvimento de um atleta não acontece apenas durante os treinamentos. Jogar regularmente, enfrentar diferentes adversários, tomar decisões sob pressão e aprender com os próprios erros são etapas fundamentais para alcançar o nível profissional. Quando essas experiências não aparecem, o potencial pode permanecer limitado ao que foi demonstrado nas categorias inferiores.
O Como oferece uma alternativa a esse modelo. O clube não possui a mesma obrigação histórica de conquistar todos os títulos, mas construiu uma estrutura ambiciosa, com investimento, recrutamento internacional e uma proposta de jogo bem definida. Essa combinação permite que os jogadores tenham responsabilidades reais sem que cada falha seja tratada como um motivo para perder espaço definitivamente.
Existe também um componente tático. Fàbregas trabalha com uma ideia de futebol que valoriza a posse, a construção desde a defesa, a movimentação entre linhas e a capacidade de controlar o ritmo. Isso favorece jogadores técnicos e inteligentes, mas exige que cada um compreenda sua função dentro do coletivo. O treinador não procura simplesmente reunir talentos: busca encontrar uma maneira de fazer com que eles se complementem.
A estrutura do clube também precisa ser considerada. O Como não é uma equipe pequena que alcançou seus resultados exclusivamente por meio de improvisação. O investimento de seus proprietários permitiu ampliar o departamento de recrutamento, fortalecer a estrutura esportiva e montar um elenco capaz de competir por objetivos importantes. O mérito está em combinar recursos financeiros com uma ideia de desenvolvimento e utilização dos jogadores.
Por isso, a crítica às grandes bases precisa ser direcionada à incapacidade de construir caminhos individuais para os talentos formados. Não basta contratar os melhores jovens, oferecer treinamentos de excelência e esperar que todos estejam preparados para disputar uma vaga no time principal. É necessário planejar empréstimos, encontrar clubes parceiros, oferecer funções específicas e acompanhar o desenvolvimento de cada atleta de maneira mais próxima.



