Ruben Amorim começou a reconstruir sua reputação no futebol europeu depois de uma passagem frustrante pelo Manchester United. Contratado pelo Milan após deixar o clube inglês em janeiro de 2026, o treinador português iniciou sua trajetória na Serie A sem derrotas nas primeiras sete rodadas, com quatro vitórias e três empates. O desempenho contrasta com os números que marcaram sua saída de Old Trafford e indica uma mudança importante em sua maneira de trabalhar: em vez de tentar impor um modelo tático rígido independentemente das características do elenco, Amorim passou a demonstrar maior flexibilidade para encontrar soluções a partir dos jogadores disponíveis.
A vitória por 3 a 2 sobre a Atalanta, no San Siro, sintetizou essa transformação. Embora o Milan tenha conseguido um resultado importante, a equipe perdeu intensidade nos 20 minutos finais e permitiu que o adversário voltasse à partida. O triunfo, portanto, não escondeu as dificuldades, mas mostrou que o time de Amorim consegue competir mesmo quando ainda não controla todos os momentos do jogo. O treinador também encerrou um retrospecto pessoal desfavorável contra a Atalanta, adversária que havia enfrentado quatro vezes quando comandava o Sporting, sem conseguir vencer.
O início positivo recoloca Amorim em uma posição diferente daquela que ocupava meses atrás. No Manchester United, o português deixou o cargo com um aproveitamento de apenas 38% em 63 partidas, o pior entre os treinadores permanentes do clube desde a aposentadoria de Alex Ferguson. No Milan, os primeiros resultados indicam que ele está conseguindo transformar as dificuldades anteriores em aprendizado, embora ainda seja cedo para afirmar que a recuperação está consolidada. A sequência invicta representa um ponto de partida, mas o verdadeiro teste será demonstrar que as mudanças também funcionam contra os principais concorrentes ao título italiano.
O fracasso no Manchester United deixou lições importantes
Amorim chegou ao Manchester United em novembro de 2024 com a expectativa de reorganizar uma equipe que enfrentava dificuldades para recuperar seu protagonismo. O trabalho, entretanto, não evoluiu como esperado. Em 63 jogos, o treinador acumulou 24 vitórias, 18 empates e 21 derrotas, números que evidenciaram a dificuldade de estabelecer uma identidade competitiva consistente em Old Trafford.
O aproveitamento de 38% ajuda a dimensionar o problema, mas não explica sozinho por que o projeto fracassou. Um dos principais pontos de crítica foi a insistência de Amorim em seu modelo de jogo, baseado frequentemente em uma estrutura com três zagueiros, mesmo quando o elenco não parecia reunir todas as características necessárias para executá-lo com eficiência. A adaptação dos jogadores às exigências do treinador tornou-se um obstáculo, e a equipe não conseguiu encontrar regularidade suficiente para sustentar uma evolução.
A saída do português também foi acompanhada por um desgaste nos bastidores. Depois do empate por 1 a 1 com o Leeds United, em 5 de janeiro de 2026, Amorim afirmou ser o treinador do Manchester United, e não apenas o responsável pela condução dos treinos. Também criticou o diretor de futebol Jason Wilcox e o departamento de observação de jogadores em relação às movimentações do mercado. A declaração evidenciou um distanciamento entre o treinador e a estrutura esportiva do clube, tornando ainda mais difícil a continuidade do trabalho.
A demissão encerrou um período em que os resultados e as divergências internas passaram a se alimentar mutuamente. Sem conseguir estabelecer uma sequência positiva em campo, Amorim perdeu margem para insistir em suas convicções, enquanto o ambiente de cobrança aumentou a pressão por respostas imediatas. Darren Fletcher assumiu provisoriamente o comando depois de sua saída.
O episódio deixou uma questão importante para a carreira do português: até que ponto ele conseguiria adaptar suas ideias sem abandonar os princípios que sustentam seu trabalho? A passagem pelo Manchester United mostrou que conhecer um sistema e acreditar em sua eficácia não basta para fazê-lo funcionar em qualquer contexto. Um treinador também precisa reconhecer as limitações do elenco, avaliar as características individuais e modificar a estratégia quando as circunstâncias exigem.
No Milan, Amorim passou a adaptar o sistema aos jogadores
A principal diferença entre o trabalho na Itália e a experiência na Inglaterra está na flexibilidade demonstrada pelo treinador. No Milan, Amorim passou a conceder mais liberdade aos jogadores e a considerar com maior atenção as características do elenco antes de definir a maneira como a equipe deve atuar. Ele continua sendo o responsável pelas decisões finais, mas demonstra uma disposição maior para ouvir os atletas e ajustar o plano de jogo às necessidades de cada confronto.
O próprio português reconheceu que nem sempre dispõe dos jogadores ideais para executar determinada estratégia. Essa percepção é relevante porque revela uma mudança de abordagem: em vez de tratar o sistema tático como uma estrutura imutável, Amorim parece compreender que o modelo precisa funcionar como uma ferramenta para potencializar o elenco.
A mudança não significa que o treinador tenha abandonado suas ideias anteriores. Em determinadas partidas, ele ainda pode recorrer à saída de bola com três defensores e a mecanismos que fizeram parte de seu trabalho no Sporting. A diferença está na possibilidade de alternar soluções de acordo com o adversário e com os recursos disponíveis. Como as equipes italianas frequentemente recorrem à marcação individual, variar a construção ofensiva pode ser fundamental para criar espaços e impedir que o Milan fique preso a uma única forma de atacar.
Essa flexibilidade também ajuda a explicar os resultados iniciais. O Milan venceu o Lecce por 3 a 0 no San Siro, conquistando sua segunda vitória consecutiva em casa na Serie A sem sofrer gols, algo que não acontecia desde a temporada 2020/21. O resultado indicou uma equipe capaz de combinar eficiência ofensiva com maior organização defensiva, ainda que uma sequência curta não permita concluir que todos os problemas foram resolvidos.
O rendimento de Adrien Rabiot também merece atenção. O meio-campista participou de gols em quatro partidas consecutivas, feito inédito para ele nas cinco principais ligas europeias. A sequência ainda o colocou em um grupo restrito de jogadores do Milan, já que o último meio-campista do clube a alcançar a mesma marca na Serie A havia sido Hakan Çalhanoğlu, em dezembro de 2020.
O desempenho individual não é suficiente para provar que toda a mudança de Amorim passa pela utilização de Rabiot, mas mostra como um jogador pode ganhar influência quando encontra funções adequadas dentro de uma estrutura coletiva. Ao ajustar o sistema às características do elenco, o treinador aumenta as possibilidades de extrair rendimento de atletas que talvez não se encaixassem tão bem em um modelo excessivamente rígido.
Essa é uma das principais lições que o português parece ter levado de Manchester: a identidade de uma equipe não depende apenas da repetição de um desenho tático, mas também da capacidade de criar condições para que os jogadores executem as funções exigidas.
Os resultados são positivos, mas o Milan ainda precisa controlar as partidas
A invencibilidade nas sete primeiras rodadas representa um avanço expressivo para Amorim, especialmente quando comparada ao desempenho de sua passagem pelo Manchester United. O Milan conquistou quatro vitórias e empatou três vezes, incluindo o triunfo sobre a Atalanta, e o treinador igualou um início de campeonato que poucos antecessores conseguiram alcançar. Apenas Héctor Puricelli, em 1955, e Luis Carniglia, em 1963, também começaram suas trajetórias no comando milanista sem derrotas nas sete primeiras partidas da liga.
O número reforça a dimensão histórica do início de trabalho, mas precisa ser analisado com cautela. Uma sequência invicta não significa necessariamente que uma equipe esteja pronta para disputar o título até o fim. O desempenho precisa ser acompanhado pela qualidade das atuações, pela capacidade de controlar diferentes cenários e pela regularidade diante de adversários com características variadas.
A partida contra a Atalanta mostrou exatamente esse contraste. O Milan produziu o suficiente para justificar a vitória segundo o indicador de gols esperados, com 2,41 contra 1,65 do adversário. Entretanto, a equipe perdeu o controle nos 20 minutos finais e permitiu que a vantagem ficasse ameaçada. O resultado foi positivo, mas a dificuldade para administrar o fim do jogo mostrou que a evolução ainda não está completa.
O problema não é necessariamente a queda de intensidade em si, algo que pode acontecer durante uma partida, mas a maneira como o time reage quando deixa de controlar o ritmo. Uma equipe que pretende disputar as primeiras posições precisa encontrar alternativas para proteger uma vantagem sem recuar excessivamente ou entregar ao adversário a iniciativa durante longos períodos.
O próprio Amorim reconheceu que o Milan poderia ter conquistado mais pontos. A declaração demonstra uma postura importante para um treinador que começa a receber elogios depois de uma passagem marcada por críticas: não confundir resultados positivos com a ausência de problemas. A invencibilidade oferece confiança, mas também pode esconder limitações que se tornam mais evidentes contra adversários de maior qualidade.
A equipe ainda precisa melhorar sua capacidade de controlar os momentos finais, reduzir oscilações e transformar boas sequências em uma atuação mais constante ao longo dos 90 minutos. O Milan já demonstrou que consegue vencer, mas a disputa pelo topo da Serie A exige também que saiba administrar partidas nas quais o desempenho não se mantém no mesmo nível durante todo o confronto.
A disputa pelo título será o verdadeiro teste de Amorim
A classificação após seis rodadas mostrava o Milan na quinta posição, com 12 pontos, atrás de Inter e Lazio, que somavam 16, e da Roma, com 14. A equipe romana também permanecia invicta naquele momento, com quatro vitórias e dois empates. O cenário evidenciava que o bom início de Amorim não colocava o Milan isolado na disputa e que outros concorrentes também apresentavam resultados consistentes.
Os empates contra Lazio, Juventus e Sassuolo reforçaram a necessidade de evolução. No confronto com o Sassuolo, Rabiot marcou após passe de Luka Modric, mas o Milan não conseguiu transformar a vantagem em vitória. O resultado ampliou a sensação de que a equipe poderia ter acumulado mais pontos, especialmente diante das oportunidades criadas durante o início da campanha.
Esses tropeços não anulam o valor da sequência invicta, mas mostram que a margem para erros é pequena quando a disputa envolve equipes como Inter, Roma e Lazio. O Milan precisa encontrar uma maneira de converter o equilíbrio apresentado nas primeiras rodadas em vitórias contra adversários diretos, sem depender apenas de momentos de eficiência ou de atuações individuais.
Esses confrontos também serão decisivos para avaliar a flexibilidade de Amorim. Contra equipes que pressionam a saída de bola, o Milan precisará mostrar que consegue construir jogadas sem se expor excessivamente. Diante de adversários que defendem em bloco baixo, será necessário encontrar alternativas para criar oportunidades. E, quando estiver em vantagem, o time terá de demonstrar maior capacidade de administrar o resultado sem abrir mão de sua organização.
O trabalho do português será avaliado não apenas pelo resultado final, mas pela maneira como o Milan responde a esses diferentes desafios. A adaptação tática representa um avanço importante, porém só poderá ser considerada uma mudança estrutural se continuar funcionando quando o nível de exigência aumentar.
A reputação de Amorim mudou mais rápido do que a avaliação definitiva de seu trabalho
A recuperação de Ruben Amorim no Milan mostra como a reputação de um treinador pode mudar rapidamente quando os resultados começam a aparecer em um ambiente diferente. Em poucos meses, o português passou de um dos técnicos mais criticados da Premier League a um comandante invicto nas primeiras rodadas da Serie A. A transformação é significativa, mas não deve ser confundida com uma comprovação definitiva de que todos os problemas anteriores foram superados.
O aspecto mais promissor é a mudança de comportamento. Amorim parece ter compreendido que a insistência em um sistema, sem considerar suficientemente as características dos jogadores, pode limitar o potencial de uma equipe. Ao demonstrar maior flexibilidade e ouvir mais o elenco, ele passou a criar condições para que o Milan encontre diferentes soluções sem abandonar completamente sua identidade.
Essa evolução também mostra que o fracasso em Manchester não precisa definir toda a carreira do português. A passagem pelo United foi marcada por resultados ruins e desgaste interno, mas pode se transformar em uma etapa de aprendizado se Amorim conseguir aplicar as lições em trabalhos futuros. O desafio será manter a capacidade de adaptação mesmo quando surgirem dificuldades, evitando retornar a uma postura rígida diante da pressão.
Ainda há motivos para cautela. Sete partidas representam uma amostra pequena, e a invencibilidade não garante que o Milan manterá o mesmo ritmo ao longo de toda a temporada. A equipe precisa provar que consegue competir com os principais rivais, controlar melhor os momentos finais e sustentar a evolução tática sem depender de resultados pontuais.
Por enquanto, Amorim conseguiu algo importante: mudou a narrativa em torno de seu trabalho e mostrou que pode responder às críticas com uma abordagem diferente. O Milan apresenta sinais de evolução, e os resultados iniciais dão sustentação à ideia de que o treinador aprendeu com os erros cometidos na Inglaterra. Mas a reputação foi reconstruída mais rapidamente do que as provas definitivas de sucesso.
Se o português conseguir manter a invencibilidade diante de Inter, Lazio e Roma, além de transformar o bom início em uma disputa consistente pelo título, a passagem pelo Manchester United poderá ser lembrada como uma etapa difícil que contribuiu para sua evolução. Até lá, o Milan oferece sinais promissores, mas a confirmação da virada de carreira dependerá da capacidade de sustentar o desempenho quando os desafios forem maiores.
(Foto: Getty Images)



