Copa do Mundo - Lionel Messi pela Argentina
Futebol Copa do Mundo

Copa do Mundo vive a era dos pênaltis

As penalidades deixaram de ser o último recurso para evitar o desempate e assumiu o papel de protagonista da Copa do Mundo. Atualmente, no futebol marcado pelo extremo equilíbrio tático e pela preparação física impecável das seleções, o gol em jogada trabalhada virou um artigo de luxo nas fases decisivas. A consequência direta desse cenário fez com que as disputas de pênaltis deixassem de ser somente uma possibilidade ocasional para definir o destino de campeões e ditar o ritmo psicológico da maior competição de futebol do planeta.

Os pênaltis só foram introduzidos oficialmente no regulamento da FIFA em 1978. Porém, as penalidades máximas só foram testadas pela primeira vez na semifinal da Copa do Mundo de 1982, entre Alemanha Ocidental e França. Desde então, a importância desse momento cresceu cada vez mais. O que antes era visto como sorte ou uma injustiça do esporte se transformou em uma ciência exata durante a preparação, na qual a análise de dados, o treinamento técnico exaustivo e a gestão do estresse mental se juntam para definir o sucesso ou o fracasso de um país na Copa do Mundo.

Aumento das disputas no torneio

Os números das edições recentes da Copa do Mundo mostram que evitar os pênaltis nos confrontos eliminatórios é uma tarefa cada vez mais difícil. O ápice desse fenômeno de penalidades ocorreu na Copa do Mundo de 2022, no Catar, que estabeleceu o recorde de cinco disputas de pênaltis em uma única edição. Para se ter uma ideia do tamanho dessa estatística, quase um terço das partidas de mata-mata, ou seja, cinco dos 16 jogos, precisou ser resolvido nas cobranças alternadas.

Historicamente, quando um jogo avança para a prorrogação, a probabilidade de a decisão ir para os pênaltis é de 63%. No entanto, na Copa do Mundo do Catar, esse índice atingiu a marca de 100%, fazendo com que todos os jogos que terminaram empatados durante os 90 minutos mantivessem a igualdade na prorrogação e fossem decididos nas penalidades.

Porém, o dado que mais chama a atenção dos analistas de desempenho não é a frequência, mas, sim, a queda na eficiência dos batedores. Enquanto os pênaltis cobrados com a bola rolando mantêm uma taxa média de conversão de 79%, o que é considerado estável, esse aproveitamento tem uma queda para 69% quando a disputa vai para as penalidades decisivas.

Esse declínio de 10% é o reflexo do peso institucional da Copa do Mundo. À medida que as cobranças avançam e a alternância de chutes aumenta, o cansaço físico prejudica a precisão técnica, e o contexto psicológico dita o comportamento do atleta na hora da corrida para a bola.

O retrospecto na Copa do Mundo

A relação das grandes seleções do futebol com a marca do pênalti ajudou a consolidar identidades e mitos no esporte. Existem países que desenvolveram uma proteção mental impenetrável para esse tipo de cenário. Alemanha e Croácia, por exemplo, possuem uma eficiência perfeita na história do torneio, acumulando quatro vitórias em quatro disputas realizadas. A Argentina, por sua vez, é a seleção que melhor aprendeu a navegar no caos das penalidades, visto que os atuais campeões da Copa do Mundo são os recordistas em participações, com sete presenças, e saíram vitoriosos em seis oportunidades, utilizando o foco psicológico a seu favor.

Na contramão desses exemplos, o fantasma dos pênaltis costuma assombrar camisas pesadas. A Espanha possui o pior retrospecto entre as principais seleções, convertendo apenas uma vitória em cinco disputas de pênaltis em Copas do Mundo.

A Inglaterra também carrega um histórico ruim na competição, registrando uma taxa positiva de apenas 58% entre as seleções que costumam estar na Copa do Mundo, enquanto o México também possui um histórico ruim, demonstrando uma fragilidade psicológica na hora das cobranças.

Heróis e vilões das penalidades máximas

A prova de que o pênalti se coroou como o rei da Copa do Mundo está no fato de que três das finais mais dramáticas da história foram decididas dessa maneira. Em 1994, nos Estados Unidos, o Brasil conquistou o tetracampeonato após Roberto Baggio isolar a última cobrança. Em 2006, na Alemanha, a Itália superou o trauma de edições anteriores ao vencer a França. Mais recentemente, em 2022, a Argentina garantiu o tricampeonato diante da mesma França. Ao todo, sete jogadores tiveram a infelicidade de errar cobranças em finais, ficando marcados no lado doloroso da história.

Por outro lado, o futebol consagrou jogadores capazes de reescrever o destino de suas seleções. Craques como Lionel Messi e Luka Modrić ostentam um aproveitamento perfeito em disputas de pênaltis, convertendo três cobranças em três tentativas. No entanto, a verdadeira barreira psicológica está presente nos goleiros.

Nomes como o português Ricardo, o croata Subašić e seu sucessor Livaković entraram para a história ao realizarem atuações memoráveis com defesas consecutivas. Esses goleiros provaram que dominar a marca do pênalti não é meramente sorte, mas, sim, fruto de muito estudo e estratégia para qualquer equipe que pretenda erguer a taça da Copa do Mundo.

Créditos da foto de capa: Etsuo Hara/Getty Images