Se alguém dissesse há alguns meses que o Tottenham estaria brigando contra o rebaixamento na Premier League, muita gente provavelmente daria risada, ainda mais depois de ter contratado bons nomes para essa temporada. Afinal, estamos falando de um clube que levantou a UEFA Europa League na última campanha e que, não muito tempo atrás, disputava uma final de UEFA Champions League.
Mas a realidade atual em Londres é bem menos glamourosa, dá para considerar até que estão em meio a um pesadelo complicadíssimo.
Depois da derrota para o Crystal Palace, em pleno Tottenham Hotspur Stadium, milhares de torcedores decidiram ir embora antes mesmo do apito final. Um gesto que diz muito sobre o clima que domina o clube hoje: frustração, caos e uma boa dose de incredulidade.
Com o revés, o Tottenham ficou a apenas um ponto da zona de rebaixamento, situação que parecia impossível para um elenco que, no papel, ainda possui nomes relevantes.
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E aí surge a pergunta que ecoa entre torcedores e analistas: quem é o responsável por essa crise?
A resposta, como quase sempre no futebol, não é simples.
A herança de Daniel Levy
Durante anos, o principal alvo das críticas no Tottenham foi Daniel Levy.
O dirigente comandou o clube por quase 25 anos e ajudou a transformar a estrutura da instituição, incluindo a construção de um dos estádios mais modernos da Europa. Fora de campo, o Tottenham cresceu como marca e como negócio.
O problema foi dentro das quatro linhas.
Durante toda a gestão Levy, os Spurs conquistaram apenas dois troféus importantes: a EFL Cup de 2008 e a Europa League na última temporada. Para um clube que constantemente sonhou em se estabelecer entre os gigantes da Premier League, o saldo ficou aquém das expectativas.
Mesmo com investimentos altos, quase £979 milhões em contratações desde 2019, com gasto líquido de £653 milhões, o Tottenham nunca conseguiu dar o salto definitivo.
Parte da crítica gira em torno da política financeira mais conservadora do clube. O Tottenham costuma ter uma folha salarial inferior à dos rivais do chamado “Big Six”, o que dificulta competir por grandes estrelas.
Ou seja: estrutura de elite, ambição de elite… mas um orçamento que muitas vezes não acompanha esse sonho.
A saída de Pochettino: o início da queda?
Para muitos torcedores, o verdadeiro ponto de virada aconteceu em 2019.
Naquele ano, o técnico Mauricio Pochettino levou o Tottenham à final da Champions League contra o Liverpool FC. Mesmo com a derrota, o clube parecia pronto para dar um novo salto.
Só que aconteceu o oposto.
Pochettino queria reformular o elenco para manter o time competitivo no topo do futebol europeu. O investimento esperado nunca veio.
Poucos meses depois da final europeia, o argentino foi demitido.
A decisão é vista por muitos como o momento em que o Tottenham perdeu o rumo.
A dança das cadeiras no banco
Desde a saída de Pochettino, o Tottenham parece ter entrado em um looping de decisões desesperadas no comando técnico.
Nomes de peso passaram pelo clube, como:
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José Mourinho
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Antonio Conte
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Ange Postecoglou
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Thomas Frank
Nenhum conseguiu estabilizar o projeto esportivo.
Mourinho chegou a colocar o time na liderança da Premier League por um breve momento, mas acabou demitido uma semana antes de uma final de copa. Conte classificou o clube para a Champions League, mas saiu após uma coletiva explosiva criticando toda a estrutura do Tottenham.
No total, o clube acumulou 12 técnicos demitidos nesse período.
Isso não é instabilidade. É praticamente um reality show de treinadores.
Igor Tudor: solução ou aposta desesperada?
Depois da demissão de Thomas Frank, o Tottenham decidiu apostar em Igor Tudor como treinador interino.
A ideia era trazer um “técnico de impacto”, capaz de dar uma resposta rápida.
Até agora, o impacto foi… negativo.
Tudor perdeu três jogos seguidos, e o Tottenham segue mergulhado na crise. A sensação é que o clube tomou uma decisão no desespero, tentando apagar um incêndio com gasolina.
Especialistas já questionam se o croata conseguirá terminar a temporada no cargo.
Lesões, saídas e erros de mercado
Como se os problemas administrativos não bastassem, o elenco também sofreu golpes importantes.
O Tottenham passou boa parte da temporada sem dois dos seus principais criadores:
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Dejan Kulusevski
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James Maddison
Ambos sofreram lesões graves e ficaram fora durante meses.
Além disso, o clube perdeu dois ídolos recentes:
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Harry Kane, vendido ao Bayern Munich
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Heung‑min Son, que se transferiu para o Los Angeles FC
Somando os dois, são mais de 450 gols que deixaram o Tottenham nos últimos anos.
É como desmontar o motor de um carro e esperar que ele continue correndo na Fórmula 1.
A pressão sobre a nova diretoria
Agora o comando do clube está nas mãos de uma nova estrutura administrativa liderada por Vinai Venkatesham.
O executivo construiu boa reputação no Arsenal, especialmente por manter confiança em Mikel Arteta durante momentos difíceis.
A ideia era repetir essa paciência no Tottenham.
Mas a situação se deteriorou tão rapidamente que Frank acabou demitido mesmo assim.
Um clube perdido e um futuro incerto
No meio de toda essa turbulência, um jovem acabou virando símbolo da esperança do Tottenham: Archie Gray.
Com apenas 19 anos, ele tem sido usado em várias posições para tentar tapar buracos no elenco.
Mas confiar o futuro de um clube inteiro a um adolescente raramente é uma estratégia saudável.
O Tottenham vive hoje um momento que mistura decisões erradas, má gestão esportiva, lesões e mudanças constantes.
O resultado está claro: um gigante inglês olhando para baixo na tabela e tentando evitar um desastre histórico.
Se há um culpado único? Provavelmente não.
Mas se o Tottenham quiser voltar a ser competitivo, uma coisa parece inevitável: uma reconstrução profunda, dentro e fora de campo.
E, se os torcedores puderem escolher, talvez essa reconstrução comece com um velho conhecido no banco: Mauricio Pochettino.
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