Cristiano Ronaldo
Futebol Copa do Mundo

Cristiano Ronaldo ganha um respiro na Copa: privilégio ou decisão justa?

A decisão chamou atenção, mas não exatamente chocou ninguém. Cristiano Ronaldo, mesmo expulso contra a Irlanda, está liberado para jogar os primeiros jogos de Portugal na Copa do Mundo. Isso só foi possível porque a Fifa resolveu suspender por um ano as duas últimas partidas da punição que ele deveria cumprir.

Pelo código disciplinar da Fifa, um lance de conduta violenta como o de Ronaldo — a cotovelada em Dara O’Shea — deveria render três jogos de suspensão. Ele cumpriu só um, no duelo final das Eliminatórias contra a Armênia. Os outros dois ficam “congelados”: só entram em ação se ele repetir uma infração parecida dentro do período de prova.

Com isso, Ronaldo está livre para disputar a Copa ao lado de Messi nos Estados Unidos, México e Canadá. Mas aí fica a pergunta que muitos já levantaram: isso é um caso de tratamento especial para garantir o astro no torneio? Ou é uma medida respaldada pelas regras e até comum nos bastidores da Fifa?

Fifa pode mesmo suspender a punição?

Pode, sim. O próprio regulamento abre essa brecha. O artigo 27 permite que a Fifa “suspenda total ou parcialmente” qualquer medida disciplinar por um período de prova de até quatro anos. Já o artigo 25 deixa claro que o órgão pode até cancelar completamente a punição caso considere adequado.

Ou seja, o caminho usado para aliviar a barra de Ronaldo está previsto no manual. A questão é entender se a Fifa age assim sempre — ou só quando o jogador envolvido é uma superestrela do tamanho dele.

Outros casos parecidos já aconteceram

Embora a situação de Ronaldo seja única no formato — um banimento de três jogos mantido, mas com duas partidas suspensas — esse tipo de suavização já aconteceu várias vezes, até com jogadores longe dos holofotes.

Em 2014, por exemplo, Laurent Koscielny foi expulso por dar um tapa em Oleksandr Kucher, da Ucrânia. Pela regra, ele poderia pegar mais jogos, mas acabou cumprindo só um e foi liberado para disputar a Copa naquela mesma temporada.

Outro caso: Mario Mandzukic, da Croácia, que deveria perder os dois primeiros jogos da Copa de 2014 por uma expulsão nas Eliminatórias. A Fifa deu só um de suspensão — e ele não apenas jogou o segundo jogo como marcou dois gols contra Camarões.

Tem também Phillip Cocu, punido com dois jogos em 2006. Ele ficou fora dos duelos finais da Eliminatória, mas estreou normalmente na Copa. Situação semelhante aconteceu com Makoto Hasebe em 2010 e Saeid Ezatolahi em 2018.

E até casos decididos em apelação entraram nessa lista. O México conseguiu reduzir a suspensão de Jesus Arellano em 2002, deixando o jogador fora apenas do primeiro jogo.

Ou seja: Ronaldo está longe de ser o único beneficiado por flexibilizações disciplinares em ano de Copa.

Estrelas também já receberam “alívio”

Mesmo atletas de grande impacto já tiveram suspensões revistas em torneios importantes. Lauren James, da seleção inglesa, foi expulsa na Copa de 2023 e temia receber três jogos de gancho. A Fifa reduziu para dois, e ela pôde atuar na reta final.

Outro exemplo: Wayne Rooney. Em 2012, ele tinha um gancho de três partidas nas Eliminatórias da Euro após chutar um adversário. A punição caiu para dois jogos, permitindo que ele disputasse o último confronto da fase de grupos — no qual, aliás, marcou o gol que classificou a Inglaterra.

Essas decisões mostram que a Fifa, em várias ocasiões, usa o bom senso (ou a conveniência) para reavaliar punições antes de grandes competições.

Mas nem todo mundo tem a mesma sorte

Claro que existem exceções. Alguns jogadores realmente pagaram caro pela expulsão no último compromisso antes da Copa.

Mike Hanke, da Alemanha, talvez seja o caso mais emblemático. Ele foi expulso na Copa das Confederações de 2005 e pegou dois jogos. A  Alemanha, como país-sede da Copa de 2006, não tinha mais partidas oficiais até o Mundial — então a punição foi carregada integralmente para o torneio. Ele ficou fora dos dois primeiros jogos e só atuou por 19 minutos no terceiro.

Casos mais recentes também mostram o outro lado. Moisés Caicedo (Equador) e Nicolás Otamendi (Argentina) vão perder o jogo de estreia na próxima Copa por expulsões nas Eliminatórias. Fredy Guarín, em 2014, e Nemanja Vidić, em 2006, passaram pelo mesmo.

E alguns jogadores nem chegaram a ser convocados por causa disso. Miranda (Brasil) e Cristian Rodríguez (Uruguai) ficaram fora das listas de 2010 porque estavam suspensos.

Então ronaldo foi favorecido?

A resposta mais honesta é: depende de como se olha.

Se o critério for o regulamento, a decisão da Fifa está totalmente dentro das regras. Se o critério for o histórico, há inúmeros casos semelhantes — inclusive com jogadores que não tinham nem metade do peso midiático de Ronaldo.

Por outro lado, é impossível ignorar que a Fifa adora ter seus maiores nomes na Copa e que, para o público geral, a flexibilização inevitavelmente soa como um empurrãozinho para garantir que CR7 esteja presente.

De qualquer forma, Ronaldo está liberado, Portugal respira aliviado e a Copa ganha mais um ingrediente de narrativa. Agora, resta ver se o camisa 7 vai aproveitar esse “perdão” para transformar mais uma Copa em palco de protagonismo — ou se a decisão vai seguir gerando debate até o início do torneio.