Existe algo particularmente difícil de aceitar quando se acompanha Cristiano Ronaldo aos 41 anos: o jogador que durante quase duas décadas parecia desafiar todas as limitações físicas finalmente começou a encontrar aquilo que nenhum treinamento, dieta ou obsessão por longevidade consegue derrotar: o tempo.
A saída de Cristiano Ronaldo da concentração de Portugal, depois de Jorge Jesus decidir deixá-lo no banco e informar que ele também não seria titular contra a Dinamarca, transformou uma questão esportiva em uma crise. O atacante deixou a seleção antes da partida, enquanto Portugal seguiu sua preparação normalmente e posteriormente venceu a Dinamarca por 4 a 2 sem o capitão. Dias depois, a equipe também derrotou a Noruega por 2 a 1 e garantiu antecipadamente a classificação para as quartas de final da Nations League.
O episódio é difícil de defender do ponto de vista comportamental. Ronaldo continua sendo um jogador extremamente competitivo, mas sua dificuldade em aceitar a perda de protagonismo começa a produzir situações que seriam improváveis durante o auge de sua carreira. Ainda assim, seria um erro transformar os acontecimentos atuais em uma tentativa de reescrever toda a história do português.
Porque Cristiano Ronaldo não construiu apenas uma carreira extraordinária. Ele ajudou a redefinir o que significava ser um astro do futebol no século XXI.
O declínio atual não pode apagar duas décadas de excelência
A comparação com Lionel Messi será inevitável até o último dia da carreira dos dois. É impossível contar a história do futebol das últimas duas décadas sem colocá-los lado a lado, mas talvez essa seja também uma das maiores injustiças com Ronaldo.
Messi provavelmente é o jogador mais completo que o futebol moderno produziu. Sua capacidade de driblar, criar, finalizar, encontrar espaços e controlar partidas parece pertencer a uma categoria própria. Mas justamente por ter dividido sua geração com Messi, Ronaldo acabou enfrentando um adversário que o obrigou a atingir níveis que talvez jamais tivesse alcançado sozinho.
Durante anos, não bastava ser extraordinário. Era necessário ser melhor do que o outro, e Ronaldo respondeu transformando a própria carreira em uma disputa permanente. Se Messi marcava, ele precisava marcar mais. Se o argentino conquistava um título, Ronaldo precisava responder. Se um deles estabelecia um novo recorde, o outro aparecia logo atrás.
Essa competição elevou os dois e produziu uma das maiores rivalidades individuais da história do esporte. Existe, inclusive, uma questão importante nessa história que muitas vezes se perde quando a discussão é reduzida a quem foi melhor. Sem Ronaldo, é possível imaginar Messi acumulando ainda mais prêmios individuais, assim como Ronaldo provavelmente teria recebido mais reconhecimento sem a presença do argentino.
A existência dos dois no mesmo período criou um nível de exigência que não encontra paralelo no futebol moderno. Ronaldo não apenas acompanhou Messi; ele também obrigou o argentino a continuar evoluindo e a explorar cada vez mais o potencial de seu próprio jogo.
O jogador que parecia não envelhecer finalmente encontrou um limite
Durante muito tempo, a principal característica física de Cristiano Ronaldo não foi apenas sua capacidade atlética, mas a maneira como parecia desafiar a passagem dos anos.
O Ronaldo do Manchester United era explosão, velocidade e improviso. O Ronaldo do Real Madrid se transformou em uma máquina de finalização. O jogador que chegou à Espanha como ponta passou a atacar a área como centroavante, desenvolvendo um repertório de movimentos e finalizações que permitiu prolongar seu auge muito além do esperado.
Essa transformação é parte fundamental de sua grandeza. Não estamos falando apenas de um jogador que foi excepcional por alguns anos, mas de alguém que encontrou diferentes versões de si mesmo e conseguiu continuar sendo decisivo enquanto envelhecia.
É justamente por isso que o momento atual causa tanto estranhamento. Aos 41 anos, Ronaldo já não consegue fazer algumas das coisas que definiram sua carreira. A aceleração diminuiu, a capacidade de pressionar durante longos períodos é outra e a mobilidade não é a mesma. O futebol de alto nível, por sua vez, não permite que um atacante viva apenas da reputação.
Ronaldo ainda pode marcar gols, continua possuindo posicionamento, técnica de finalização e experiência e permanece como o maior artilheiro da história das seleções, com 146 gols por Portugal.
Existe, porém, uma diferença entre ainda ser capaz de decidir partidas e continuar sendo capaz de controlar uma equipe. É essa diferença que Portugal começou a enfrentar.
Jorge Jesus tomou uma decisão que Portugal precisava tomar
O aspecto mais interessante da atual crise talvez nem seja a reação de Ronaldo, mas a decisão de Jorge Jesus. Pela primeira vez em muito tempo, Portugal parece estar sendo obrigado a tratar Cristiano Ronaldo como qualquer outro jogador.
Isso não significa ignorar sua história. Significa reconhecer que história e presente são coisas diferentes. Jesus deixou Ronaldo no banco contra a Noruega, não o utilizou e explicou que havia planejado colocá-lo durante a partida, mas decidiu manter Gonçalo Ramos em campo porque o jogo não pedia a entrada do capitão. Depois, informou que Ronaldo também não seria titular contra a Dinamarca. O atacante deixou a concentração portuguesa após a declaração do treinador e uma conversa com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
A reação abriu uma discussão sobre o futuro do atacante na seleção, mas também colocou Jorge Jesus diante de uma questão importante: até que ponto a história de um jogador pode interferir nas decisões de uma equipe que precisa pensar no presente e no futuro?
A resposta do treinador foi clara ao afirmar que as regras precisam valer para todos. E os resultados seguintes deram força à decisão. Portugal venceu a Dinamarca por 4 a 2 sem Ronaldo e depois derrotou a Noruega por 2 a 1, garantindo a classificação para as quartas de final da Nations League. Portugal descobriu que consegue vencer sem Cristiano Ronaldo.
Isso não significa que Portugal seja melhor sem ele, não significa que Ronaldo não possa continuar sendo útil e muito menos significa que seu legado esteja diminuído. Significa apenas que a seleção finalmente chegou ao ponto em que pode tomar decisões pensando no futuro, e não apenas na história.
O maior adversário de Ronaldo agora não é Messi, é o tempo
Durante quase toda a carreira, Cristiano Ronaldo teve adversários concretos. Messi, defensores, goleiros, clubes, seleções e recordes representavam obstáculos que podiam ser superados. O objetivo de marcar mais, conquistar mais e provar mais sempre esteve associado a alguém ou alguma coisa que poderia ser vencida.
Agora, existe um adversário que não pode ser derrotado: o tempo. Ronaldo construiu uma parte enorme de sua identidade em torno da ideia de que sempre poderia fazer mais. Mais gols, mais títulos, mais recordes e mais temporadas no topo foram objetivos coerentes com uma personalidade competitiva que o transformou em um dos maiores jogadores da história.
É compreensível, portanto, que seja difícil aceitar que existe um momento em que a busca deixa de ser sobre conquistar algo e passa a ser sobre saber quando parar.
Ele ainda possui objetivos individuais. Quer chegar aos mil gols na carreira e continuar ampliando seus números pela seleção. Esses objetivos são coerentes com a personalidade que o acompanhou durante toda a carreira, mas existe uma diferença entre perseguir um recorde e tentar convencer o futebol de que você ainda é quem era aos 25 anos.
O problema de Ronaldo atualmente não é querer continuar jogando. É parecer incapaz de aceitar que continuar jogando não significa necessariamente continuar sendo o protagonista absoluto.
A fase final não precisa ser bonita para ser histórica
Grandes jogadores nem sempre conseguem escolher como serão seus últimos capítulos. Alguns encerram a carreira levantando troféus, outros desaparecem gradualmente, enquanto alguns são obrigados a aceitar o banco ou perceber que o corpo já não responde como antes.
Ronaldo parece estar enfrentando justamente essa última batalha, e ela é particularmente dura porque sua carreira foi construída sobre a recusa em aceitar limitações.
Ele não chegou ao topo apenas por possuir talento. Seu diferencial foi transformar a própria evolução em uma obsessão. Mudou seu corpo, sua alimentação, seu treinamento, seu posicionamento e até sua maneira de jogar para permanecer competitivo.
É quase irônico que justamente esse jogador esteja agora diante de uma barreira que não pode ser treinada para desaparecer.
A reação de Ronaldo pode ser criticada e deve ser criticada quando prejudica a seleção ou coloca sua importância individual acima do coletivo. Mas transformar esses episódios em uma tentativa de reescrever sua carreira seria um erro.
O Ronaldo de hoje não pode ser usado para julgar o Ronaldo de 2008, 2013, 2017 ou 2018. São jogadores diferentes, separados não apenas pelos anos, mas pelas próprias transformações que o português foi capaz de realizar.



