Cade Cunningham Detroit Pistons
Basquete NBA

Cade Cunningham carrega os Pistons sozinho e mostra que é o MVP dos playoffs até agora

Enquanto a NBA debate quem merece o prêmio de MVP da temporada, os playoffs vêm construindo uma narrativa paralela que talvez diga mais sobre valor real dentro de quadra do que qualquer votação oficial. E nela, poucos jogadores simbolizam tanto a palavra “indispensável” quanto Cade Cunningham.

O armador do Detroit Pistons não estará entre os finalistas ao prêmio de jogador mais valioso da liga, mesmo tendo recebido autorização especial da NBA para concorrer às premiações individuais após ficar abaixo da regra mínima de 65 partidas por conta de um colapso pulmonar que o tirou de 12 jogos no fim da temporada regular. Ainda assim, os nomes anunciados para a disputa final, Nikola Jokic, Shai Gilgeous-Alexander e Victor Wembanyama, não diminuem aquilo que Cunningham vem produzindo nos playoffs: uma campanha individual que escancara o peso absurdo que ele carrega nas costas para manter Detroit vivo.

E talvez seja justamente isso que torne sua pós-temporada tão impressionante.

Um ataque inteiro concentrado em um único jogador

Existe uma diferença enorme entre ser o principal jogador de um time e ser praticamente o sistema ofensivo inteiro. Cunningham entrou nesta pós-temporada ocupando a segunda categoria. O ataque dos Pistons não gira ao seu redor apenas por preferência tática. Ele depende dele para existir.

Sua taxa de uso de 32,5% lidera todos os jogadores dos playoffs com mais de 20 minutos por jogo, um número que ajuda a explicar a dimensão da responsabilidade ofensiva que ele assumiu. Até aqui, Cunningham participou diretamente de quase metade dos pontos de Detroit, seja pontuando ou distribuindo assistências. Em outras palavras: quando os Pistons atacam, quase tudo passa por suas mãos.

Na primeira rodada, Detroit enfrentou o Orlando Magic, dono de uma das defesas mais físicas e sufocantes da Conferência Leste. Cunningham foi constantemente marcado por múltiplos defensores altos, fortes e agressivos, recebendo traps, dobras e pressão desde o perímetro. Mesmo assim, quando os Pistons ficaram em situação desesperadora na série, perdendo por 3 a 1, o armador respondeu com uma sequência histórica.

Nos três jogos eliminatórios seguintes, Cunningham marcou 109 pontos, igualando marcas que pertenciam apenas a LeBron James nas Finais de 2016 e Jamal Murray nos playoffs de 2020. No Jogo 5, anotou 45 pontos com eficiência brutal. No Jogo 6, comandou uma reação praticamente sozinho após Detroit ficar 24 pontos atrás. No decisivo Jogo 7, produziu 32 pontos, 12 assistências e quatro bolas de três, tornando-se o primeiro jogador da história a registrar ao menos 30 pontos, 10 assistências, dois tocos e duas bolas de três em um Game 7.

Cunningham sente o peso de jogar sem ajuda

A grande diferença entre Cunningham e outros astros da NBA talvez esteja justamente no contexto ao redor dele. Enquanto candidatos ao MVP atuam cercados por elencos grandes e sistemas ofensivos sólidos, o armador dos Pistons joga constantemente no limite porque Detroit simplesmente não consegue sobreviver ofensivamente sem sua presença.

Os números deixam isso quase constrangedor. Com Cunningham em quadra, os Pistons possuem saldo positivo de 53 pontos nos playoffs. Sem ele, o time despenca para um rating ofensivo de apenas 96,7, um índice catastrófico para padrões atuais da NBA. Para efeito de comparação, até equipes lideradas por superestrelas como Oklahoma City Thunder, Cleveland Cavaliers e New York Knicks conseguem manter ataques relativamente funcionais quando seus principais jogadores descansam. Em palavras curtas, quando Cunningham sai, o ataque desaparece.

Isso ajuda a explicar por que atuações individuais monstruosas nem sempre têm sido suficientes para garantir vitórias. No Jogo 5 contra o Cleveland Cavaliers, por exemplo, ele terminou com 39 pontos, oito assistências, sete rebotes e seis bolas de três convertidas. Ainda assim, os Pistons perderam. Seu segundo maior pontuador foi Daniss Jenkins, jogador que sequer tinha contrato integral na NBA até fevereiro.

A reta final daquela partida resumiu perfeitamente o problema estrutural do elenco. Cleveland simplesmente decidiu que Cunningham não venceria sozinho. A defesa passou a dobrá-lo constantemente, enviando dois ou até três marcadores para forçar outros atletas a resolverem o jogo. O resultado foi uma coleção de erros, arremessos desperdiçados e posses ofensivas desperdiçadas por Detroit.

Não porque Cunningham tomou decisões erradas, mas porque o elenco não conseguiu converter as vantagens criadas por ele.

Mais valioso não significa necessariamente melhor

Existe uma diferença importante entre ser o melhor jogador da liga e ser o mais valioso para um contexto específico. Talvez Cunningham ainda não esteja no patamar técnico absoluto de Jokic, Gilgeous-Alexander ou Wembanyama. Mas poucos atletas na NBA parecem tão fundamentais para a sobrevivência competitiva de seus times quanto ele.

Outros candidatos possuem estrelas ao redor. Jokic joga com um sistema consolidado. Shai atua em um elenco profundo e extremamente organizado. Jalen Brunson conta com nomes como Karl-Anthony Towns e OG Anunoby. Anthony Edwards ainda possui uma estrutura ofensiva mais funcional do que a encontrada em Detroit. Cunningham, não.

Ele joga sem margem para erro. Joga sabendo que qualquer queda mínima de produção pode significar uma derrota imediata. Joga entendendo que o sistema inteiro depende de sua capacidade de criar arremessos difíceis, sobreviver à pressão defensiva e ainda elevar companheiros inconsistentes. E talvez seja exatamente isso que transforme esta pós-temporada em sua verdadeira apresentação ao topo da NBA.

Mesmo sem o troféu oficial de MVP, Cunningham parece estar conquistando algo igualmente importante: o reconhecimento de que Detroit finalmente encontrou um jogador capaz de mudar o destino de uma franquia inteira sozinho.

(Foto: Gregory Shamus via Getty Images)