Dana White voltou a colocar seu nome no centro de uma discussão importante sobre as regras do MMA. O CEO do UFC revelou que apoia a proposta de Andy Foster, chefe da Comissão Atlética do Estado da Califórnia, para proibir os chamados chutes oblíquos direcionados ao joelho. A técnica, que ficou especialmente famosa graças a Jon Jones, é utilizada há anos por diferentes lutadores e voltou a ser questionada depois de novos episódios envolvendo possíveis lesões.
A declaração de Dana White aconteceu durante a coletiva de imprensa após a sétima semana do Dana White’s Contender Series. Questionado sobre a possibilidade de mudança nas regras, o dirigente não demonstrou resistência à ideia apresentada por Foster e afirmou que o UFC não discorda da proposta.
O detalhe mais importante é que Dana White pode ser uma das figuras mais poderosas do MMA mundial, mas não tem autoridade para simplesmente decidir que determinado golpe deixou de ser permitido. As regras unificadas do esporte são elaboradas e adotadas por órgãos e comissões atléticas, o que significa que a discussão ainda terá um longo caminho antes de qualquer mudança definitiva.
Dana White entra em discussão sobre golpe de Jon Jones
Quando se fala em chute oblíquo, é praticamente impossível não lembrar de Jon Jones. O ex-campeão dos meio-pesados e dos pesos-pesados não inventou a técnica, mas ajudou a transformá-la em uma das armas mais conhecidas do MMA moderno.
Jones utilizava o golpe principalmente para controlar a distância e dificultar a aproximação dos adversários. Em vez de simplesmente tentar acertar a coxa ou a cabeça, ele estendia a perna em direção ao joelho do oponente, criando uma barreira física que obrigava o rival a pensar duas vezes antes de avançar.
A estratégia combinava perfeitamente com o estilo de Jones. Com grande envergadura, experiência no wrestling e uma capacidade incomum de misturar golpes de diferentes ângulos, o lutador conseguia usar o chute para interromper o movimento dos adversários e preparar outras ações.
Foi assim que uma técnica relativamente pouco popular entre o grande público acabou ficando praticamente associada ao nome do ex-campeão.
Dana White, inclusive, considera Jones o maior lutador da história do UFC. Agora, porém, o dirigente apoia uma mudança que poderia retirar uma das armas mais características que o antigo campeão ajudou a popularizar.
Por que Dana White concorda com a mudança?
A posição de Dana White está relacionada principalmente à preocupação com o potencial de lesão provocado pelo golpe.
Andy Foster levantou a possibilidade de tornar os chutes laterais no joelho uma falta durante uma reunião da comissão após o UFC 331. O dirigente também sugeriu discussões com profissionais da área médica para avaliar os riscos envolvidos e possíveis alterações na regulamentação.
Dana White foi direto ao comentar a proposta. Segundo ele, Foster é uma das figuras mais influentes entre as comissões atléticas e o UFC não vê problema na possibilidade de alteração das regras.
Isso não significa que o UFC tenha decidido banir a técnica. A fala de Dana White representa apoio à discussão, e não uma mudança imediata.
Mas o posicionamento do principal executivo da maior organização de MMA do mundo obviamente aumenta o peso da proposta.
Golpe realmente pode causar lesões graves?
Esse é justamente o ponto que transformou a discussão em algo maior do que uma simples preferência técnica.
Um dos exemplos mais recentes aconteceu no confronto entre Edmen Shahbazyan e Brunno Ferreira, no UFC 331. Ferreira utilizou a técnica durante a luta, e Shahbazyan chegou a reclamar com o árbitro Mike Beltran. O combate continuou normalmente, e Shahbazyan venceu por decisão unânime. Posteriormente, ele recebeu suspensão médica de seis meses por causa de uma fratura no pé, e não por uma lesão no joelho causada pelo golpe.
Outro caso envolvendo um nome importante da divisão aconteceu em 2025, quando Joshua Van utilizou bastante o chute oblíquo contra Brandon Royval. Van venceu a luta por decisão e posteriormente recebeu a oportunidade de disputar o cinturão dos pesos-moscas. Royval revelou depois que havia sofrido uma lesão no ligamento colateral medial do joelho, embora tenha conseguido retornar à competição alguns meses depois.
Talvez o exemplo mais preocupante seja Shavkat Rakhmonov.
Na luta contra Ian Machado Garry, realizada no UFC 310, Garry utilizou chutes oblíquos durante os cinco rounds. Apesar de Rakhmonov ter vencido o combate, o lutador sofreu danos no menisco e no ligamento cruzado anterior. A recuperação acabou deixando o atleta afastado por um longo período, justamente quando ele era considerado um dos principais nomes da divisão dos meio-médios.
E existe ainda um caso que praticamente virou símbolo dessa discussão.
Lesão de Bukauskas reacendeu o debate
Em 2021, Khalil Rountree Jr. enfrentou Modestas Bukauskas e encerrou a luta depois de acertar um chute lateral extremamente forte no joelho do adversário.
Bukauskas sofreu lesões no ligamento cruzado anterior, no ligamento colateral medial e no menisco. O golpe foi tão marcante que reacendeu imediatamente a discussão sobre a possibilidade de proibir esse tipo de técnica.
Curiosamente, o próprio Bukauskas não culpou Rountree pela utilização do golpe. Em entrevista posterior, o lutador defendeu que se tratava de uma técnica legítima dentro das regras do esporte e reconheceu que deveria ter estado mais preparado para lidar com ela.
O episódio de 2021, porém, não levou a uma mudança nas regras. Cinco anos depois, a discussão voltou à mesa, desta vez com Dana White declarando apoio à possibilidade de alteração.
Problema: como fiscalizar o golpe?
Aqui está uma das partes mais complicadas da proposta.
Uma coisa é dizer que um chute diretamente no joelho deve ser ilegal. Outra completamente diferente é fazer com que um árbitro consiga identificar isso em uma fração de segundo durante uma luta.
Os chutes oblíquos acontecem muito rapidamente. Dependendo do ângulo, um golpe pode atingir a coxa, passar próximo ao joelho ou acertar diretamente a articulação. Em uma luta profissional, com dois atletas se movimentando constantemente, a diferença entre uma técnica legal e uma infração pode ser mínima.
Os árbitros já enfrentam dificuldades para identificar imediatamente dedos nos olhos, agarrões na grade e golpes ilegais na parte de trás da cabeça. Acrescentar mais uma situação que exige uma interpretação instantânea pode gerar ainda mais controvérsia.
A proposta de Foster tenta justamente lidar com essa dificuldade. O dirigente sugeriu discutir uma classificação mais específica para as faltas, separando ações incidentais, imprudentes e maliciosas, em vez de simplesmente trabalhar com a divisão entre intencional e não intencional.
Ainda assim, a aplicação prática continuaria sendo um enorme desafio.
Dana White não decide sozinho
Apesar de toda a influência de Dana White, existe uma diferença importante entre apoiar uma mudança e ter poder para implementá-la.
As Regras Unificadas do MMA não são controladas exclusivamente pelo UFC. Elas são elaboradas e adotadas pela Association of Boxing Commissions and Combative Sports, enquanto cada comissão atlética decide se irá incorporá-las à sua regulamentação.
Portanto, a proposta de Foster ainda precisa passar por discussões dentro da ABC, avaliações médicas e pela elaboração de uma regra que seja clara o suficiente para ser aplicada pelos árbitros. Depois disso, as diferentes comissões precisariam adotar a alteração.
Por enquanto, nada mudou oficialmente.
Os chutes oblíquos continuam permitidos nas competições que seguem as regras atuais, e os lutadores podem continuar utilizando a técnica normalmente.
O que muda para o UFC?
Caso a proposta avance, o impacto pode ser significativo.
O chute oblíquo é uma ferramenta importante para alguns atletas controlarem distância, especialmente aqueles que utilizam bastante movimentação, wrestling ou pressão ofensiva. Retirá-lo do repertório obrigaria os lutadores a encontrar outras formas de impedir a aproximação dos adversários.
E isso também mostra como o MMA continua em processo de transformação.
Ao longo dos anos, técnicas consideradas completamente normais passaram a ser discutidas sob uma perspectiva diferente conforme o esporte acumulou mais conhecimento médico e experiência. O que hoje é permitido pode deixar de ser amanhã caso as comissões entendam que os riscos não compensam os benefícios.
Dana White já deixou claro que não seria contra essa mudança. Mas, pelo menos por enquanto, a decisão está longe de estar nas mãos do dirigente.
Enquanto a proposta segue sendo discutida, o famoso chute que ajudou a marcar a carreira de Jon Jones continua fazendo parte do arsenal dos lutadores. E, ironicamente, uma das técnicas mais associadas ao maior nome da história do UFC pode acabar sendo retirada das regras justamente em um momento em que o esporte tenta encontrar um equilíbrio cada vez maior entre espetáculo, estratégia e segurança.
Por enquanto, Dana White apenas deu seu aval à discussão. A decisão definitiva, porém, ainda terá que passar por muito mais gente do que apenas o chefão do UFC.
Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC/Getty Images



