Falar de Davide Ancelotti é, inevitavelmente, falar de um ambiente quase único dentro do futebol mundial. Filho de Carlo Ancelotti, um dos treinadores mais vitoriosos da história, ele cresceu dentro de vestiários, centros de treinamento e rodeado por alguns dos maiores nomes do esporte. Mas, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, sua trajetória não é apenas uma extensão da carreira do pai — é também uma construção própria, baseada em estudo, observação e adaptação.
Desde muito cedo, Davide teve contato direto com figuras lendárias como Gianluigi Buffon, Lilian Thuram e Fabio Cannavaro. Esse ambiente moldou não só seu olhar sobre o jogo, mas também sua compreensão sobre o que significa competir em alto nível. Com o passar dos anos, ele deixou de ser apenas o “filho do treinador” para assumir papéis ativos como auxiliar em clubes gigantes como Real Madrid, Bayern Munich e Everton.
Hoje, já com experiência como ex treinador principal do Botafogo, Davide Ancelotti começa a mostrar com mais clareza quais são suas ideias e como pretende se posicionar no futebol moderno.

Influências múltiplas e identidade própria
Ao contrário de técnicos que seguem uma única escola, Davide Ancelotti construiu seu pensamento a partir de várias referências. Ele cita nomes como Pep Guardiola, Jürgen Klopp, Roberto De Zerbi e Diego Simeone como influências diretas — cada um contribuindo com aspectos diferentes do jogo.
De Guardiola, vem a ideia de controle e superioridade posicional. De Klopp, a intensidade e o uso do pressing como arma ofensiva. De De Zerbi, os detalhes na construção e a busca constante pelo “terceiro homem”. Já Simeone e Unai Emery aparecem como referências na organização defensiva.
Mas o próprio Davide deixa claro que não quer ser uma cópia de ninguém — nem mesmo do pai. Embora compartilhe traços de personalidade com Carlo, ele se vê como um treinador mais flexível, disposto a adaptar suas ideias de acordo com os jogadores e o contexto de cada partida.
Essa capacidade de adaptação é, inclusive, um dos pilares do futebol atual. Não basta ter um sistema fixo — é preciso interpretar o jogo em tempo real.
Um time completo: o ideal de jogo
Quando questionado sobre o “time perfeito”, Davide não aponta uma formação específica, mas sim um conceito: versatilidade total. Para ele, a equipe ideal é aquela capaz de fazer tudo bem — desde a construção desde trás até a pressão alta, passando por diferentes formas de atacar e defender.
Ele usa como exemplo o Paris Saint-Germain recente, que combina posse, transição rápida e organização defensiva. Essa visão mostra uma tendência clara no futebol moderno: equipes que não dependem de um único estilo, mas que conseguem alternar comportamentos conforme a necessidade.
Na parte defensiva, Davide ainda valoriza conceitos mais tradicionais, como o 4-4-2 em bloco médio ou baixo. No entanto, ele ressalta que o sistema é apenas o ponto de partida — o mais importante são os princípios.
A ideia de transformar a linha defensiva em cinco jogadores em determinados momentos, por exemplo, mostra sua preocupação com coberturas e ocupação de espaço, algo essencial contra equipes cada vez mais dinâmicas.
O desafio tático contra equipes dominantes
Um dos pontos mais interessantes da visão de Davide aparece quando ele fala sobre como enfrentar times dominantes, como os de Pep Guardiola.
Ele reconhece que sistemas como o 4-4-2 podem ser vulneráveis a sobrecargas no meio-campo, algo que Guardiola explora frequentemente. A solução, segundo ele, passa por ajustes coletivos — como fechar espaços com os pontas e contar com a participação ativa de meias e atacantes na recomposição.
Esse tipo de leitura reforça uma ideia importante: no futebol atual, defender bem não é apenas tarefa da defesa. Todo o time precisa estar envolvido.
E isso se torna ainda mais complexo quando se tem jogadores de perfil ofensivo extremo, como Kylian Mbappé e Vinícius Júnior. Davide admite que, nesses casos, o treinador precisa encontrar soluções criativas para equilibrar o time sem perder o poder de decisão desses atletas.
Mais do que tática: o lado humano do treinador
Apesar de todo o conhecimento tático, Davide Ancelotti insiste que o fator humano continua sendo o mais importante. Para ele, treinar é, acima de tudo, ensinar — e convencer os jogadores de que podem evoluir.
Essa conexão vai além do campo. Ele revela que gosta de usar livros, filmes e outras referências culturais para se aproximar dos atletas e estimular diferentes formas de pensar. Uma abordagem inspirada, inclusive, no lendário técnico de basquete Phil Jackson.
Esse tipo de gestão é cada vez mais relevante em um futebol onde os jogadores têm grande influência e personalidade. Saber lidar com o grupo pode ser tão decisivo quanto montar um bom esquema tático.
Brasil e a pressão pelo hexa
O próximo grande desafio de Davide será ao lado da seleção brasileira, trabalhando novamente com Carlo Ancelotti. E não é qualquer missão: tentar levar a seleção brasileira ao tão esperado sexto título mundial.
A última conquista veio em 2002, e desde então a pressão só aumentou. Davide reconhece que o Brasil tem características muito específicas — talento ofensivo, velocidade nas transições e uma cultura que valoriza o espetáculo.
O desafio, portanto, é encontrar o equilíbrio entre essa identidade histórica e a necessidade de organização tática. Jogar bonito, mas também competitivo.

Ele deixa claro que não existe fórmula mágica. O caminho passa por adaptar ideias ao elenco disponível e, principalmente, entender o peso da camisa e da expectativa do torcedor brasileiro.
No fim das contas, Davide Ancelotti representa uma nova geração de treinadores: preparados, analíticos, mas também conscientes de que o futebol vai muito além de esquemas e números. E, se depender da sua visão, o futuro promete ser tão interessante quanto sua história até aqui.