A derrota de Reinier De Ridder para Brendan Allen, neste sábado (18), em Vancouver, foi mais do que um tropeço técnico ou físico, representou o reflexo de uma gestão de carreira mal calculada.
O lutador holandês, que vinha de vitórias expressivas sobre nomes como Kevin Holland, Bo Nickal e, principalmente, Robert Whittaker, estava muito próximo de um title shot na categoria dos médios. No entanto, a escolha precipitada de enfrentar Allen, após a saída Anthony Hernandez do card de Vancouver, custou caro.
Agora, a oportunidade de disputar o cinturão, que parecia apenas uma questão de tempo, se distanciou consideravelmente, ainda mais com a forma como De Ridder perdeu para Allen, desistindo da luta.
O maior dos erros de De Ridder não foi dentro do octógono, mas fora dele. Após conquistar uma vitória apertada sobre Whittaker, o momento era de consolidar sua posição como próximo desafiante ao cinturão.
Em vez disso, o holandês aceitou uma luta contra Brendan Allen, que sequer figurava entre os cinco primeiros do ranking, em um card sem grande apelo, contra um adversário que, ainda que perigoso, oferecia pouco retorno em caso de vitória. Uma escolha que só faria sentido em um cenário de absoluto controle técnico e físico, o que claramente não era o caso.
Há relatos de que De Ridder teve dificuldades severas para bater o peso, cortando quase 16 kg em apenas dois dias, o que comprometeu seu desempenho no combate. O resultado foi uma performance abaixo do esperado e uma derrota por interrupção técnica no quarto round, quando seu córner optou por encerrar a luta após ele demonstrar clara exaustão e ineficácia no grappling, justamente sua especialidade.
Com isso, Brendan Allen não apenas venceu: dominou e quebrou o ritmo de um atleta que até então estava em enorme ascensão dentro do UFC, totalmente na conversa de enfrentar Khamzat Chimaev num futuro próximo.

O erro estratégico de Reinier De Ridder
Essa decisão de lutar contra Allen evidencia uma falha recorrente entre atletas que sobem rápido demais: a pressa em se manter ativo em vez de construir estrategicamente o caminho até o cinturão.
De Ridder tinha o momento ao seu lado, o cartel chamativo e a vitória sobre um ex-campeão recente. Bastava esperar o chamado certo, provavelmente contra um oponente no top 3 ou até mesmo uma disputa direta de título, considerando a instabilidade no topo da categoria. Ao invés disso, buscou manter o ritmo e se precipitou.
Com a derrota, Reinier De Ridder sai completamente do radar imediato pelo cinturão. Com isso, o atual campeão, Khamzat Chimaev, deve enfrentar Nassourdine Imavov em sua primeira defesa de título. O francês, inclusive, é o único nome na elite da categoria que parece ter uma rota clara rumo ao title shot neste momento.
A divisão dos médios, portanto, volta a viver um cenário de indefinição. Chimaev, dominante desde que chegou à categoria, parece disposto a encarar Imavov em breve, mas fora isso, não há outros nomes em real posição de disputar o cinturão.
Dricus Du Plessis, Sean Strickland e Israel Adesanya, ex-campeões, não tem um histórico recente que os faça brigar imediatamente por uma luta de cinturão, enquanto isso, Anthony Hernandez, que venceu recentemente o próprio Brendan Allen e Roman Dolidze, precisa vencer um dos antigos donos da coroa da categoria para ganhar sua chance.
Para De Ridder, o caminho de volta será longo. A reconstrução passa por escolher lutas mais inteligentes, com bom ranqueamento, visibilidade e timing adequado. O talento no grappling segue inquestionável, mas sem uma estratégia de carreira sólida, não há físico, nem prestígio, que resista.
O UFC é um ambiente implacável, e oportunidades perdidas, como a que ele desperdiçou ao enfrentar Allen, raramente se apresentam duas vezes. O holandês terá de reencontrar o caminho das vitórias, reestabelecer sua credibilidade e, acima de tudo, aprender com a experiência.
(Imagem de capa: Simon Fearn-Imagn Images)