Poucos treinadores conseguem transformar uma geração inteira de uma seleção nacional. Didier Deschamps fez exatamente isso com a França. Após 14 anos no comando da equipe, o técnico encerrará sua trajetória de forma melancólica, disputando apenas o terceiro lugar da Copa do Mundo de 2026 depois da derrota por 2 a 0 para a Espanha na semifinal. Embora a despedida não seja a que sonhava, dificilmente esse resultado será capaz de diminuir um dos trabalhos mais vitoriosos da história do futebol francês.
A eliminação diante dos espanhóis representou o fim da tentativa de conquistar seu terceiro título mundial, somando as conquistas como jogador, em 1998, e como treinador, em 2018. Ainda assim, Deschamps deixa a seleção com números impressionantes, recordes históricos e o reconhecimento de ex-jogadores, dirigentes e torcedores por ter recolocado a França entre as maiores potências do futebol mundial.
A derrota para a Espanha encerrou um ciclo histórico

A campanha francesa na Copa do Mundo indicava que o sonho de mais um título era possível. Durante praticamente todo o torneio, a equipe apresentou um dos ataques mais eficientes da competição, liderado pelo já campeão do mundo Kylian Mbappé, vencedor da Bola de Ouro Ousmane Dembélé e pelo jovem Michael Olise, um dos grandes destaques do Bayern de Munique.
No entanto, a semifinal contra a Espanha mostrou uma França muito diferente daquela que encantou durante o restante da competição.
A equipe finalizou apenas dez vezes durante toda a partida, seu menor número de chutes nesta Copa do Mundo, além de registrar apenas 0,3 de gols esperados (xG), um índice extremamente baixo para uma seleção que chegava como favorita ao confronto.
Após a eliminação, Patrick Vieira resumiu o sentimento de frustração vivido pelos franceses.
Segundo o ex-meio-campista, a equipe simplesmente não conseguiu repetir o desempenho apresentado ao longo do torneio. Para ele, os principais jogadores desapareceram justamente na partida mais importante da campanha.
Kylian Mbappé também adotou um discurso crítico.
O atacante apontou problemas na organização tática da equipe, especialmente na pressão exercida sobre a saída de bola espanhola. Segundo o camisa 10, faltou comunicação durante a marcação e a França permitiu que a Espanha controlasse completamente o ritmo da partida.
Na visão de Mbappé, quando uma equipe deixa de executar seu plano de jogo em uma semifinal de Copa do Mundo, dificilmente consegue sair vencedora.
Os números explicam por que Deschamps entrou para a história

Apesar da eliminação, a carreira de Didier Deschamps à frente da França dificilmente será lembrada pelo último resultado.
Durante a semifinal, o treinador alcançou um recorde histórico ao completar 26 partidas comandando uma seleção em Copas do Mundo, tornando-se o técnico com mais jogos na história da competição e superando o alemão Helmut Schon.
Seu aproveitamento também impressiona.
Foram 20 vitórias em 26 jogos de Mundial, com apenas três derrotas.
Ao longo desses 14 anos, Deschamps conquistou a Copa do Mundo de 2018, levou a França à final em 2022, alcançou a decisão da Eurocopa de 2016 e ainda chegou às semifinais da Euro de 2024.
Além disso, tornou-se um dos apenas três nomes da história capazes de vencer a Copa do Mundo tanto como jogador quanto como treinador, ao lado de Mário Zagallo e Franz Beckenbauer.
Existe outro dado que ajuda a dimensionar sua importância.
Como atleta e treinador, Deschamps participou de mais da metade das vitórias francesas em Copas do Mundo, incluindo as duas campanhas que terminaram com o título mundial.
Seu legado também pode ser medido pela estabilidade construída.
Quando assumiu a seleção em 2012, a França ainda tentava se recuperar de uma das fases mais conturbadas de sua história recente. A eliminação precoce na Copa de 2010 havia sido marcada por conflitos internos, culminando até mesmo na recusa dos jogadores em treinar durante o torneio.
Deschamps conseguiu reconstruir completamente esse ambiente.
Aproveitando uma geração extremamente talentosa, criou uma equipe competitiva, organizada e, principalmente, unida durante mais de uma década.
A relação com os jogadores fortaleceu sua trajetória

Um dos aspectos mais elogiados durante a passagem de Deschamps sempre foi sua capacidade de administrar o grupo.
Olivier Giroud, campeão do mundo em 2018 sob seu comando, afirmou que muitos jogadores enxergavam o treinador como um segundo pai.
Segundo o atacante, Deschamps sempre transmitiu confiança aos atletas, oferecendo liberdade para que grandes jogadores expressassem sua qualidade em campo, sem abrir mão do equilíbrio coletivo.
A principal característica do treinador, era sua mentalidade competitiva.
Giroud destacou que Deschamps ensinava diariamente a importância de buscar a vitória em qualquer circunstância, criando uma cultura vencedora que marcou toda uma geração do futebol francês.
Gael Clichy compartilha da mesma visão.
O ex-lateral acredita que o maior mérito do treinador foi recuperar uma seleção que vivia um período de enorme instabilidade e recolocá-la entre as principais forças do futebol mundial.
Para Clichy, discutir aquilo que Deschamps deixou de conquistar perde importância diante da dimensão de tudo o que ele realizou.
O desafio agora passa para Zidane

Com a saída já anunciada desde 2025, o principal candidato para assumir a seleção francesa é Zinedine Zidane.
Assim como Deschamps, Zidane também fez parte da geração campeã mundial de 1998 e construiu uma carreira extremamente vencedora como treinador do Real Madrid, conquistando três títulos consecutivos da UEFA Champions League.
Mesmo assim, assumir esse cargo representa um enorme desafio.
Durante 14 anos, Deschamps criou uma identidade sólida para a seleção francesa, manteve a equipe constantemente entre as favoritas dos grandes torneios e estabeleceu um padrão de regularidade raro no futebol de seleções.
Não por acaso, Gael Clichy resumiu a missão do futuro treinador em poucas palavras: quem assumir a França depois de Didier Deschamps encontrará uma tarefa extremamente difícil.
A despedida pode não acontecer com uma taça nas mãos, mas dificilmente isso diminuirá o tamanho de seu legado. Ao transformar uma equipe que vivia um momento de instabilidade em uma presença constante nas fases decisivas das principais competições do mundo, Deschamps consolidou seu nome entre os maiores treinadores da história do futebol francês e encerra sua trajetória deixando um padrão de excelência que será difícil de igualar.
(Foto de capa: Hector Vivas – FIFA/FIFA via Getty Images)



