A ida de Felipe Drugovich para a Fórmula E, confirmada com a Andretti Global a partir da temporada 12 da categoria elétrica, levanta uma pergunta inevitável: será esse o fim do sonho da Fórmula 1 para o piloto brasileiro ou, ao contrário, uma nova etapa estratégica em sua carreira? O caso de Nyck de Vries, que conquistou um título na Fórmula E e depois conseguiu chegar à F1, mostra que o caminho ainda pode ser viável — ainda que cheio de obstáculos.
Desde que venceu a Fórmula 2 em 2022, Drugovich alimenta expectativas de ocupar um assento titular na Fórmula 1. Seu trabalho como piloto reserva da Aston Martin, cargo que mantém até o fim da temporada 2025, foi importante para se manter no radar, mas não o suficiente para abrir uma vaga no grid. Agora, com a decisão de correr na Fórmula E em tempo integral, o paranaense de 24 anos volta a ter ritmo de corrida, pressão competitiva e protagonismo, elementos essenciais para qualquer piloto que queira se manter relevante.
A estreia de Drugovich na Fórmula E, ainda em 2025, pela Mahindra em Berlim, mostrou que ele pode se adaptar ao estilo peculiar da categoria. Naquela ocasião, conseguiu um sétimo lugar em uma das provas, resultado sólido para quem entrou de última hora em um carro desconhecido. O acerto com a Andretti, equipe que já foi campeã mundial com Jake Dennis, dá a ele um ambiente competitivo para crescer e buscar resultados expressivos.
O exemplo de De Vries pode inspirar Drugovich
Mas por que isso não precisa significar um ponto final no sonho da F1? O exemplo mais claro é Nyck de Vries. Campeão da Fórmula 2 em 2019 e da Fórmula E em 2020-21, o holandês aproveitou a visibilidade e a consistência nas pistas elétricas para se manter em destaque, até receber a chance de substituir Alexander Albon no GP da Itália de 2022. Seu desempenho sólido naquela corrida o levou a um contrato como titular na AlphaTauri. Ainda que sua passagem tenha sido curta, ficou provado que a transição da FE para a F1 é possível.
Outros nomes, ainda que em contextos diferentes, também mostram que a Fórmula E não é um “beco sem saída”. Stoffel Vandoorne, ex-McLaren na F1, reconstruiu a carreira na FE, conquistou um título mundial e se manteve relevante no paddock internacional. Antonio Giovinazzi, embora sem tanto sucesso na categoria elétrica, também circulou entre F1 e FE. O ponto em comum é que estar ativo, competitivo e visível pesa mais do que simplesmente ficar restrito a simuladores e testes.
Para Drugovich, a lógica é semelhante. A Fórmula E pode lhe dar vitórias, pódios e manchetes semanais, algo que piloto reserva de F1 raramente conquista. E, se o brasileiro souber capitalizar essa visibilidade, manter relações próximas com a Aston Martin ou mesmo atrair interesse de outras equipes, pode estar em posição estratégica caso surja uma vaga no grid nos próximos anos.
O caminho não é fácil, mas é possível
Os desafios, porém, não são pequenos. A Fórmula 1 vive uma fase de estabilidade, com poucas mudanças de pilotos, o que reduz drasticamente as chances para estreantes. Além disso, a concorrência é feroz: nomes como Leonardo Fornaroli e até o também brasileiro Rafa Câmara já estão no radar e disputam espaço com o mesmo objetivo. Drugovich precisará não apenas mostrar talento na Fórmula E, mas também se diferenciar pela consistência, maturidade e, claro, pelo apoio financeiro e de patrocinadores.
Ainda assim, a decisão de Drugovich de correr na Andretti pode ser vista como boa. Ao invés de ficar no papel secundário de piloto de testes, ele volta a competir de forma regular, acumulando quilometragem real, situações de corrida e pressão por resultados. Essa vivência pode ser justamente o que falta para convencê-lo — e convencer chefes de equipe na F1 — de que está pronto para assumir uma vaga titular.
No fim, a ida de Felipe Drugovich para a Fórmula E não deve ser interpretada como o encerramento de uma porta, mas como a abertura de outra. O sonho da Fórmula 1 continua vivo, e a categoria elétrica pode ser o trampolim que ele precisa para chegar lá. A pergunta que fica é: será que ele conseguirá repetir os passos de Nyck de Vries e transformar a Fórmula E em uma plataforma de acesso à maior categoria do automobilismo mundial?
(Foto: Getty Images)