Dricus Du Plessis comemora no UFC Oklahoma City
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Dricus Du Plessis acertou ao recusar ‘torneio’ do UFC pelo cinturão dos meio-pesados?

Dricus Du Plessis recusou uma oportunidade incomum de disputar uma vaga para o cinturão meio-pesado do UFC, mas a decisão de priorizar a categoria dos médios levanta uma questão importante: faz sentido adiar a chance de conquistar um segundo título para tentar recuperar o primeiro? O treinador Morne Visser revelou que a organização procurou a equipe do sul-africano para propor um torneio de quatro lutadores, com Jiri Prochazka, Magomed Ankalaev e Navajo Stirling entre os participantes. O vencedor ganharia a oportunidade de enfrentar Carlos Ulberg, atual campeão dos meio-pesados. A equipe recusou a proposta, alegando que Du Plessis precisa de tempo para preparar o corpo para a nova divisão e ainda pretende recuperar o cinturão dos médios.

A recusa é compreensível do ponto de vista físico e estratégico, sobretudo porque o lutador ainda não fez uma transição definitiva para uma categoria mais pesada. Entretanto, o contexto das duas divisões torna a decisão mais complexa do que parece. A categoria dos médios tem uma disputa pelo título cercada de possibilidades, mas também de incertezas, enquanto a dos meio-pesados atravessa um período de reorganização em torno de um campeão afastado por lesão. Du Plessis pode ter escolhido o caminho mais seguro, mas isso não significa necessariamente que tenha escolhido o mais vantajoso para sua carreira.

A divisão dos médios ainda oferece um caminho para Du Plessis

Du Plessis tem motivos concretos para continuar nos médios. Depois de perder o cinturão para Khamzat Chimaev em agosto de 2025, o sul-africano voltou a vencer ao superar Kamaru Usman por decisão unânime em julho de 2026. O resultado permitiu que ele voltasse a discutir uma possível candidatura ao título. Além disso, Du Plessis já derrotou Sean Strickland duas vezes, incluindo a revanche de fevereiro de 2025, o que fortalece seu argumento para voltar a disputar o cinturão.

O cenário atual, porém, não garante que a oportunidade estará disponível imediatamente. Strickland aparece como campeão dos médios, enquanto Chimaev ocupa a primeira posição entre os desafiantes, Du Plessis está em segundo e Nassourdine Imavov aparece em terceiro. Brendan Allen também figura entre os principais nomes da categoria. Essa configuração significa que o sul-africano está bem posicionado, mas não necessariamente será o próximo a disputar o título.

A situação contratual de Strickland acrescenta outra variável. O impasse entre o campeão e o UFC ganhou repercussão em outubro, gerando incertezas sobre os próximos passos da divisão. Caso a situação atrase a defesa do cinturão ou altere os planos da organização, Imavov e Du Plessis podem ganhar relevância na disputa por uma oportunidade. Ainda assim, não existe garantia de que o sul-africano será escolhido, especialmente porque Chimaev também está à frente dele no ranking.

Nesse contexto, a decisão de permanecer nos médios faz sentido porque Du Plessis ainda tem uma rota plausível para recuperar o título. Ele não precisa começar do zero em uma nova categoria, nem provar que consegue competir contra adversários significativamente mais pesados. Uma vitória sobre outro nome de destaque, ou uma definição favorável na disputa pelo cinturão, poderia colocá-lo novamente no centro da divisão.

Por outro lado, existe um risco nessa escolha: o sul-africano pode ficar à espera de uma oportunidade que dependa de decisões da organização e de resultados envolvendo outros atletas. Se a disputa dos médios se prolongar, Du Plessis poderá passar meses sem avançar em direção ao objetivo principal, enquanto a chance de disputar o título meio-pesado talvez não volte a aparecer nas mesmas condições.

O torneio dos meio-pesados era uma oportunidade rara, mas arriscada

A proposta relatada por Visser tinha um atrativo evidente. Du Plessis poderia entrar diretamente em uma disputa que envolveria alguns dos nomes mais importantes da categoria e, caso vencesse o torneio, conquistaria uma oportunidade contra Ulberg. Em vez de precisar construir uma candidatura convencional ao longo de vários combates, teria um caminho potencialmente mais curto até o cinturão.

É importante, porém, não confundir a realização de um torneio com a confirmação de duas lutas na mesma noite. O relato do treinador não esclarece todos os detalhes do formato, como o intervalo entre os confrontos ou a maneira como o UFC pretendia organizar a disputa. Portanto, não é possível afirmar que Du Plessis necessariamente precisaria enfrentar dois adversários em poucas horas. O que se pode avaliar é o desafio esportivo de disputar um torneio contra atletas de alto nível e a exigência física que uma sequência de confrontos poderia representar, dependendo das regras adotadas.

O problema central não seria apenas enfrentar adversários maiores. O limite do meio-pesado é de 205 libras, contra 185 libras dos médios, e Du Plessis já declarou que costuma perder cerca de 45 libras para competir na categoria atual. Esse dado sugere que uma subida de peso poderia reduzir parte do desgaste provocado pelo corte, mas não significa que o lutador estaria automaticamente preparado para enfrentar atletas adaptados à divisão mais pesada.

Como explicou Visser, aumentar o peso corporal não equivale a desenvolver a força, a potência e a resistência específicas necessárias para competir nesse nível. O treinador afirmou que levou cerca de um ano para conduzir Du Plessis dos meio-médios aos médios e defendeu que uma nova transição precisaria ser gradual. A preocupação é pertinente: ganhar massa em pouco tempo não garante que o corpo consiga sustentar o ritmo, absorver o impacto e produzir potência contra adversários naturalmente maiores.

O formato do torneio também poderia aumentar os riscos, dependendo de como fosse organizado. Caso houvesse mais de um combate em um intervalo curto, Du Plessis precisaria administrar o desgaste e eventuais danos físicos antes de voltar ao octógono. Contra nomes como Ankalaev e Prochazka, a exigência seria considerável. Se, por outro lado, os confrontos fossem distribuídos em datas diferentes, haveria mais tempo para recuperação, embora a preparação específica para a categoria continuasse sendo necessária.

Existe ainda uma questão competitiva: não seria razoável avaliar o potencial de Du Plessis no meio-pesado apenas por sua capacidade de sobreviver a um formato excepcionalmente exigente. Uma luta convencional já permitiria medir como ele se adapta ao tamanho e à força dos adversários. Um torneio poderia acelerar seu caminho até o título, mas também acrescentaria variáveis que não dependem exclusivamente de sua capacidade técnica.

Carlos Ulberg e a situação dos meio-pesados mudam a análise

A divisão dos meio-pesados também oferece razões para considerar a proposta, mesmo com os riscos. Carlos Ulberg é o campeão, mas está afastado por lesão, enquanto Magomed Ankalaev e Jiri Prochazka permanecem entre os principais nomes do ranking. Alex Pereira também continua no grupo de elite, e Navajo Stirling tenta se consolidar entre os candidatos de destaque.

O afastamento de Ulberg ajuda a explicar por que um torneio poderia ser atraente para o UFC. Com o campeão indisponível, a organização tem interesse em organizar a fila de desafiantes e definir quem estará pronto para disputar o cinturão quando ele puder retornar. Um formato eliminatório concentraria diferentes histórias em uma mesma disputa e produziria um candidato claro, além de oferecer um evento com grande apelo comercial.

Para Du Plessis, entrar nesse cenário significaria disputar espaço com lutadores que já têm experiência na categoria. Ankalaev é conhecido pela capacidade de controlar combates e pela eficiência tática, enquanto Prochazka combina volume, criatividade e poder de finalização. Stirling representa outro desafio para um atleta que ainda não fez sua transição definitiva aos meio-pesados. Não seria uma estreia gradual, mas uma entrada diretamente no centro da disputa pelo título.

Há ainda uma mudança relevante no cenário: Prochazka e Stirling estão programados para se enfrentar na luta principal do UFC Qatar, em 21 de novembro de 2026. O confronto indica que pelo menos parte dos planos da divisão já seguiu outro caminho. Isso não elimina a importância do relato de Visser, mas reforça que a proposta precisa ser entendida como uma possibilidade discutida pela equipe, e não como um torneio confirmado que Du Plessis necessariamente deixou escapar.

A oportunidade era valiosa justamente por oferecer um caminho potencialmente mais curto para o cinturão, mas isso não significa que o sul-africano deveria aceitá-la automaticamente. Se estivesse plenamente adaptado à categoria e tivesse tempo suficiente para preparar o corpo, seria mais difícil justificar uma recusa sem avaliar as condições. Diante de uma transição física ainda não concluída e de adversários experientes, porém, o risco precisava ser ponderado em relação ao benefício de acelerar sua trajetória rumo ao título.

Du Plessis deveria priorizar a recuperação do cinturão dos médios?

A resposta depende do que o sul-africano considera mais importante para o restante da carreira. Se o objetivo principal é recuperar o cinturão dos médios e consolidar seu legado nessa categoria, a decisão de permanecer nos 185 libras é coerente. Ele já foi campeão, possui vitórias sobre Strickland e continua entre os primeiros colocados do ranking. Voltar ao topo seria uma conquista esportiva relevante, além de permitir que demonstrasse que a derrota para Chimaev não encerrou sua competitividade no mais alto nível.

Mas, se a ambição de Du Plessis é se tornar campeão em duas divisões, rejeitar a proposta também significa abrir mão de uma chance incomum. O UFC raramente oferece um caminho tão direto para um desafiante chegar ao cinturão, sobretudo em uma categoria na qual vários nomes de alto nível disputam a mesma oportunidade. Mesmo que o formato exigisse uma preparação específica e envolvesse riscos, a possibilidade de enfrentar Ulberg após vencer o torneio teria um valor difícil de ignorar.

A questão é que os dois objetivos não precisam ser tratados como escolhas definitivas entre permanecer nos médios ou subir imediatamente. O próprio Visser afirmou que a mudança para os meio-pesados continua nos planos, mas que a equipe pretende fazer a transição de forma gradual e recuperar o cinturão atual antes de avançar. O treinador também indicou uma possível volta ao octógono em fevereiro ou março de 2027, com Imavov e Allen entre os nomes que poderiam ser considerados, embora nenhuma dessas lutas esteja confirmada.

Essa estratégia preserva a possibilidade de Du Plessis disputar novamente o título dos médios e, depois, subir com mais tempo de preparação. O risco é que a oportunidade de conquistar dois cinturões possa ficar mais distante, seja por mudanças na fila dos desafiantes, seja pela evolução dos adversários nos meio-pesados. A carreira de um lutador de elite não permite controlar todas as variáveis, e esperar pelo cenário perfeito pode significar perder oportunidades que dificilmente se repetirão.

Ainda assim, a proposta relatada não parecia oferecer condições ideais para uma transição tão importante. O problema não é presumir que o sul-africano teria de lutar duas vezes na mesma noite, pois esse detalhe não foi esclarecido, mas reconhecer que a participação em um torneio contra adversários de alto nível exige uma preparação compatível com a categoria. Du Plessis poderia ter conquistado uma oportunidade histórica, mas também correria o risco de comprometer sua trajetória caso a mudança fosse feita antes de estar fisicamente pronto.

(Foto: Getty Images)