Petr Yan sabe que a rivalidade com Merab Dvalishvili mudou de patamar depois do último encontro entre os dois. Após sofrer uma derrota dominante em março de 2023, o russo deu a volta por cima na revanche de dezembro do ano passado e conquistou uma vitória por decisão unânime que lhe devolveu o cinturão dos pesos-galos do UFC. Agora, os rivais se preparam para uma terceira luta, no UFC 333, em Abu Dhabi, em um confronto que promete ir além da disputa técnica: a principal questão é se o resultado da revanche abalou a confiança de Dvalishvili no próprio jogo e se o georgiano conseguirá recuperar a convicção que o transformou em um dos lutadores mais dominantes da categoria.
A derrota anterior não foi apenas uma interrupção na sequência de vitórias de Merab. Durante seu reinado, o georgiano construiu uma reputação baseada em pressão constante, ritmo elevado, quedas sucessivas e capacidade de desgastar os adversários até que eles não conseguissem acompanhar sua intensidade. Contra Yan, porém, esse sistema encontrou uma resistência que não havia conseguido superar na primeira luta. O russo defendeu melhor as investidas, encontrou espaço para golpear e mostrou que era possível neutralizar a principal arma do campeão. A revanche, portanto, deixou uma pergunta que pode acompanhar Dvalishvili até o terceiro encontro: quando seu plano habitual não funciona, ele consegue confiar em si mesmo para encontrar uma alternativa?
A revanche mudou a percepção sobre o jogo de Merab
O primeiro confronto entre os dois aconteceu em março de 2023 e terminou com uma vitória dominante de Dvalishvili. Na ocasião, Yan enfrentou a luta com uma mão quebrada, limitação que comprometeu sua capacidade de golpear e dificultou sua resposta à pressão do georgiano. Merab conseguiu impor o ritmo que costuma caracterizar suas apresentações, acumulando ações de wrestling e mantendo o russo ocupado durante os cinco rounds.
A revanche, em dezembro de 2025, apresentou um cenário completamente diferente. Com melhores condições físicas, Yan conseguiu usar os golpes para conter os avanços do adversário e impedir que a luta se desenvolvesse nos termos que haviam favorecido Merab no primeiro encontro. O russo venceu de maneira convincente, em uma atuação que foi considerada uma das melhores de 2025, e voltou a conquistar o cinturão dos pesos-galos.
Essa mudança de desempenho tem implicações importantes para a trilogia. Antes da revanche, Dvalishvili podia olhar para o primeiro resultado como uma demonstração de que sua pressão era capaz de superar o estilo de Yan. Depois da derrota, entretanto, o georgiano passou a ter uma evidência concreta de que o adversário encontrou respostas para seu jogo. O russo não apenas sobreviveu às tentativas de impor o ritmo: conseguiu fazer Merab pagar por elas e controlar o desenvolvimento do combate.
É nesse ponto que surge a dúvida sobre a confiança do georgiano. Um lutador que depende tanto da iniciativa e da insistência precisa acreditar que suas ações vão produzir resultados, mesmo quando encontra resistência. Se a primeira sequência de quedas não funciona, ele precisa continuar pressionando; se o adversário defende bem, deve insistir sem perder a organização. Mas a memória de uma derrota dominante pode alterar a maneira como essas decisões são tomadas, sobretudo quando o rival já demonstrou que consegue punir justamente os movimentos que sustentam seu estilo.
Isso não significa que Merab necessariamente perdeu a confiança em suas habilidades. Não há como concluir, apenas a partir do resultado, que o georgiano esteja psicologicamente abalado ou que tenha deixado de acreditar em seu wrestling. A questão é outra: a revanche criou uma dúvida competitiva legítima, porque mostrou que o caminho que o levou ao topo pode não ser suficiente contra um adversário que conhece suas principais armas e encontrou maneiras de neutralizá-las.
A diferença entre reconhecer uma falha e passar a duvidar do próprio jogo pode ser decisiva no MMA. Um lutador confiante tende a executar suas ações com convicção, enquanto alguém preocupado com a possibilidade de repetir um erro pode hesitar nos momentos em que precisa agir de forma instintiva. Contra Yan, que demonstrou capacidade de aproveitar os espaços e controlar a distância, qualquer hesitação pode oferecer ao russo uma vantagem importante.
O desgaste de 2025 pode ter ampliado o impacto da derrota
Outro elemento relevante para entender a trilogia é a sequência de compromissos enfrentada por Dvalishvili em 2025. O georgiano realizou quatro lutas pelo cinturão durante o ano, uma frequência elevada para um campeão que depende de condicionamento físico, intensidade e recuperação constante para sustentar seu estilo. A derrota para Yan encerrou essa sequência e levantou questionamentos sobre o quanto o volume de atividade pode ter influenciado seu desempenho.
Petr Yan, por sua vez, não considera que essa discussão diminua o significado de sua vitória. Em entrevista ao programa de Ariel Helwani, o russo afirmou que não se incomoda com as pessoas que questionam a preparação de Merab ou sugerem que o campeão estava desgastado. Para Yan, o resultado deve ser entendido dentro do que aconteceu no octógono, e a terceira luta servirá para esclarecer qualquer dúvida que ainda exista.
“Se ele quiser usar isso como desculpa, ou se os fãs dele quiserem usar isso como desculpa, logo vamos descobrir”, afirmou o russo, por meio de um intérprete. A declaração resume a posição do ex-campeão: em vez de discutir as condições que cercaram a revanche, ele prefere deixar que o próximo confronto determine quem é o melhor lutador.
O argumento de que Merab pode ter acumulado desgaste não deve ser descartado, mas também não explica sozinho a derrota. Quatro disputas de cinturão em um ano representam uma carga considerável, principalmente para um atleta que costuma construir suas vitórias por meio de uma atividade física incessante. Ainda assim, a atuação de Yan demonstrou ajustes técnicos relevantes, e atribuir o resultado exclusivamente ao cansaço significaria ignorar a evolução apresentada pelo russo.
Além disso, a preparação para a trilogia tem uma particularidade: ambos farão sua primeira luta do ano. Yan ficou afastado depois da revanche para passar por uma cirurgia destinada a reparar discos na região lombar, o que impediu que voltasse ao octógono mais cedo. Assim, embora o russo tenha admitido que gostaria de lutar antes, os dois chegam ao encontro depois de um período sem competir.
Esse intervalo pode favorecer uma preparação mais específica para a trilogia, mas não elimina a diferença de confiança que pode ter surgido depois do último combate. Yan entra sabendo que encontrou uma maneira eficiente de vencer o rival. Merab precisa demonstrar que consegue absorver a derrota, identificar o que falhou e executar seu plano sem permitir que a lembrança da revanche interfira em suas decisões.
Yan quer controlar a luta e repetir o resultado
A confiança de Yan aparece também na maneira como ele interpreta a rivalidade. O russo afirmou que, depois de duas lutas, os dois possuem muitas informações sobre o estilo um do outro. Ele acredita conhecer as principais ações que Merab tentará executar e diz estar preparado para neutralizá-las, além de conduzir o combate para uma dinâmica que favoreça suas características.
O ponto mais importante dessa declaração é a intenção de controlar onde a luta acontece. Contra um adversário conhecido pelo wrestling e pela capacidade de pressionar durante cinco rounds, Yan precisa evitar que o confronto se transforme em uma sequência de tentativas de queda e disputas físicas junto à grade. Seus golpes podem funcionar como ferramenta para interromper os avanços, obrigar Merab a reconsiderar a entrada e abrir espaços para contra-atacar.
Na revanche, o russo mostrou que consegue explorar essa dinâmica. Ao impedir que o georgiano estabelecesse o mesmo domínio da primeira luta, Yan retirou parte da previsibilidade de seu adversário e passou a ditar condições mais favoráveis para golpear. A vitória não garante que o mesmo cenário se repetirá, mas oferece ao campeão um modelo concreto de como enfrentar o estilo de Merab.
O georgiano, por outro lado, precisa evitar que a busca por uma resposta perfeita o faça abandonar aquilo que o tornou bem-sucedido. Tentar mudar completamente de identidade para surpreender Yan pode ser tão arriscado quanto repetir o plano anterior sem ajustes. O desafio está em preservar a pressão, o volume e a capacidade de wrestling, mas incorporar alternativas para os momentos em que o russo conseguir defender as primeiras investidas.
Também será importante observar a reação de Merab caso os primeiros minutos não ocorram como ele espera. Se conseguir impor seu ritmo desde o início, a confiança pode crescer ao longo da luta, e o georgiano terá condições de transformar a pressão em vantagem. Se Yan voltar a defender as quedas e acertar golpes significativos, porém, a lembrança da revanche poderá se tornar um fator psicológico relevante. Nesse cenário, o campeão precisará demonstrar que aprendeu com a derrota sem se tornar prisioneiro dela.
A rivalidade também ganhou um componente pessoal na preparação para a trilogia. Merab chamou Yan de uma pessoa rude que precisava ser colocada em seu lugar. O russo respondeu que apenas falou a verdade quando foi questionado sobre a revanche e afirmou que o próprio georgiano sabe que foi humilhado na derrota. A troca de provocações não determina o resultado, mas evidencia que Yan pretende entrar no combate convencido de que já descobriu como vencer o rival.
A terceira luta, portanto, será uma avaliação técnica e mental para os dois. Yan precisa provar que a vitória anterior não foi circunstancial e que consegue repetir os ajustes contra um adversário que terá a oportunidade de corrigir seus erros. Merab, por sua vez, precisa mostrar que continua acreditando no sistema que o levou ao topo, mesmo depois de descobrir que ele pode ser neutralizado.
A pergunta central não é simplesmente se a derrota abalou a confiança de Dvalishvili, mas se ele conseguirá impedir que essa possibilidade influencie seu desempenho. O georgiano tem histórico e capacidade física para voltar a impor seu ritmo, mas agora enfrenta um rival que já provou ser capaz de desmontar seu plano. Se Merab entrar no octógono disposto a executar suas ações com a mesma convicção de antes, a trilogia poderá ser decidida pela qualidade dos ajustes. Se, por outro lado, começar a duvidar das próprias ferramentas diante da primeira resistência de Yan, a revanche poderá continuar pesando sobre ele mesmo antes de o combate chegar aos rounds decisivos.
(Foto: Divulgação/UFC)


