Campeão mundial com a seleção brasileira em 17 de julho de 1994, Dunga se eternizou ao utilizar a braçadeira de capitão e ser o primeiro a erguer a taça do tetracampeonato, conquistada nos pênaltis sobre a Itália, no estádio Rose Bowl, em Pasadena, Estados Unidos. Culpado quatro anos antes pela eliminação diante da Argentina de Maradona, o zagueiro passou de vilão a herói ao compor o elenco de Carlos Alberto Parreira e Zagallo que levou o país a ostentar sua quarta estrela na camisa, 24 anos depois do tri, conquistado no México.
Vice-campeão em 1998, nove anos depois iniciou sua carreira como técnico na própria seleção, e conquistou dois títulos em sua primeira passagem, a Copa América de 2007, e a Copa das Confederações de 2009, chegando ao Mundial na África do Sul como um dos candidatos ao título, porém, terminou eliminado nas quartas para a Holanda. Voltando ao cargo após o 7×1 com Felipão, teve sua segunda e última jornada encerrada em 2016, após uma eliminação na Copa América, e de lá pra cá, não mais atuou como treinador, apesar de ter recebido convites para retomar seu trabalho.
Atualmente, longe dos holofotes do futebol, o capitão do Tetra, que completou 30 anos na última quarta-feira, atua com um instituto de auxílio a entidades, instituições beneficentes e comunidades carentes do Rio Grande do Sul. Há pouco tempo, Dunga esteve presente de forma constante no apoio às centenas de vítimas que perderam tudo nas enchentes que assolaram o estado gaúcho entre os meses de abril e maio.
Para relembrar sua maior conquista, o ex-camisa 8 concedeu uma entrevista exclusiva para o jornal Estadão, na qual trouxe passagens sobre o tetracampeonato mundial, sua relação com Parreira e Zagallo durante aquela Copa, e comparou o atual cenário do futebol brasileiro com a Europa, tecendo uma frase polêmica sobre a exportação de jovens jogadores do país para o velho continente.
Dunga sobre o Tetra, e jovens brasileiros indo para a Europa
Contratado por um time europeu pela primeira vez, em 1987, aos 24 anos de idade, além de contar momentos da campanha do Tetra na entrevista e afirmar que as equipes campeãs sempre chegaram criticadas antes do Mundial, Dunga foi categórico ao fazer comparações entre o futebol brasileiro e o futebol da Europa. Para o ex-defensor, atletas brasileiros vem sendo contratados cada vez mais cedo pelos clubes do continente, e brevemente poderão sair do país ainda no ventre da mãe.
Dunga falou também das diferenças entre a seleção de 30 anos atrás e a atual, e levantou dúvidas sobre a escola brasileira sofrer uma sequência de derrotas ao copiar os europeus, que na visão dele, fazem hoje aquilo que Zagallo e Parreira já vinham fazendo nas Copas de 1970 e 1994. O técnico declarou que os treinamentos de sua época como jogador eram mais exigentes do que agora, e questionou como o Brasil pode estar atrasado desde o 7 a 1 se na ocasião, a equipe de Luiz Felipe Scolari possuía boa parte de seus jogadores na Europa.
(O futebol) Depende do ponto de vista. Quem é o último campeão do mundo? A Argentina. Quem é o melhor jogador do Real Madrid? Vini Jr. Então essa é uma discussão que os teóricos gostam de falar. Eles vêm comprar os nossos melhores jogadores. Primeiro, os teóricos falam que a nossa base não trabalha. Pô, esses caras vêm comprar nossos jogadores. Eles vinham comprar nossos jogadores com 27 anos, baixaram para 20, e agora estão comprando nossos jogadores com 17. Daqui a pouco eles vão comprar na barriga da mãe.”
Será que a gente parou de ganhar quando a gente foi imitar os europeus? É uma boa pergunta. Será que quando a gente começou a falar muito, estudar, estudar, estudar, estudar, estudar, fazer cursos e mais cursos, a gente não ganhou mais nada? Mas veja bem, nós já estudávamos anteriormente da nossa forma. Só que nós estudávamos e não queríamos copiar a Europa. Nós estudávamos e fazíamos o jogador jogar com as nossas características. Aí no momento que a gente vai lá fora e quer introduzir dentro do Brasil uma filosofia que não é nossa, o nosso jogador tem que saber jogar, sabe?”
Tem coisas que o futebol não muda. Ah, mudou a preparação, mudou a alimentação, uma série de coisas que vieram para ajudar, né? Antigamente o treinamento era massacrante, hoje o treinamento é mais específico, isso é bom. Só que a gente não pode querer copiar as coisas da Europa. Estamos copiando o Barcelona, só que nem o próprio Barcelona joga mais como jogava naquela época. Se tu pegar a seleção de 94, isso que os caras falam, essas palavras bonitas, transição, passe inteligente, quebra de linha… A seleção de 94 já fazia isso, a seleção de 70 com o Zagallo já fazia. Então só acelerou o ritmo, acelerou a velocidade.”
E como agora estão falando, ah, o Brasil ficou atrás. Aí o Brasil levou 7 a 1. Dos 11 jogadores, quantos jogavam na Europa? Aí todo mundo vê e diz que o Brasil está atrasado. Pô, mas de 11, 10 jogavam na Europa. Como é que a gente pode estar atrasado?”
A seleção de 70 era criticada, ganhou mudou. A de 94 também a de 2002 também. Quem pode mudar isso? Os jogadores dentro de campo. Se nossos jogadores jogam na Europa, é logico que eles tem qualidade. Mas na seleção tem que assumir, porque a responsabilidade na seleção é 10 vezes maior do que clube na Europa. Hoje, pelo futebol ter mudado, os clubes são quase como uma seleção. Naquela época eram três jogadores estrangeiros por cada time, hoje não. Hoje tem 10, 12. Então, o que nós temos hoje como referência é o Vini Jr. Mesmo ele fazendo a diferença, arrebentando, ainda tem gente que fala que ele ainda não é completo.”
Dunga fala sobre Vini Jr, Dorival e Neymar
Após expor comparações entre as seleções de 1994 e 2024, Dunga também comentou sobre três assuntos “coringa” no cenário atual do Brasil. Os atacantes Vini Jr e Neymar, este lesionado e que poderá voltar à seleção após a Copa América, e o astro do Real Madrid, bicampeão da Champions League e candidato a Bola de Ouro desta temporada.
O retorno do jogador, não convocado por ele em 2010, e muito criticado na ocasião, é visto pelo treinador com bons olhos, mas dependerá dele próprio, e sobretudo de Dorival Júnior, técnico da seleção, que também foi apontado por Dunga como merecedor de todo o apoio para consolidar seu trabalho rumo à Copa de 2026.
Pra mim, ele é o melhor do mundo. Se ele fosse europeu, pode ter certeza que 90% aqui no Brasil estariam dizendo que ele era o melhor do mundo, né? Como foi o Mbappé ano passado, né? Todo mundo só compara o Mbappé com o Vini Jr., né? ‘Ah, mas o Mbappé ganhou o Mundial’. Legal, o Vini ganhou duas Champions.”
— sobre Vini Jr.
Dizer que ele é peça fundamental da seleção vai depender dele, certo? Agora, se você falar da qualidade dele como jogador, ele ainda é importante, sem dúvida. Se ele voltar da lesão com o mesmo ritmo e qualidade é um jogador diferenciado. No Brasil, há essa questão de não gostarmos muito da personalidade dos jogadores. É uma coisa. Mas como jogador, cara, é indiscutível.”
— sobre Neymar ainda ter espaço na seleção brasileira.
Ele está bem, se adequou bem no São Paulo e no Flamengo. A seleção brasileira está no caminho certo, um cara ponderado, e temos que apoiá-lo. Mas a gente tem que deixar o cara trabalhar, dar força para ele. Ele já mostrou no São Paulo, no Flamengo e no Ceará que tem qualidade, experiência… então temos que apoiar.”
A Copa de 1994; 30 anos do Tetra
Capitão da seleção em duas edições seguidas de Copa do Mundo, Dunga viveu o auge logo na primeira oportunidade em que ostentou a braçadeira, no Mundial dos Estados Unidos, onde o Brasil chegava a um jejum de 24 anos sem conquistas. Camisa 8 daquele time de nomes como Taffarel, Romário, Bebeto, Aldair e Mauro Silva, o ex-zagueiro relembra com saudade do ambiente da equipe naquela disputa, das cobranças que precisou fazer no decorrer da caminhada pelo Tetra, e o relacionamento com Parreira e Zagallo naquele campeonato.
Nosso ambiente era muito, muito bom. Quando digo que o nosso ambiente era muito, veja bem, quando se gosta de uma pessoa, tem que dizer a verdade, certo? E aquele grupo dizia a verdade, mesmo que doesse. Gostávamos uns dos outros, mas era um pensamento coletivo, era para o bem do time. Então, quando falo que o ambiente era muito bom, não era só brincadeira e risada. Não, não era.”
Ele (Zagallo) era um cara que tinha vontade de vencer, um cara superpositivo. Nos piores momentos, ele continuava sendo positivo, né? Assumia a responsabilidade. Ele ensinou a todo mundo que a seleção brasileira era a nossa segunda pele, né? Que é a amarelinha. Então, coisas assim marcaram muito a nossa trajetória.
O Parreira era muito claro no que transmitia para nós, no que queríamos e como nosso time jogava. Jogávamos com sincronia, todos sabiam o posicionamento. Quando assistíamos aos nossos vídeos, passávamos sem precisar olhar, porque já sabíamos o que cada jogador ali faria na marcação, na saída com a bola, no posicionamento do Bebeto, do Romário, do Zinho. Todos viam isso.

Foto: Leonhard Foeger / Reuters
