Edson Barboza UFC 330
Lutas UFC

Edson Barboza dá adeus ao UFC após perceber que não consegue mais competir em alto nível

Edson Barboza sabia que a decisão estava se aproximando, mas nem por isso o momento foi menos difícil. Depois de mais de 15 anos competindo no UFC, o brasileiro entrou no octógono da Xfinity Mobile Arena, na Filadélfia, para aquela que seria sua última luta profissional. Diante de Esteban Ribovics, o veterano sofreu sua segunda derrota consecutiva por interrupção e, pouco depois, confirmou que não voltaria mais a competir.

A cena foi digna de uma despedida de uma carreira tão importante. Emocionado, Edson Barboza colocou as luvas no centro do octógono enquanto familiares estavam ao seu redor e recebeu o carinho do público presente na arena. Aos 40 anos, o brasileiro decidiu que era hora de parar antes que o esporte cobrasse ainda mais de seu corpo.

E a explicação dada pelo próprio lutador foi bastante direta.

“Meu corpo não é mais o mesmo. Não consigo competir em alto nível”, afirmou Barboza ao conversar com Megan Olivi nos bastidores do evento.

Não foi uma decisão tomada de um dia para o outro.

Edson Barboza já vinha pensando em parar

Edson Barboza contou que começou a perceber que algo havia mudado durante sua luta contra Lerone Murphy. Naquele momento, o brasileiro sentiu que já não tinha as mesmas sensações de antes e passou a considerar seriamente a possibilidade de encerrar a carreira.

O problema é que parar nunca foi simples para alguém com o perfil competitivo de Barboza.

O próprio lutador admitiu que odeia perder e que tem dificuldades para lidar com derrotas. Por isso, mesmo percebendo que seu corpo já não respondia da mesma maneira, continuou treinando e tentando encontrar uma última grande atuação.

O camp para o UFC 330, inclusive, foi positivo do ponto de vista físico. Barboza explicou que estava saudável e havia conseguido realizar uma preparação adequada. Mas estar saudável para uma luta não significa necessariamente ter o mesmo corpo de uma década atrás.

Aos 40 anos e depois de 33 lutas no UFC, o desgaste acumulado finalmente pesou.

“Eu tentei. Continuei treinando forte, mas senti que meu corpo não era mais o mesmo”, explicou.

É uma constatação dura para qualquer atleta, mas especialmente para alguém que construiu sua carreira justamente em cima da capacidade física e da explosão.

Carreira construída na base da violência no melhor sentido

Falar de Edson Barboza é falar de um dos atletas mais espetaculares que já passaram pelo UFC.

O brasileiro acumulou um cartel de 24 vitórias e 15 derrotas e enfrentou praticamente todo tipo de adversário durante sua trajetória. Khabib Nurmagomedov, Tony Ferguson, Justin Gaethje e Anthony Pettis estão entre os nomes que dividiram o octógono com ele.

E existe uma característica que acompanhou Barboza durante toda essa caminhada: suas lutas quase nunca eram esquecíveis.

Mesmo quando perdia, o brasileiro costumava entregar algum momento capaz de fazer o fã de MMA levantar do sofá. Ele tinha um arsenal de golpes que parecia ter sido desenvolvido especificamente para produzir vídeos de melhores momentos.

Chutes baixos, joelhadas, golpes rodados e ataques na curta distância fizeram de Barboza um dos atletas mais perigosos de sua geração.

Não por acaso, sua luta era frequentemente tratada como compromisso obrigatório para quem gostava de ação. Se Edson Barboza estivesse no card, havia uma chance razoável de alguém acabar dormindo.

Chute que entrou para a história do UFC

Existe, porém, um momento que resume perfeitamente a carreira de Edson Barboza.

Em 2012, contra Terry Etim, o brasileiro acertou um chute rodado que terminou em nocaute e entrou imediatamente para a história do UFC. Foi o primeiro nocaute com spinning wheel kick registrado na história da organização.

O golpe foi tão plástico quanto brutal.

Etim caiu desacordado, enquanto Barboza produzia uma das imagens mais marcantes daquela geração do UFC. Se existisse um Hall da Fama específico para nocautes, esse certamente seria um dos primeiros nomes da lista. E não foi um caso isolado.

Barboza produziu diversos candidatos a nocaute do ano ao longo da carreira, mostrando que sua capacidade de encontrar golpes pouco convencionais não era apenas uma característica ocasional.

Edson Barboza enfrentou praticamente todos os grandes

Outro aspecto que torna a carreira de Edson Barboza tão respeitável é a qualidade dos adversários que enfrentou.

O brasileiro não construiu seu legado enfrentando apenas nomes em ascensão. Ele dividiu o octógono com alguns dos melhores lutadores das últimas gerações, incluindo Khabib Nurmagomedov, Tony Ferguson, Justin Gaethje e Anthony Pettis.

Alguns desses combates foram verdadeiros testes de resistência.

A luta contra Gaethje, por exemplo, é lembrada até hoje pelo nível de violência e pela disposição dos dois atletas para permanecerem no centro do octógono trocando golpes. Barboza nunca foi conhecido por escolher o caminho mais seguro para vencer.

Talvez isso explique por que acumulou tantos bônus de luta da noite.

O brasileiro terminou sua passagem pelo UFC empatado com Dustin Poirier na segunda posição entre os lutadores com mais bônus de “Fight of the Night” na história da organização. É uma estatística que combina perfeitamente com sua trajetória: Edson Barboza quase sempre entregava espetáculo.

Barboza também mostrou versatilidade

Embora tenha ficado marcado principalmente por sua passagem na divisão dos leves, Edson Barboza também teve uma experiência no peso-pena durante a carreira.

O brasileiro desceu de categoria em uma tentativa de buscar novos desafios e permaneceu entre os nomes relevantes do UFC por diferentes períodos. Mais tarde, voltou ao peso-leve para suas três últimas aparições na organização.

Essa longevidade é um dos aspectos mais impressionantes de sua carreira.

O MMA mudou muito desde que Barboza estreou no UFC. O esporte ficou mais técnico, os atletas se tornaram mais completos e o nível físico das categorias aumentou consideravelmente. Mesmo assim, ele conseguiu permanecer competitivo por mais de uma década e meia.

Isso diz muito sobre sua capacidade de adaptação.

Não foi campeão, mas deixou uma marca de campeão

Existe uma tentação de medir carreiras no MMA apenas pela quantidade de cinturões conquistados. Edson Barboza nunca teve um. E isso não deveria diminuir sua importância.

O brasileiro foi um daqueles lutadores que ajudaram a construir a identidade do UFC para uma geração de fãs. Ele era capaz de transformar uma luta comum em um espetáculo em poucos segundos e, mesmo quando enfrentava adversários superiores em determinados aspectos, nunca parecia disposto a simplesmente aceitar uma derrota.

Seu estilo também ajudou a criar uma identidade. Quando Barboza estava no octógono, você sabia o que poderia acontecer: alguém seria chutado. A única dúvida era quem.

Essa capacidade de produzir momentos memoráveis é um legado que não aparece em uma tabela de classificação.

UFC perde um de seus personagens mais perigosos

A aposentadoria de Edson Barboza encerra uma era para o UFC.

Durante 15 anos, o brasileiro esteve presente em cards importantes, disputou cinco eventos principais e enfrentou alguns dos maiores nomes da história recente da organização. Ao longo desse período, acumulou vitórias, derrotas, nocautes, derrotas dolorosas e uma quantidade impressionante de lutas que ainda são lembradas pelos fãs.

Seu último capítulo, obviamente, não foi o mais bonito.

A derrota para Ribovics foi sua segunda consecutiva por interrupção e veio diante de um adversário uma década mais jovem. Mas talvez seja melhor que Barboza tenha escolhido parar agora, enquanto ainda conseguiu tomar a decisão por conta própria.

Ele sabe que não consegue mais competir no nível que considera necessário. E, para um atleta tão competitivo, reconhecer isso exige coragem.

Despedida que combina com a carreira

Edson Barboza deixa o UFC sem cinturão, mas com algo que talvez seja ainda mais difícil de conquistar: respeito.

Ele deixa uma coleção de nocautes espetaculares, lutas contra nomes históricos, bônus de Fight of the Night e uma trajetória que atravessou diferentes gerações do MMA. Mais do que isso, deixa a lembrança de um lutador que nunca precisou de muita apresentação.

Quando Edson Barboza aparecia no card, o fã sabia que precisava assistir.

A aposentadoria pode ter chegado depois de uma derrota, mas sua carreira não será lembrada pelo resultado contra Ribovics. Será lembrada pelo chute contra Terry Etim, pelas batalhas contra os melhores do mundo e pela disposição de entrar no octógono durante 15 anos e continuar fazendo aquilo que sabia melhor.

Dar espetáculo.

Agora, pela primeira vez em muito tempo, Edson Barboza não precisa pensar na próxima luta, no próximo camp ou em como se preparar para mais um adversário. Aos 40 anos, depois de 33 combates no UFC, ele finalmente pode descansar.

E, depois de tantos anos chutando adversários até eles se arrependerem de ter entrado no octógono, talvez seja justo que o brasileiro finalmente tire as luvas. O UFC vai sentir sua falta. Os fãs também.

Foto: Chris Unger/Zuffa LLC