A eliminação da Costa Rica das Eliminatórias da Concacaf para a Copa do Mundo de 2026, sem sequer alcançar a repescagem, não é apenas um resultado ruim. É um marco definitivo. Sinaliza o fim de uma geração que elevou o futebol costarriquenho a um nível que o país raramente havia experimentado, e que resistiu bravamente por mais de uma década.
A queda dura expõe uma seleção que ficou sem força, sem reposição à altura e sem identidade tática capaz de sustentar o que já foi um modelo de sucesso.
A geração histórica da Costa Rica e seus feitos
A Costa Rica de 2014 entrou para a história como a maior campanha já feita por uma seleção centroamericana em Copas. O roteiro é conhecido, mas sempre vale lembrar o seu impacto. A equipe caiu em um grupo considerado impossível. Itália, Inglaterra e Uruguai pareciam predestinados a disputar duas vagas. A Costa Rica era tratada como figurante. Em campo, derrubou gigantes com disciplina, organização e competitividade em um nível raro. Eliminou italianos e ingleses, bateu o Uruguai, chegou às quartas de final e só saiu dos pênaltis contra a Holanda. A partir dali, o país deixou de ser modesto coadjuvante. Passou a ser referência regional.
Quatro anos depois, na Rússia, já não havia o mesmo brilho. A equipe envelheceu, perdeu velocidade e sofreu em jogos mais físicos. Ainda assim, mostrou dignidade em uma campanha dura. A eliminação na fase de grupos não tirou o respeito conquistado. A geração ainda entregava o que podia, mesmo com peças importantes no fim do auge.
Em 2022, o cenário parecia apontar para uma queda irreversível. A Costa Rica chegou ao Mundial com mais dúvidas do que certezas. Para surpresa de muitos, conseguiu se segurar. Levou uma goleada histórica da Espanha, mas reagiu. Venceu o Japão, complicou a vida da Alemanha e, por alguns minutos, chegou a sonhar com as oitavas.
A campanha não foi brilhante, mas mostrou que o país ainda conseguia competir, mesmo sem a base técnica que sustentou o ciclo anterior. Foi um último sopro daquela geração, uma resistência quase teimosa contra o processo natural de renovação.
A eliminação para 2026, porém, confirma o que 2022 apenas adiou. A Costa Rica não conseguiu reconstruir seu modelo de jogo, nem repor os nomes que deram estabilidade à seleção por tanto tempo. Keylor Navas, maior jogador da história do país, já não sustenta mais o mesmo nível. Bryan Ruiz se aposentou. Celso Borges não tem a mesma presença física. Campbell, Oviedo e Gamboa já não conseguem suportar a carga que antes suportavam. O grupo envelheceu, dispersou, se distanciou dos seus melhores anos. E o país não conseguiu formar uma geração capaz de carregar o bastão.
A renovação tímida e lenta do futebol costarriquenho
A renovação existe, mas é tímida. Os talentos jovens surgem em menor volume e não encontram ambiente ideal para se desenvolver. A liga local, que poderia ser motor dessa evolução, ainda é limitada em termos de investimento e metodologia. O fluxo de atletas para o futebol europeu diminuiu. E quando aparece alguém com potencial, muitas vezes surge de forma isolada, sem o entorno coletivo que impulsione o desenvolvimento.
A equipe até revelou bons talentos, mas até esses foram para ligas inferiores da Europa, como Álvaro Zamora, Orlando Galo e Josimar Alcócer. Considerado o maior talento da geração, Brandon Aguilera, do Rio Ave, não vive boa fase e pouco fez na última data FIFA. Nesta, nem convocado foi, o que mostra a sua fase ruim.
O resultado disso aparece dentro de campo. A seleção perdeu sua maior virtude: a solidez. Aquela linha defensiva que paralisou gigantes em 2014 e competiu de igual para igual com adversários mais fortes em 2018 e 2022 deixou de existir. A equipe passou a se posicionar mal, a defender em bloco desajustado, a sofrer com transições rápidas e a perder os duelos individuais que antes ganhava. Não há mais a sensação de que a Costa Rica pode segurar um placar apertado ou resistir sob pressão intensa.
No ataque, o time também perdeu personalidade. A seleção sempre teve dificuldade de propor jogo, mas tinha recursos claros para construir contra-ataques. Hoje, não tem a mesma velocidade, não tem o mesmo entrosamento e não tem jogadores capazes de receber e proteger a bola com a confiança que Campbell e Ruiz ofereciam nos melhores anos. Faltam ideias, faltam alternativas e falta execução.
Isso ficou evidente nas Eliminatórias. A equipe sofreu contra adversários de menor expressão, não conseguiu acelerar partidas que precisava vencer e raramente se impôs. A dificuldade de criação ficou mais evidente conforme a pressão aumentou. A cada rodada, a sensação era a de que o time apenas sobrevivia, nunca dominava. E o futebol internacional não perdoa seleções que sobrevivem demais e jogam de menos.
A Costa Rica um dia voltará?
Ficar fora até da repescagem é duro, mas funciona como um diagnóstico. Mostra que a Costa Rica não apenas caiu de nível. Mostra que o país precisa de reconstrução profunda, tanto em nível estrutural quanto técnico. O modelo que sustentou a geração de ouro chegou ao limite. O país precisa criar novas referências, abrir espaço definitivo para jovens e aceitar que viverá um período de instabilidade.
O fim dessa geração não apaga o legado que ela deixou. Pelo contrário. A Costa Rica que o mundo viu em 2014 mudou para sempre a percepção do futebol centro-americano. Mostrou o valor da organização, da disciplina e da coragem tática. O país não deixou de ser capaz de repetir isso um dia. Apenas precisa começar de novo.
(Foto: Stephen Maturen/Getty Images)