Endrick
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Endrick tem potencial para melhorar a seleção com e sem a bola

A ausência de Endrick na estreia do Brasil na Copa do Mundo segue como um dos assuntos mais debatidos após o empate por 1 a 1 contra o Marrocos. Embora Carlo Ancelotti tenha evitado comentar publicamente a decisão, informações de bastidores apontam que a comissão técnica considera que o atacante ainda precisa evoluir em determinados comportamentos táticos, especialmente na execução dos chamados gestos técnicos e em alguns aspectos da pressão sem bola.

A justificativa é legítima dentro da lógica de um treinador que busca construir uma identidade coletiva sólida. No entanto, ela também levanta questionamentos importantes. Afinal, várias das dificuldades apresentadas pela Seleção na estreia dialogam diretamente com características que fazem parte do repertório de Endrick desde os tempos de Palmeiras. Mais do que discutir uma vaga de titular, a questão é entender se o Brasil abriu mão de algumas ferramentas que poderiam ter sido úteis justamente em um jogo tão complicado.

Endrick deixa o ataque menos estático

Durante boa parte da partida contra o Marrocos, o ataque brasileiro encontrou dificuldades para movimentar a estrutura defensiva adversária. Igor Thiago desempenhou a função de referência ofensiva, mas passou muitos momentos encaixotado entre os zagueiros marroquinos, oferecendo poucas alternativas de movimentação para os companheiros. O resultado foi uma equipe que teve dificuldades para criar profundidade e gerar novas linhas de passe quando se aproximava da área.

É justamente nesse aspecto que Endrick oferece algo diferente. Desde sua ascensão ao profissional, o atacante se destacou por ser um jogador extremamente ativo sem a bola. Ele não atua como um centroavante fixo que espera o jogo chegar até ele. Pelo contrário: procura os espaços, flutua pelos corredores, participa das triangulações e constantemente obriga os defensores a ajustarem suas posições. Essa movimentação permanente tende a tornar o ataque menos previsível e mais difícil de ser marcado.

Contra uma defesa organizada como a do Marrocos, que raramente perdeu sua compactação ao longo da partida, a capacidade de gerar desorganização através dos movimentos sem bola poderia ter sido uma arma importante. O Brasil criou pouco por dentro e encontrou dificuldades para acelerar seus ataques. Nesse contexto, um jogador com as características de Endrick poderia oferecer soluções diferentes das apresentadas ao longo dos noventa minutos.

Antecipação também é um gesto técnico

Quando se fala em gestos técnicos, normalmente a discussão se concentra em fundamentos como passe, domínio ou posicionamento dentro de uma estrutura específica. Mas existe outro componente igualmente importante: a leitura do jogo. E essa talvez seja uma das maiores virtudes de Endrick.

Boa parte dos gols que marcaram sua trajetória surgiu da capacidade de antecipar jogadas. O atacante costuma perceber espaços antes dos defensores e atacar essas zonas com enorme agressividade. Trata-se de uma habilidade difícil de ensinar e que frequentemente diferencia bons atacantes de jogadores especiais.

Contra o Marrocos, o Brasil teve dificuldades para ocupar os espaços entre os defensores e apareceu poucas vezes em condições favoráveis dentro da área. Em partidas equilibradas e de poucas oportunidades, a capacidade de antecipação se torna ainda mais valiosa. Por isso, reduzir a discussão apenas à execução de determinados comportamentos treinados pode acabar ignorando outras qualidades igualmente importantes para o funcionamento coletivo da equipe.

O problema da pressão está no sistema

Outro argumento frequentemente citado para justificar a ausência de Endrick envolve a pressão sem bola. Ancelotti valoriza atacantes que iniciam a marcação ainda no campo ofensivo e atuam como a primeira peça de um sistema coordenado de recuperação da posse. É uma exigência compatível com o futebol moderno e que faz parte da identidade das principais seleções do mundo.

O problema é que o jogo contra o Marrocos mostrou que as dificuldades brasileiras nesse fundamento vão muito além da escolha do centroavante. Em diversos momentos da partida, a pressão da Seleção aconteceu de forma desorganizada. Um jogador avançava para pressionar o portador da bola, mas os companheiros demoravam para encurtar os espaços ao redor da jogada. Isso permitia que os marroquinos encontrassem saídas relativamente simples e escapassem da pressão sem maiores problemas.

Nesse cenário, Endrick poderia até não resolver o problema estrutural, mas certamente ajudaria a minimizar seus efeitos. O atacante reúne explosão física, velocidade e intensidade suficientes para pressionar durante longos períodos. Mais do que simplesmente correr em direção ao adversário, ele possui capacidade para fechar linhas de passe e dificultar a progressão da jogada. São características que poderiam compensar parte das falhas coletivas apresentadas pela equipe na estreia.

Um jogador que nunca parece sentir o peso do palco

A questão emocional que não pode ser ignorada. Grandes torneios costumam representar desafios psicológicos enormes para jogadores jovens. A pressão é diferente, a repercussão é maior e muitos atletas precisam de tempo para se adaptar ao ambiente de uma Copa do Mundo.

O histórico de Endrick, entretanto, sugere justamente o contrário. Desde muito cedo, o atacante demonstrou uma capacidade rara de crescer em cenários de máxima pressão. Sua estreia pela Seleção principal foi marcada por gol. Em Wembley, diante da Inglaterra, assumiu protagonismo e decidiu uma das vitórias mais importantes do ciclo recente da equipe.

No Palmeiras, sua trajetória também foi construída em momentos decisivos. O exemplo mais emblemático continua sendo a histórica virada sobre o Botafogo no Campeonato Brasileiro de 2023. Em uma das partidas mais marcantes daquela temporada, Endrick assumiu responsabilidades, decidiu o jogo e ajudou a mudar os rumos da disputa pelo título. Desde então, acumulou atuações importantes em clássicos, decisões e confrontos de alta exigência.

A estreia contra o Marrocos deixou a sensação de que alguns jogadores brasileiros sentiram o peso do primeiro jogo em uma Copa do Mundo. Igor Thiago, por exemplo, teve dificuldades para entrar na partida e pouco conseguiu participar das ações ofensivas. Endrick, por outro lado, construiu sua carreira justamente demonstrando conforto nos maiores palcos.

Mais soluções do que problemas

Nada disso significa que Endrick seja uma solução mágica para os desafios da Seleção Brasileira. O Brasil ainda precisa melhorar sua saída de bola, ajustar seu sistema de pressão e encontrar mecanismos coletivos mais eficientes para atacar equipes organizadas defensivamente. Esses problemas dificilmente serão resolvidos por um único jogador.

Ainda assim, é impossível ignorar que muitas das qualidades associadas ao atacante dialogam diretamente com as dificuldades observadas na estreia. Sua movimentação tornaria o ataque menos estático. Sua capacidade de antecipação poderia gerar mais presença dentro da área. Sua intensidade física ajudaria uma pressão que ainda parece desorganizada. E sua força mental oferece uma segurança rara para um jogador tão jovem.

Por isso, a discussão sobre sua ausência não deveria se limitar aos chamados gestos técnicos. O futebol é construído por muito mais do que movimentos repetidos em treinamento. Movimentação, leitura de jogo, capacidade física e personalidade também fazem parte da equação. E a sensação deixada pelo empate contra o Marrocos é que várias das características que faltaram ao Brasil estavam justamente sentadas no banco de reservas.

(Foto: Julio Aguilar/AFP)