A Inglaterra chega ao duelo contra a Espanha, pela Nations League, carregando uma dúvida que já acompanha a seleção há anos: por que um time com tantos jogadores de alto nível continua encontrando tantas dificuldades diante das melhores seleções do mundo?
O encontro em Wembley acontece três meses depois da eliminação inglesa para a Argentina na semifinal da Copa do Mundo. Caso tivesse avançado, o English Team teria reencontrado justamente a Espanha na decisão, repetindo a final da Euro 2024.
O retrospecto recente ajuda a explicar o questionamento. Nos últimos 15 jogos contra seleções presentes no top 10 do ranking da Fifa, a Inglaterra venceu apenas seis.
Dessas seis vitórias, três aconteceram em grandes torneios: contra Dinamarca, na semifinal da Euro 2020, Holanda, na semifinal da Euro 2024, e França, na disputa pelo terceiro lugar da Copa do Mundo de 2026.
A vitória sobre os franceses, inclusive, foi a primeira de Thomas Tuchel como técnico inglês diante de uma seleção do top 10.
Problema aparece principalmente em Copas do Mundo
O histórico da Inglaterra em Mundiais é ainda mais preocupante.
Desde 1998, a seleção inglesa foi eliminada todas as vezes em que enfrentou uma equipe do top 10 da Fifa no mata-mata da Copa do Mundo. Foram sete confrontos e sete eliminações.
Nos últimos dez jogos de Mundial diante de seleções desse grupo, a única vitória aconteceu ainda na fase de grupos de 2002, contra a Argentina.
Outro dado chama atenção: quando enfrentou o atual campeão mundial em Copas, a Inglaterra perdeu nas quatro ocasiões.
Foi assim contra o Uruguai em 1954, o Brasil em 1962, a França em 2022 e a Argentina em 2026.
Na Eurocopa, o desempenho melhora um pouco.
A Inglaterra eliminou Dinamarca e Holanda para chegar às finais de 2020 e 2024. O problema é que caiu justamente no último obstáculo, perdendo os títulos para Itália e Espanha.
Esses jogos também expuseram outra dificuldade recorrente: controlar a posse de bola quando o nível do adversário aumenta.
Contra a Argentina, na semifinal da Copa de 2026, a Inglaterra ficou com apenas 35,8% da posse. Na final da Euro 2024 contra a Espanha, o número caiu para 34,9%. Contra a Itália, em 2020, foi de 42,1%.

Kane aponta problema de mentalidade nos grandes jogos
Harry Kane acredita que a Inglaterra precisa manter sua identidade justamente nos momentos de maior pressão.
Para o maior artilheiro da história da seleção, o time muitas vezes muda seu comportamento quando enfrenta adversários de elite.
Kane citou a derrota para a Argentina como exemplo.
Segundo o atacante, a Inglaterra entrou no Mundial querendo vencer mantendo seu estilo, mas nos minutos finais da semifinal passou a jogar mais preocupada em não perder.
O resultado acabou sendo justamente aquilo que a equipe tentava evitar.
A experiência de Kane no Bayern de Munique também influenciou sua visão.
Para ele, grandes equipes não devem entrar em campo temendo o adversário. Precisam manter sua identidade, executar aquilo que sabem fazer e aceitar o resultado caso o rival seja superior.
Essa mentalidade ainda parece faltar à Inglaterra nos jogos mais importantes.

Muito talento, mas pouco controle contra a elite
A questão não começou com Thomas Tuchel.
Na Euro 2020, a Inglaterra conseguiu uma vitória importante contra a Alemanha nas oitavas de final, mas aquela seleção alemã estava fora do top 10 mundial e atravessava um período de transição.
Na final contra a Itália, o time inglês abriu o placar, recuou e permitiu que o adversário controlasse o jogo antes de perder nos pênaltis.
Na Copa de 2022, o desempenho contra a França foi melhor. A Inglaterra teve bons momentos, mas novamente caiu diante de uma seleção mais experiente em jogos decisivos.
Dois anos depois, na Euro 2024, a equipe chegou à final mesmo sem apresentar seu melhor futebol. Dependia bastante da qualidade individual e precisou de um gol de Ollie Watkins nos minutos finais para eliminar a Holanda.
Contra a Espanha, porém, não conseguiu repetir a reação.
A chegada de Tuchel trouxe expectativa de uma mudança. A Inglaterra fez uma campanha perfeita nas Eliminatórias da Copa de 2026 e chegou ao Mundial cercada por confiança.
Mesmo assim, os velhos problemas voltaram a aparecer.
O time mostrou força mental na vitória sobre o México nas oitavas, mas encontrou dificuldades para controlar o jogo quando enfrentou a Argentina.
A grande questão continua sendo transformar um elenco cheio de jogadores de classe mundial em uma equipe capaz de dominar partidas contra adversários do mesmo nível.
Talvez a solução nem seja tentar copiar seleções mais voltadas à posse.
Tuchel já admitiu que pode precisar aceitar um futebol mais caótico, enquanto Anthony Gordon defendeu que a Inglaterra explore melhor características tradicionalmente associadas ao futebol inglês, como velocidade e jogo direto.
O desafio contra a Espanha oferece mais uma oportunidade para testar essa ideia.
A Inglaterra já mostrou que consegue chegar perto dos títulos. Agora precisa provar que também consegue manter sua identidade quando encontra as melhores seleções do mundo pela frente.
Foto: Chris Brunskill/Fantasista/Getty Images


