A chegada de Carlo Ancelotti ao comando da Seleção Brasileira trouxe esperança de reconstrução, estabilidade e competitividade para a Copa do Mundo de 2026. O peso do nome, a experiência em grandes clubes e o histórico vencedor naturalmente geraram confiança em torno do projeto. No entanto, a sua convocação não agradou a todos, e alguns nomes questionados já começam a virar dor de cabeça.
Isso porque parte da espinha dorsal escolhida por Ancelotti chega cercada de questionamentos físicos, técnicos e até emocionais. E em uma Copa do Mundo, torneio curto e de margem mínima para erro, insistir em nomes por história ou confiança pessoal pode custar caro. O caso mais emblemático, sem dúvida, é o de Neymar.
Neymar volta a preocupar o Brasil
A convocação de Neymar já carregava enorme debate antes mesmo de sua nova lesão. Aos 34 anos, o atacante segue convivendo com problemas físicos constantes e não consegue manter sequência de jogos há bastante tempo. Nos últimos dias, a situação voltou a piorar após um novo problema na panturrilha enquanto defendia o Santos contra o Coritiba.
A questão já não parece mais ser apenas técnica. Neymar ainda possui talento suficiente para decidir partidas, mas seu corpo claramente deixou de responder em alto nível com regularidade. Isso transforma sua presença na Copa em uma aposta extremamente arriscada.
O próprio debate na imprensa internacional mostra isso. Um artigo recente do jornal britânico The Guardian apontou que a insistência do Brasil em Neymar lembra uma tentativa desesperada de reproduzir o “último ato” de Lionel Messi com a Argentina em 2022.
Só que há uma diferença importante: Messi chegou à Copa do Catar inteiro física e emocionalmente. Neymar chega novamente cercado por dúvidas. O mais preocupante é que o Brasil parece ainda estruturar parte do time ao redor dele. E isso pode limitar soluções coletivas justamente em um momento em que outras seleções crescem através de sistemas mais sólidos e menos dependentes de individualidades.
Alex Sandro e Danilo simbolizam desgaste físico e técnico
Outro ponto que pode gerar arrependimento para Ancelotti está na manutenção de veteranos defensivos que atravessam fase irregular no Flamengo. Danilo segue prestigiado internamente pela liderança e experiência. O problema é que o desempenho em campo já não acompanha mais o peso do nome. O defensor participou de uma temporada bastante irregular do Flamengo e foi um dos líderes do elenco em meio a atuações duramente criticadas.
Após a derrota por 3 a 0 para o Red Bull Bragantino, o próprio Danilo classificou a atuação rubro-negra como “vergonhosa” e pediu um “exame de consciência” do elenco. Além disso, Danilo sequer vive condição absoluta de titularidade no clube carioca. O que nos leva a perguntar: existe motivo para a sua convocação por Ancelotti?
Já Alex Sandro também convive com problemas físicos recorrentes. O lateral passou recentemente por nova lesão muscular e vive controle constante de carga física no Flamengo. Ancelotti claramente aposta na experiência dos dois jogadores. O problema é que Copas do Mundo frequentemente exigem intensidade física máxima, principalmente nas laterais e no sistema defensivo. E o Brasil pode acabar chegando ao torneio com atletas que já demonstram sinais claros de desgaste.
Alisson e Ederson já não passam a mesma segurança
Se defensivamente existem dúvidas físicas, no gol o cenário envolve desempenho técnico. Durante anos, Alisson e Ederson formaram talvez a dupla de goleiros mais segura do futebol mundial. Hoje, porém, ambos chegam cercados por questionamentos.
Alisson não vive sua temporada mais sólida no Liverpool. Embora continue sendo um goleiro de elite, já não transmite a mesma sensação de segurança absoluta que marcou seus melhores anos. Lesões, oscilações e um sistema defensivo menos confiável no Liverpool acabaram expondo mais suas falhas recentemente.
No caso de Ederson, o cenário parece ainda mais delicado. O brasileiro atravessa momento ruim no Fenerbahçe e já não possui o mesmo protagonismo técnico que tinha nos tempos de Manchester City. O problema não é apenas rendimento individual. É a falta de renovação clara na posição. O Brasil continua apostando nos mesmos nomes mesmo quando a curva de desempenho parece apontar queda.
O risco da nostalgia que pode fazer Ancelotti se arrepender
Talvez o maior perigo da convocação de Ancelotti seja justamente esse: o excesso de confiança em jogadores que construíram enorme reputação no passado, mas que chegam ao Mundial longe de sua melhor versão. História pesa em torneios curtos. Experiência também. Mas Copa do Mundo raramente perdoa equipes que entram emocionalmente presas ao passado.
Neymar, Danilo, Alex Sandro, Alisson e Ederson representam diferentes tipos de risco. Alguns físicos. Outros técnicos. Outros ligados à intensidade e capacidade de responder em jogos grandes atualmente.
E o mais curioso é que o Brasil possui alternativas emergentes em praticamente todas essas posições. O futebol brasileiro vive uma geração jovem extremamente talentosa, mas ainda existe certa dificuldade histórica de romper totalmente com veteranos consagrados. Isso não é culpa de Ancelotti, mas de um ciclo mal feito de seus antecessores.
Ancelotti chega justamente para administrar esse equilíbrio. O problema é que, se as apostas não funcionarem, a cobrança será inevitável. Porque em Copa do Mundo, reputação ajuda até a bola rolar. Depois disso, só desempenho salva.
Foto: Rafael Ribeiro / CBF