Com o GP de Monâco se aproximando, a FIA decidiu fazer algumas mudanças para a corrida mais esperada do ano. Nas primeiras corridas da temporada da Fórmula 1, ficou evidente que a principal questão relacionada à divisão de potência de 50:50 entre o motor de combustão interna e as novas baterias, maiores e mais potentes, está ligada à dificuldade de recuperar energia suficiente para ser utilizada nas retas.
Isso ocorre sem que os pilotos sejam obrigados a recorrer a manobras de “lift-and-coast”, técnica em que se reduz a aceleração antes da frenagem para economizar energia e, principalmente, sem sofrer os efeitos de um super-clipping extremamente agressivo.
Na próxima semana será disputado o GP de Mônaco, um circuito único dentro do calendário da F1. Seu traçado é caracterizado por frenagens frequentes, o que favorece a recuperação de energia, além de possuir retas curtas, onde a carga elétrica armazenada pode ser utilizada de forma mais eficiente.
Esse cenário altera completamente o paradigma atual das unidades de potência e destaca uma necessidade específica: limitar o uso da potência elétrica máxima disponível, de 350 kW, em velocidades significativamente mais baixas. Isso se deve justamente à ausência de áreas de escape, uma característica histórica e marcante do circuito monegasco.
Características únicas do circuito exigiram medidas específicas
Como já é amplamente conhecido, para o Grande Prêmio de Mônaco a FIA decidiu que não haverá uma zona destinada à ativação do chamado “Straight Mode” aerodinâmico. Consequentemente, as asas dos carros utilizarão uma configuração fixa de flap, determinada pelo ângulo de ataque escolhido durante os ajustes realizados pelas equipes. Isso significa que não haverá acionamento de sistemas de redução de arrasto nem na asa dianteira nem na traseira ao longo da corrida.
Entretanto, a Federação Internacional do Automobilismo entendeu que essa medida isoladamente não seria suficiente do ponto de vista da segurança. A preocupação surgiu porque foi decidido manter ativo o Overtake Mode, recurso destinado a facilitar ultrapassagens, algo tradicionalmente raro no circuito de Mônaco.
A FIA avaliou que, mesmo sem a utilização do Straight Mode, manter o mesmo perfil de uso da potência elétrica empregado em outros circuitos poderia criar situações potencialmente perigosas em um traçado tão estreito e cercado por barreiras.
Por esse motivo, foram introduzidas alterações específicas na forma como a energia elétrica poderá ser utilizada pelos carros durante o fim de semana do Grande Prêmio.
Novo perfil de utilização da potência elétrica
Essencialmente, a FIA decidiu impor um perfil de utilização dos 350 kW de potência elétrica que passa a diminuir de forma linear a partir dos 200 km/h, até ser totalmente esgotado aos 300 km/h. Na prática, o ponto de partida para a redução gradual da potência elétrica foi antecipado em 90 km/h em relação ao perfil padrão utilizado nos demais circuitos do calendário. Normalmente, essa redução começaria apenas aos 290 km/h.
Mesmo com essa alteração, o uso do Overtake Mode continuará permitido. Quando esse recurso estiver ativado, a entrega de potência sofrerá uma redução menos agressiva. Nessa configuração, a potência elétrica cai dos 350 kW aos 200 km/h para 150 kW aos 300 km/h.
A partir desse ponto, entretanto, a redução se torna muito mais acentuada. A potência elétrica disponível diminui rapidamente até atingir zero quando o carro alcança os 310 km/h. Isso significa que apenas durante uma tentativa de ultrapassagem os carros poderão dispor de 150 kW aos 300 km/h. Ainda assim, essa potência desaparecerá completamente assim que a velocidade atingir os 310 km/h.
A solução foi projetada para equilibrar dois objetivos distintos: preservar a possibilidade de ultrapassagens por meio do uso estratégico da energia elétrica e, ao mesmo tempo, impedir que os carros atinjam velocidades excessivamente elevadas em um dos circuitos mais apertados e desafiadores da temporada.
Objetivo é evitar riscos na freada da Nouvelle Chicane
Caso o perfil padrão de utilização da potência tivesse sido mantido juntamente com o Overtake Mode, a situação seria bastante diferente. Nesse cenário, a redução linear da potência elétrica só começaria após os 340 km/h. De acordo com as simulações realizadas, essa velocidade poderia ser alcançada pelos carros na saída do famoso túnel de Mônaco, uma das seções mais rápidas de todo o circuito.
A possibilidade de atingir velocidades tão elevadas naquele trecho gerou preocupação significativa entre os responsáveis pela regulamentação técnica e esportiva da categoria. Segundo a avaliação da FIA, isso teria implicações enormes para a segurança na zona de frenagem imediatamente seguinte, localizada na Nouvelle Chicane.
Após a saída do túnel, os pilotos precisam reduzir drasticamente a velocidade para contornar a chicane, um dos pontos mais críticos do circuito. Qualquer aumento significativo na velocidade máxima alcançada antes dessa frenagem elevaria consideravelmente os riscos envolvidos naquela seção da pista.
Por esse motivo, a Federação optou por modificar especificamente o perfil de utilização da potência elétrica para Mônaco, criando um limite prático para as velocidades que poderão ser alcançadas no trecho mais rápido do circuito. A decisão procura preservar a segurança dos pilotos sem eliminar completamente os recursos de desempenho e ultrapassagem previstos pelo regulamento técnico das novas unidades de potência.
Foto: (Fórmula 1)