Automobilismo Fórmula 1

Fala de Pérez prova que críticas à Red Bull são justas

A passagem de Sergio Pérez pela Red Bull deixou marcas profundas na carreira do mexicano e expôs, mais uma vez, uma dinâmica recorrente na Fórmula 1 moderna: a dificuldade quase estrutural de dividir garagem com um piloto dominante em uma equipe construída em torno dele.

Às vésperas de seu retorno ao grid em 2026, Pérez resolveu falar abertamente sobre o que considera ter sido um cenário praticamente impossível durante sua passagem pela equipe austríaca.

Sergio Perez: de solução à problema na Red Bull

Contratado como solução para estabilizar o segundo carro da Red Bull, Pérez chegou em 2021 com a missão clara de apoiar Max Verstappen na luta contra a Mercedes. Nos primeiros momentos, entregou resultados relevantes, venceu corridas, foi decisivo em estratégias e ajudou diretamente na conquista de títulos. Com o tempo, porém, o projeto que parecia sólido começou a se desgastar, e o desempenho do mexicano entrou em queda acentuada, culminando em sua demissão ao fim da temporada 2024.

O dado mais revelador talvez não esteja apenas no que Pérez viveu, mas no que veio depois. Seus substitutos, Liam Lawson e Yuki Tsunoda, repetiram o mesmo roteiro em 2025: dificuldades técnicas, eliminações precoces na classificação e, por fim, a perda da vaga. A sequência sugere que o problema ultrapassa o nível individual e aponta para um contexto mais amplo dentro da estrutura da Red Bull.

Ao descrever o ambiente interno, Pérez foi direto ao chamar a equipe de “complicada”. Segundo ele, a Red Bull tinha tudo para dominar a Fórmula 1 por uma década, mas se perdeu politicamente. A declaração não soa como exagero. Em um time moldado em torno de Verstappen, qualquer variação de desempenho do segundo piloto se transforma em fonte de tensão. Se anda mais rápido, ameaça a hierarquia. Se anda mais lento, vira um problema esportivo e midiático.

Nesse sentido, Pérez descreve um cenário de perde ou perde. Não havia margem real para acertar. Ser mais rápido que Verstappen criava instabilidade interna. Ser mais lento reforçava críticas externas e internas. O resultado era um ambiente permanentemente pressionado, onde o desempenho deixava de ser apenas uma questão técnica e passava a ser político.

A temporada de 2024 escancarou essa fragilidade. Enquanto Verstappen dominava com o RB20, Pérez lutava com um carro de comportamento difícil, especialmente em classificações. A imagem do mexicano socando o volante após sessões frustrantes virou símbolo de um desgaste maior. Segundo ele, os problemas iam além da pilotagem: faltava espaço para adaptação, para erro e até para evolução gradual.

O conceito de “equipe de um carro só” voltou à tona. Embora a Red Bull nunca tenha admitido isso oficialmente, os fatos indicam que todo o desenvolvimento gravitava em torno das preferências e do estilo de Verstappen. Em um esporte em que confiança e sintonia com o carro são decisivas, essa assimetria cobra um preço alto do outro lado da garagem.

Pérez reconhece sua parcela de responsabilidade, mas deixa claro que estava consciente do desafio desde o início. Ele nunca acreditou que chegaria à Red Bull para derrotar Verstappen. Seu papel era outro. O problema, segundo sua leitura, é que até mesmo cumprir esse papel se tornou inviável quando o ambiente passou a transformar qualquer cenário em erro.

O aprendizado, segundo Pérez, veio da necessidade de lidar com circunstâncias adversas sem recorrer à vitimização. Essa maturidade pode ser decisiva em seu retorno ao grid em 2026, agora em um contexto diferente, longe da sombra mais pesada do paddock.

A Red Bull tenta encontrar o equilíbrio para o segundo carro, mas eles conseguirão?

A história de Pérez na Red Bull não é única. Nomes como Pierre Gasly, Alex Albon e agora Lawson e Tsunoda enfrentaram obstáculos semelhantes. A diferença é que Pérez ficou tempo suficiente para expor as engrenagens internas de um modelo que prioriza a excelência absoluta de um piloto, mesmo que isso comprometa o conjunto.

Mais do que um desabafo pessoal, suas declarações funcionam como um retrato de um problema estrutural. A Red Bull continua vencendo, mas o custo desse sucesso pode estar na incapacidade de sustentar um segundo piloto competitivo. Para Pérez, a experiência foi dura, mas esclarecedora. Para a Fórmula 1, fica a pergunta: até que ponto um time pode se dar ao luxo de correr apenas com um carro de verdade?