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Automobilismo Fórmula 1

Falha de software atrasa GP de Sepang e provoca críticas de pilotos da Fórmula 1

O GP do Bahrein em Sepang já havia começado de maneira complicada por causa da forte chuva, mas o que aconteceu durante as voltas de formação adicionou um problema completamente inesperado à corrida. Diversos pilotos enfrentaram uma falha de software que fez os carros perderem resposta do acelerador quando circulavam em velocidade muito baixa.

A situação foi tão grave que a direção de prova precisou interromper o procedimento de largada e mostrar a bandeira vermelha. A FIA trabalhou em uma atualização de emergência para o software, que precisou ser instalada pelas 11 equipes antes que a corrida pudesse finalmente começar.

O episódio provocou fortes críticas dos pilotos, que questionaram novamente a enorme dependência eletrônica dos carros de 2026. Lando Norris classificou o problema como “horrível”, enquanto Sergio Pérez afirmou que o ocorrido foi “totalmente inaceitável” para a Fórmula 1.

O que aconteceu durante a volta de formação?

O problema apareceu justamente na primeira corrida de 2026 disputada em condições de chuva. Como a pista estava molhada, os carros passaram a utilizar o modo de chuva da unidade de potência, que reduz a quantidade de energia elétrica disponível para aumentar a segurança e controlar a entrega de potência.

O problema surgiu quando alguns carros começaram a circular em velocidades extremamente baixas atrás do Safety Car. Segundo Nikolas Tombazis, diretor de monopostos da FIA, houve uma espécie de efeito dominó: Max Verstappen, que estava na frente do pelotão, reduziu bastante a velocidade e os carros atrás dele também precisaram desacelerar.

Em determinados trechos do circuito, alguns monopostos chegaram quase a parar completamente. O software, porém, não conseguiu voltar a liberar a potência elétrica depois que os carros entraram nesse estado de baixa velocidade. O resultado foi uma cena completamente incomum para a Fórmula 1: carros praticamente parados na pista, alguns pilotos sem resposta adequada no acelerador e o pelotão espalhado pelo circuito.

Norris critica a complexidade dos carros de 2026

Lando Norris foi um dos pilotos mais duros ao comentar o episódio. O britânico afirmou que nunca havia visto uma corrida de Fórmula 1 ser atrasada por causa de um bug de software e classificou a situação como “horrível”. Para Norris, o incidente serviu como mais uma evidência de que a categoria talvez tenha levado a eletrônica e a complexidade das unidades de potência longe demais.

O piloto da McLaren já havia demonstrado preocupação com o peso da parte elétrica nos carros de 2026, e o problema em Sepang reforçou essa percepção. A nova geração de unidades de potência possui uma participação elétrica muito maior do que os motores anteriores, aumentando também a quantidade de sistemas eletrônicos responsáveis pelo gerenciamento da energia. Em uma situação extrema, como a encontrada em Sepang, uma falha nesse sistema acabou tendo consequências diretamente visíveis para os espectadores.

Piastri ironiza: “Você poderia empurrar o carro”

Oscar Piastri adotou um tom mais irônico ao falar sobre o episódio. O australiano contou que também ficou preso por aproximadamente um segundo e classificou a situação como bastante estranha. Segundo ele, quando o sistema elétrico não consegue funcionar corretamente, a sensação é de que não faz sentido ter um motor tão sofisticado no carro.

Piastri, no entanto, evitou apontar o dedo diretamente para a FIA ou para as equipes antes de uma explicação oficial. O australiano considerou que seria injusto fazer acusações sem saber exatamente o que havia provocado o problema, uma postura que acabou sendo relevante depois que a FIA explicou que a falha estava relacionada às condições específicas de baixa velocidade durante a volta de formação.

Pérez considera situação “totalmente inaceitável”

Sergio Pérez foi ainda mais crítico. O piloto da Cadillac comparou a sensação a estar em um kart alugado que simplesmente perdeu potência. Segundo Pérez, os pilotos pressionavam o acelerador, mas o carro não respondia como deveria.

Para o mexicano, independentemente de a FIA conseguir corrigir o problema rapidamente, o episódio não deveria ter acontecido em uma categoria do nível da Fórmula 1. A crítica ganha ainda mais peso porque os carros estavam em uma situação de chuva, quando a capacidade de resposta do acelerador e da unidade de potência é naturalmente ainda mais importante.

Bearman revela susto com pedal do acelerador

Oliver Bearman também descreveu a situação como assustadora. O piloto da Haas afirmou que seu pedal do acelerador simplesmente deixou de funcionar e que ficou surpreso ao descobrir que um sistema externo poderia interferir dessa maneira na resposta do carro.

Bearman explicou que inicialmente não sabia o que estava acontecendo e só percebeu que o problema não era exclusivo de seu carro quando viu outros competidores enfrentando dificuldades semelhantes. Para um piloto, a situação é particularmente desconfortável porque a perda de resposta do acelerador durante uma volta de formação, ainda mais em condições de pista molhada, não é algo que possa ser simplesmente resolvido pelo próprio competidor.

Alonso questiona excesso de tecnologia

Fernando Alonso também aproveitou o episódio para questionar a direção tomada pela Fórmula 1. O bicampeão afirmou que existe atualmente tecnologia demais envolvida no funcionamento dos carros e sugeriu que o público nem sempre consegue apreciar ou compreender toda essa complexidade.

A crítica de Alonso não significa necessariamente uma defesa pelo abandono imediato das unidades híbridas, mas expõe uma preocupação que vem aparecendo entre os pilotos desde a introdução dos carros de 2026: quanto mais sistemas eletrônicos controlam o funcionamento do monoposto, maior também é o risco de uma falha de software interferir diretamente na corrida. E Sepang foi justamente a demonstração mais extrema disso até agora.

Verstappen foi quem desencadeou o problema sem perceber

Curiosamente, Max Verstappen acabou tendo participação involuntária no início da confusão. O holandês estava na frente do pelotão quando reduziu bastante a velocidade. O movimento acabou contribuindo para o efeito de compressão do grupo e para que outros carros atingissem velocidades extremamente baixas em determinados setores.

O próprio Verstappen contou que, depois de perceber que havia perdido potência, olhou para os retrovisores e ficou sem entender se os pilotos atrás estavam simplesmente esperando por ele. Em determinado momento, vários carros ficaram praticamente lado a lado na reta, em velocidades muito baixas, antes que o problema fosse compreendido.

Depois, ao perceber diversos outros carros também andando lentamente, Verstappen comparou a situação a uma corrida de karts de Lego, uma imagem curiosa para descrever um dos momentos mais estranhos da temporada.

FIA explica falha e admite que os testes não foram suficientes

Depois da corrida, a FIA explicou exatamente o que havia acontecido. Segundo Nikolas Tombazis, o software responsável pelo modo de chuva havia sido testado, mas não nas condições específicas que apareceram em Sepang. A entidade não havia conseguido realizar testes suficientes em situações de pista molhada ao longo da temporada, e os testes realizados não reproduziram as velocidades extremamente baixas encontradas durante a volta de formação.

A FIA precisou então preparar uma atualização de emergência. A solução foi retirar temporariamente algumas das limitações de potência elétrica nos setores em que o problema poderia voltar a acontecer.

O ajuste foi enviado para todas as equipes, que precisaram instalar a nova versão antes da retomada do procedimento de largada. Tombazis afirmou que a atualização foi preparada rapidamente e sem comprometer a segurança ou a justiça esportiva, mas reconheceu que o problema representa uma “grande criticidade” que precisará ser analisada internamente.

Um alerta para a Fórmula 1

O problema de Sepang acabou sendo resolvido e não impediu que a corrida fosse realizada. No entanto, deixou uma questão importante para a categoria. Os carros de 2026 são extremamente sofisticados e dependem de uma quantidade enorme de software para administrar a entrega de potência, especialmente com o aumento da participação elétrica nas unidades de potência.

Em uma corrida de chuva, justamente quando as condições exigem maior previsibilidade e controle, uma falha desse tipo fez com que os pilotos perdessem parte da capacidade de controlar seus próprios carros. A FIA já afirmou que o problema específico deverá ser corrigido, mas também reconheceu que não pode garantir que outros bugs não apareçam no futuro.

Para os pilotos, porém, a mensagem depois de Sepang foi bastante clara: a tecnologia pode tornar a Fórmula 1 mais eficiente e sofisticada, mas não pode chegar ao ponto de tirar dos competidores o controle básico de seus próprios carros.

Foto: (Reprodução/Motor Sport Images)