A luta entre Ian Machado Garry e Carlos Prates no UFC Kansas City foi um duelo de estratégias distintas e revelações importantes para o futuro dos dois atletas. Dentro do octógono, ficou claro que ambos possuem qualidades para estar entre os melhores da divisão, mas também carregam falhas que precisam ser corrigidas para que possam chegar ao topo.
No entanto, ambos saem fortalecidos do confronto por diversos motivos. Enquanto Garry conseguiu mostrar, novamente, que está disposto a lutar contra qualquer um e vai entrar no top 5 do ranking, Prates lutou de igual para igual contra um dos legítimos contenders da divisão.
Erros estratégicos e falta de gás: os problemas de Carlos Prates
Carlos Prates começou travado. Demorou muito para encontrar a sua distância ideal e, enquanto isso, desperdiçou oportunidades preciosas. Seu grande erro foi abrir mão do jab, uma ferramenta essencial para controlar a distância e preparar a entrada da sua potente mão esquerda. Sem essa arma básica, Prates ficou previsível e permitiu que Garry controlasse o ritmo e a distância da luta. O brasileiro tem uma esquerda devastadora, capaz de decidir lutas com um golpe, mas não soube construí-la com a paciência e a cadência que um jab eficiente proporciona.
Nos primeiros rounds, Prates apostou em potência, tentando encurtar a distância sem preparação adequada. Esse caminho facilitou o trabalho de Garry, que se aproveitou da previsibilidade do oponente para ditar o ritmo. Ainda assim, no fim da luta, especialmente no quinto round, Prates mostrou que tem capacidade para competir em alto nível: quando começou a soltar o jogo, colocou pressão real e deixou Garry desconfortável. Foi nesse momento que Prates brilhou, mostrando coração, potência e a capacidade de crescer diante da adversidade, qualidades que são fundamentais no UFC.
Garry é um lutador que se agarra ao plano de jogo, mas não sabe sair dele
Do outro lado, Ian Machado Garry executou um plano tático quase perfeito nos três primeiros rounds. Trabalhou com alto volume de golpes, não deixou Prates se estabelecer em momento algum e usou chutes altos de forma inteligente para minar a principal arma do adversário, a esquerda. Sua movimentação lateral foi constante, e ele não dava alvos fixos para Prates, frustrando as tentativas de ataque.
Garry também soube mesclar bem o ritmo das suas ações. Alternou combinações rápidas com ataques isolados, sempre buscando manter Prates na defesa. Essa variação é o que separa lutadores mecanizados dos estrategistas, e Garry demonstrou ser este último. Sua inteligência de luta ficou evidente ao perceber rapidamente que precisava minar a mão esquerda do brasileiro. Com uma sequência de chutes altos e golpes circulares, ele foi tirando a explosão do adversário, enfraquecendo sua maior ameaça.
No entanto, a luta também revelou uma vulnerabilidade importante em Garry: ele tem dificuldade para lidar quando o confronto sai do seu controle. Quando Prates finalmente cresceu na luta, especialmente no quarto round, Garry não respondeu com a mesma segurança. Ficou mais hesitante, expôs brechas na defesa e mostrou que ainda precisa evoluir para ser um contender consistente.
A reação de Prates no final evidenciou que, contra adversários de elite, que não se intimidam fácil, Garry pode se complicar. A pressão constante e o aumento do volume de golpes desestabilizaram seu plano inicial. Sua movimentação ficou menos fluida e sua defesa mais exposta. É um ponto de atenção que futuros adversários certamente vão explorar.
Questões pontuais precisam ser corrigidas, mas ambos saem com moral
Em resumo, Garry saiu com a vitória e provou sua inteligência estratégica, mas também deixou sinais claros de que há espaço para ajustes. Mostrou um arsenal técnico refinado, especialmente em luta a distância, mas precisa desenvolver melhor suas respostas quando a luta esquentar e o controle escapar.
Já Prates, apesar da derrota, mostrou que tem poder de fogo e potência para crescer no futuro, desde que ajuste seus fundamentos básicos, como o uso do jab e a busca ativa pela distância correta. Se conseguir lapidar essas ferramentas, pode se tornar um adversário ainda mais perigoso, capaz de mudar o curso de uma luta com um único golpe.
O combate em Kansas City deixou claro que tanto Garry quanto Prates têm futuro promissor, mas também que a elite da divisão é implacável com falhas. A vitória ficou com Garry, mas o aprendizado foi para ambos. Agora, cabe a cada um voltar ao camp e trabalhar duro para corrigir as brechas expostas. No UFC, quem não evolui rapidamente acaba ficando para trás.
(Foto: Getty Images)