A Ferrari é a maior vencedora do Mundial de Construtores da Fórmula 1, com 16 troféus ao longo de sua história. Ainda assim, a equipe mais tradicional do grid atravessa o maior jejum desde a criação da categoria: o último título veio em 2008, há 17 anos. Desde então, a Scuderia acumulou frustrações, reestruturações e promessas não cumpridas. Agora, diante da revolução técnica prevista para 2026, o time de Maranello se organiza para tentar, mais uma vez, sair da fila.
Antes de olhar para o futuro, o passado recente ajuda a dimensionar o tamanho do desafio. Estes são os períodos mais longos da Ferrari sem conquistar o Mundial de Construtores na Fórmula 1:
- 17 anos (2008 – atual)
- 15 anos (1984 – 1998)
- 10 anos (1965 – 1974)
O atual intervalo sem títulos já é o maior da história da equipe, superando inclusive o período que antecedeu a era de ouro com Michael Schumacher, no fim dos anos 1990 e início dos 2000.
Apostando alto no novo regulamento
A principal estratégia da Ferrari para 2026 é tentar largar na frente em meio às profundas mudanças no regulamento técnico da Fórmula 1. Ainda em abril de 2025, a equipe tomou uma decisão significativa: interromper o desenvolvimento de atualizações relevantes para o carro daquela temporada. A constatação interna era clara — não haveria como acompanhar o ritmo imposto pela McLaren na disputa direta pelo título. Com isso, os dirigentes optaram por redirecionar recursos humanos e financeiros para o projeto de 2026.
O novo regulamento traz transformações importantes, começando pela unidade de potência. Os motores terão eletrificação ampliada, com maior participação do sistema elétrico no desempenho total do carro. Atenta a isso, a Ferrari planeja uma mudança operacional no pit-wall, com a presença de um engenheiro dedicado exclusivamente ao ERS (sistema de recuperação de energia). A ideia é auxiliar os pilotos no gerenciamento da parte elétrica da unidade de potência, impactando diretamente o ritmo de corrida e as estratégias, especialmente em disputas roda a roda.
A aerodinâmica também passará por uma revolução. O DRS, ferramenta usada para facilitar ultrapassagens desde 2011, será eliminado. Em seu lugar, entra a chamada aerodinâmica ativa, com asas dianteiras e traseiras ajustáveis automaticamente ou por comando, dependendo da fase da pista. Haverá modos específicos para retas, entradas de curva e outros cenários, o que exigirá integração ainda maior entre piloto, engenheiros e software.
Cautela no discurso e expectativas controladas
Apesar da aposta agressiva no novo ciclo técnico, a Ferrari adota um tom cauteloso publicamente. O chefe da equipe, Frédéric Vasseur, afirmou que a primeira corrida de 2026, na Austrália, deve oferecer apenas uma fotografia inicial de quem começou melhor o desenvolvimento. Segundo ele, o campeonato tende a ser uma “longa jornada”, com mudanças significativas ao longo da temporada.
Charles Leclerc reforçou essa visão. Para o monegasco, o verdadeiro cenário competitivo só ficará claro entre a sexta e a sétima etapa do campeonato, quando as equipes já terão ajustado conceitos e entendido melhor os limites do novo regulamento.
Outro ponto de atenção é o rendimento de Lewis Hamilton. O heptacampeão viveu um ano difícil, marcado por desempenho abaixo do esperado e problemas de adaptação dentro da equipe. A Ferrari espera que, com um carro totalmente novo e um ciclo técnico reiniciado, Hamilton consiga entregar um nível mais próximo daquele que o consagrou como um dos maiores nomes da história da Fórmula 1.
Ferrari sofre com desconfiança externa
Mesmo com planejamento e investimento, a Ferrari ainda enfrenta desconfiança fora dos muros de Maranello. Na semana passada, o ex-presidente da equipe, Luca Montezemolo, ironizou a possibilidade de um novo título da Scuderia. Segundo ele, seria mais fácil o Bologna, tradicional clube da Série A italiana, conquistar um campeonato nacional antes dos carros vermelhos voltarem ao topo da Fórmula 1 — vale lembrar que o Bologna não vence a liga desde 1964.
A declaração soa exagerada, mas reflete o ceticismo que ronda a Ferrari após tantos anos de promessas frustradas. Ainda assim, em um cenário de mudanças profundas como o de 2026, desacreditar a maior campeã da história da categoria pode ser um erro. Em uma Fórmula 1 reiniciada, tradição, estrutura e capacidade técnica podem, finalmente, voltar a pesar a favor da Scuderia.
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