Charles Leclerc, vencedor do GP de Silverstone, quebrou um jejum de quase dois anos sem vitórias na Fórmula 1 e foi um dos assuntos mais falados no último fim de semana no mundo do automobilismo. “LECLERC” foi a manchete estampada na capa do tradicional jornal esportivo italiano de páginas rosas, acompanhada por uma coroa sobre a letra “R”, simbolizando um retorno ao topo para Charles Leclerc, que se recuperou de um período difícil ao conquistar sua primeira vitória desde o Grande Prêmio dos Estados Unidos de 2024.
Não foi apenas Leclerc que conseguiu dar a volta por cima. Com o monegasco e seu companheiro de equipe, Lewis Hamilton, agora também entre os vencedores, a Ferrari triunfou em duas das últimas três corridas. Graças às grandes melhorias implementadas no SF-26 durante a etapa da Espanha, a equipe parece estar definitivamente de volta à disputa pelo título, reduzindo em 20 pontos a vantagem da Mercedes após a corrida em Silverstone. A diferença, que antes parecia muito mais confortável, agora caiu para administráveis 78 pontos.
A Mercedes ainda pode possuir, em média, o carro e o conjunto de unidade de potência mais rápidos na maior parte das condições. Ainda assim, a Ferrari está muito próxima em desempenho e enfrentou bem menos problemas de confiabilidade com suas novas unidades de potência do que as Flechas de Prata.
Com pelo menos 13 Grandes Prêmios ainda pela frente, ou 14, caso a direção da Fórmula 1 consiga recuperar o GP do Bahrein para o calendário, a temporada de 2026 caminha para contrariar as expectativas existentes antes do início do campeonato. Em vez de assistir a uma equipe disparando na liderança, tudo indica que haverá uma disputa equilibrada na parte da frente do grid.
Naturalmente, a Itália também despertou para essa possibilidade. Depois de um período de desânimo causado pelo domínio da Mercedes nas primeiras corridas do ano, a tradicional febre pela Ferrari voltou a crescer entre os torcedores italianos.
O trabalho paciente de Fred Vasseur
Esse entusiasmo apaixonado faz da Ferrari uma equipe absolutamente única no esporte. Poucas organizações esportivas conseguem mobilizar um país inteiro em torno de uma única marca como a escuderia de Maranello faz há décadas. Ao mesmo tempo, essa paixão também pode se transformar em um fator de distração e instabilidade. É justamente nesse cenário que um líder como Fred Vasseur pode fazer toda a diferença.
O francês assumiu o cargo de chefe de equipe da Ferrari em janeiro de 2023, mas pode-se dizer que apenas neste ano, impulsionado pelas profundas mudanças no regulamento técnico, teve tempo suficiente para realmente deixar sua marca na equipe. Parte dessa demora é simplesmente consequência do tempo necessário para transformar uma estrutura gigantesca. Seja para implantar uma nova cultura de trabalho, estabelecer uma abordagem diferente ou atrair profissionais de alto nível, mudanças dessa dimensão não acontecem rapidamente.
Uma das primeiras decisões importantes de Vasseur foi contratar Loic Serra, então diretor técnico da Mercedes, em julho de 2023. Entretanto, Serra só começou efetivamente seu trabalho em 2025, tornando o projeto do carro de 2026 o primeiro totalmente desenvolvido sob sua orientação.
Outra contratação considerada fundamental por Vasseur foi a de Lewis Hamilton. O heptacampeão mundial também precisou de aproximadamente um ano para se adaptar ao novo ambiente e começar a exercer um impacto significativo dentro da equipe.
Vasseur sempre trabalhou pensando no longo prazo, porque, na Fórmula 1, essa costuma ser a única estratégia realmente eficaz. Os tifosi e boa parte da imprensa italiana, porém, normalmente não enxergam as coisas dessa forma. Quando a Ferrari perde no domingo, o desespero costuma aparecer já na segunda-feira.
O momento mais difícil de sua gestão aconteceu no verão passado. Naquele período, a Ferrari já não conseguia competir em igualdade com a McLaren e, por isso, decidiu interromper o desenvolvimento do carro de 2025 ainda em abril, concentrando completamente seus esforços no projeto de 2026.
Durante algumas semanas bastante turbulentas, surgiram rumores de que Christian Horner ou Antonello Coletta, responsável pelo programa de carros esportivos da Ferrari, poderiam substituir Vasseur no comando da equipe. A direção da Ferrari, no entanto, encerrou rapidamente as especulações ao renovar o contrato de seu chefe de equipe.
Embora tenha ficado incomodado com os rumores e com o efeito que eles causaram sobre os funcionários em Maranello, Vasseur continuou defendendo a necessidade de evitar reações exageradas sempre que algo dava errado. Em vez disso, insistia que a equipe deveria concentrar seus esforços em melhorar continuamente todos os setores, passo a passo, independentemente de o fim de semana anterior ter sido bom ou ruim. Essa filosofia envolvia desde as operações na pista e as estratégias de corrida até a criação de uma mentalidade mais ousada e menos avessa ao risco dentro da fábrica.
Pés no chão mesmo após as vitórias
Da mesma forma que não se deixou abater durante os momentos difíceis, Vasseur também não pretende se empolgar excessivamente agora que a Ferrari voltou a vencer com frequência. Enquanto a Itália começa novamente a ser tomada pela febre vermelha, o dirigente francês é justamente quem tenta reduzir a euforia diante da possibilidade da primeira verdadeira disputa pelo título da Ferrari desde, possivelmente, 2022.
Um fim de semana desastroso na Áustria serviu como exemplo recente de que a equipe precisa continuar executando seu trabalho corrida após corrida, sem permitir que um bom ou um mau resultado altere sua maneira de trabalhar. “Temos de começar do zero a cada fim de semana. Não existe nada de mágico”, afirmou Fred Vasseur.
Quando foi questionado em Silverstone sobre a possibilidade de a Ferrari disputar o campeonato, respondeu: “A disputa pelo campeonato é uma expressão de vocês. Depois de Barcelona, ouvi comentários dizendo: ‘A Ferrari voltou para a luta pelo campeonato’. Eu respondi que não. Na semana seguinte, vocês disseram: ‘A Ferrari não está em lugar nenhum’. Eu também respondi que não. Amanhã de manhã terei exatamente a mesma conversa com todos na fábrica. Vou dizer: ‘Pessoal, tivemos um bom fim de semana. Agora vamos nos concentrar em Spa. Isso não significa que somos campeões. Também não significa que não estamos em lugar nenhum. Estamos melhorando passo a passo.'”
“Eu nunca tento tirar conclusões depois de uma corrida, duas corridas, um bom resultado ou um mau resultado. Meu foco está apenas em fazer mais e fazer melhor. Acho que isso vale para mim e também para todas as pessoas da fábrica. Falar sobre campeonato é o trabalho de vocês. Eu nunca fiz isso.” continuou Vasseur.
Mesmo mantendo seu tradicional bom humor, Vasseur demonstrou surpresa quando outro jornalista insistiu novamente na mesma pergunta sobre o campeonato. Ainda assim, foi sua resposta a uma questão posterior, relacionada à etapa de Spa, que resumiu perfeitamente sua filosofia para o restante da temporada.
Uma liderança firme em um ambiente de enorme pressão
“Temos de começar do zero a cada fim de semana. Não existe nada de mágico. Não podemos imaginar que vamos encontrar cinco ou seis décimos de segundo de uma semana para outra. O que fará a diferença será a soma de pequenos ganhos em todas as áreas.” disse Vasseur.
Aos 58 anos, Vasseur costuma minimizar sua própria participação na lenta, porém consistente, transformação da Ferrari. Ele chegou a afirmar que teve “mérito zero” na evolução recente de Lewis Hamilton, apesar do trabalho evidente realizado para tornar o britânico mais confortável em seu novo ambiente.
Entretanto, além de promover mudanças na cultura da equipe, melhorar sua operação e atuar com eficiência nos bastidores políticos da Fórmula 1, talvez sua maior contribuição neste momento seja justamente exercer o papel de um comandante sereno, capaz de conduzir a Ferrari em meio às constantes turbulências de um dos cargos mais pressionados de todo o esporte.
Talvez seja exatamente por isso que o francês tenha sido a escolha ideal para a função. Como alguém de fora da Itália, ele compreende perfeitamente o peso das expectativas dos torcedores e da imprensa italiana, mas possui experiência e equilíbrio suficientes para não ser levado pelas enormes ondas de pressão que constantemente atingem a equipe de Maranello.
Foto: (Motorsport Media)