Bélgica - Lukaku e De Bruyne
Futebol Copa do Mundo

O fim da geração de ouro: Bélgica encerra um ciclo histórico após eliminação para a Espanha na Copa do Mundo

A eliminação da Bélgica para a Espanha nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026 pode representar muito mais do que o fim da campanha da seleção no torneio. A derrota por 2 a 1, decidido nos minutos finais após uma falha do goleiro Senne Lammens, tem tudo para marcar a despedida definitiva da chamada geração de ouro do futebol belga dos Mundiais.

Durante mais de uma década, nomes como Thibaut Courtois, Kevin De Bruyne, Romelu Lukaku e Axel Witsel foram os principais responsáveis por transformar a Bélgica em uma das seleções mais respeitadas do planeta. O país, que nunca havia conquistado uma Copa do Mundo, passou a frequentar as fases decisivas dos grandes torneios e chegou a ocupar o primeiro lugar do ranking da Fifa por diversos anos.

Entretanto, apesar do enorme talento reunido, o título mundial nunca chegou. Agora, com boa parte desse elenco já em fase final de carreira, a Bélgica inicia um processo inevitável de renovação. A derrota para a Espanha simboliza justamente a passagem de bastão entre uma geração que marcou época e outra que tentará escrever sua própria história.

Uma geração que mudou o patamar da Bélgica no futebol mundial

Bélgica
Foto: Imago

Quando a Bélgica estreou na Copa do Mundo de 2014 contra a Argélia, poucos países possuíam um elenco tão recheado de estrelas.

Naquela equipe estavam Courtois, De Bruyne, Lukaku, Witsel, Eden Hazard, Vincent Kompany, Mousa Dembélé, Dries Mertens, Marouane Fellaini e diversos jogadores que brilhavam nas principais ligas da Europa. Era uma seleção formada quase inteiramente por atletas que atuavam em gigantes do futebol mundial.

Os resultados começaram a aparecer rapidamente.

Depois de ficar fora das Copas de 2006 e 2010, os belgas retornaram ao Mundial chegando às quartas de final no Brasil. Quatro anos mais tarde, realizaram a melhor campanha da história do país ao alcançarem as semifinais da Copa da Rússia e terminarem na terceira colocação, derrotando a Inglaterra na disputa pelo terceiro lugar.

Além disso, o mesmo grupo também chegou às quartas de final das Eurocopas de 2016 e 2020.

Mesmo sem levantar troféus, a Bélgica permaneceu durante anos entre as principais seleções do planeta. O problema é que a enorme qualidade individual dos jogadores fez crescer uma expectativa talvez impossível de ser atendida.

O jornalista espanhol Guillem Balague resumiu bem esse debate ao afirmar que uma “geração de ouro” precisa conquistar títulos para justificar essa denominação.

Ao mesmo tempo, ele lembra que talvez as cobranças tenham ignorado a realidade do futebol internacional.

A Bélgica possui pouco menos de 12 milhões de habitantes, número muito inferior ao de potências tradicionais como Alemanha, França, Inglaterra, Espanha ou Itália. Mesmo assim, conseguiu competir de igual para igual durante praticamente uma década contra países com muito mais jogadores disponíveis e uma tradição muito maior.

Nesse contexto, alcançar o terceiro lugar em uma Copa do Mundo talvez represente uma conquista muito maior do que normalmente recebe reconhecimento.

O erro de Lammens simboliza a passagem de bastão

 (Foto: David Ramos/Getty Images)

A despedida da geração de ouro aconteceu de forma cruel.

Com Courtois lesionado e fora da reta final da partida, a responsabilidade passou para Senne Lammens, goleiro de apenas 24 anos apontado como um dos nomes da renovação belga.

A poucos minutos do fim, ele não conseguiu segurar uma finalização da Espanha e ofereceu o rebote para Mikel Merino marcar o gol da classificação.

O erro acabou sendo decisivo, mas dificilmente resume a qualidade do jovem goleiro.

Stephen Warnock lembrou que Lammens praticamente não havia cometido falhas durante sua temporada pelo Manchester United. No entanto, atuar em uma Copa do Mundo, defendendo uma seleção que tenta manter vivo o sonho de toda uma geração, representa um nível de pressão completamente diferente.

A imagem também possui forte simbolismo.

Enquanto um dos jogadores mais experientes da história da Bélgica deixava o gramado machucado, um representante da nova geração acabava envolvido no lance que definiu a eliminação.

Foi como se o ciclo entre passado e futuro acontecesse diante dos olhos dos torcedores.

O técnico Rudi Garcia deixou claro que lamenta principalmente a forma como seus jogadores veteranos encerraram a trajetória.

Segundo ele, o objetivo era proporcionar uma última grande campanha para atletas que dedicaram tantos anos à seleção. Para o treinador, todos eles mereciam ter ido mais longe na competição.

Além de Courtois, Lukaku, De Bruyne e Witsel, outros nomes experientes como Leandro Trossard, Thomas Meunier, Hans Vanaken, Timothy Castagne e Brandon Mechele provavelmente também disputaram seus últimos minutos em uma Copa do Mundo.

A nova geração oferece motivos para acreditar

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Foto: FIFA

Apesar da eliminação, a Bélgica deixa a Copa com motivos para olhar o futuro com otimismo.

Treze jogadores do elenco possuem 25 anos ou menos, mostrando que a renovação já começou.

Charles De Ketelaere talvez seja o principal exemplo.

Depois de uma temporada discreta na Série A italiana, com apenas três gols em 31 partidas, o atacante respondeu justamente na maior competição do futebol mundial. Marcou três gols na Copa e terminou como um dos artilheiros da seleção, além de contribuir com uma assistência e boa movimentação ofensiva.

Outro nome importante foi Youri Tielemans.

Aos 29 anos, o meio-campista já representa uma ponte entre as duas gerações. Foi decisivo na virada sobre o Senegal ao marcar tanto o gol de empate quanto o da vitória na fase de 16 avos de final.

Jeremy Doku continua sendo considerado um dos jogadores mais talentosos do elenco. Embora não tenha repetido o excelente desempenho apresentado pelo Manchester City durante a temporada europeia, ainda possui idade suficiente para liderar a seleção nos próximos anos.

Amadou Onana também mostrou evolução importante antes de sofrer uma grave lesão no ligamento cruzado anterior durante o confronto contra os Estados Unidos.

Rudi Garcia acredita que a experiência desta Copa será fundamental para acelerar o amadurecimento desses atletas.

Segundo o treinador, derrotas também fazem parte do processo de construção de uma equipe vencedora.

Ele destacou que a Bélgica competiu em alto nível diante da Espanha, mesmo enfrentando uma série de dificuldades durante a partida. A lesão de Courtois, a necessidade de substituir Kevin De Bruyne e outros problemas acabaram comprometendo o plano de jogo elaborado pela comissão técnica.

Ainda assim, Garcia considera que a equipe demonstrou personalidade suficiente para equilibrar o confronto contra uma das favoritas ao título.

O legado permanece maior do que os títulos conquistados

(Photo by Alex Pantling – FIFA/FIFA via Getty Images)

A discussão sobre a geração de ouro belga provavelmente continuará durante muitos anos.

Sempre haverá quem argumente que um grupo formado por Courtois, De Bruyne, Lukaku, Hazard, Kompany e tantos outros deveria ter conquistado uma Copa do Mundo ou uma Eurocopa.

Por outro lado, também é impossível ignorar o impacto que esses jogadores tiveram no futebol do país.

Eles transformaram uma seleção que frequentemente ficava fora dos grandes torneios em presença constante entre as favoritas. Colocaram a Bélgica no topo do ranking mundial, disputaram semifinais de Copa do Mundo e enfrentaram de igual para igual praticamente todas as grandes potências do futebol internacional.

Talvez a maior herança dessa geração não seja uma taça.

Ela está justamente na nova safra de jogadores que cresce acreditando que a Bélgica pertence à elite do futebol mundial. Charles De Ketelaere, Jeremy Doku, Amadou Onana, Senne Lammens e tantos outros iniciaram suas carreiras observando De Bruyne, Lukaku e Courtois levarem a seleção a um patamar jamais alcançado anteriormente.

O próprio Courtois resumiu esse momento antes do torneio ao afirmar que uma nova era estava começando.

A eliminação para a Espanha encerra um ciclo histórico, mas também abre espaço para que novos protagonistas assumam a responsabilidade.

A geração de ouro talvez nunca tenha conquistado o troféu mais importante do futebol. Ainda assim, deixou algo igualmente valioso: uma Bélgica acostumada a disputar grandes competições, respeitada pelos adversários e preparada para continuar sonhando alto nas próximas Copas do Mundo.

(Foto de capa: Reuters/Blake Dahlin)

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Kaique