Futebol Libertadores

Fluminense paga pela falta de eficiência ofensiva no confronto, mas eliminação na Libertadores não acaba com a temporada; confira a análise

O Fluminense esteve a poucos minutos de transformar a semifinal da Libertadores em mais uma noite histórica, mas acabou eliminado pelo Palmeiras nos pênaltis, após vencer por 1 a 0 no Nubank Parque e igualar o placar agregado em 2 a 2. O gol de Hércules recolocou o Tricolor na disputa e alimentou a esperança de uma nova virada épica, mas a derrota por 5 a 3 nas cobranças encerrou a trajetória continental de uma equipe que, justamente em seu melhor momento no mata-mata, voltou a experimentar a dor de uma eliminação difícil de assimilar.

Depois de passar 15 anos tentando superar o trauma da derrota para a LDU na final de 2008, o Fluminense voltou a se aproximar de uma decisão continental, mas viu a oportunidade escapar em um dos momentos mais cruéis do futebol. A eliminação não apaga o que a equipe construiu ao longo da campanha, mas deixa uma contradição evidente: o time encontrou diante do Palmeiras uma atuação competitiva, conseguiu levar a disputa até os pênaltis e, ainda assim, não alcançou a final.

O Fluminense repetiu o roteiro da ida, mas encontrou outro Palmeiras

A partida de volta teve semelhanças com o primeiro confronto, disputado no Maracanã, especialmente pela maneira como o Fluminense controlou a posse de bola sem conseguir transformá-la em oportunidades claras. Marcão manteve a estrutura utilizada no Rio de Janeiro, com Hércules substituindo Martinelli, lesionado, e viu sua equipe assumir a iniciativa diante de um Palmeiras confortável em defender e esperar por espaços para contra-atacar.

A principal oportunidade tricolor no primeiro tempo surgiu logo no início. Após uma troca rápida de passes, Hulk encontrou Guilherme Arana em condição de finalizar diante de Carlos Miguel, mas o lateral bateu sem força e facilitou a defesa do goleiro. A jogada indicava que o Fluminense poderia explorar as dificuldades defensivas do adversário, mas a equipe não conseguiu repetir a mesma velocidade nas construções seguintes. Ao longo da etapa inicial, foram apenas duas finalizações, com somente uma delas acertando o alvo.

O Palmeiras, por sua vez, aceitou passar boa parte do tempo sem a bola e procurou controlar os espaços próximos à própria área. A estratégia reduziu as possibilidades de infiltração do Fluminense, mas também ofereceu ao time carioca a oportunidade de permanecer no campo ofensivo. A diferença em relação ao jogo de ida estava na eficiência: se o Verdão havia conseguido aproveitar uma de suas oportunidades no Maracanã, desta vez não encontrou a mesma precisão quando teve espaço para atacar.

A melhor chance palmeirense da primeira etapa apareceu quando Piquerez superou Guga em velocidade e cruzou para Giay. O lateral-direito finalizou de primeira, mas mandou a bola para fora. O lance mostrou que o Fluminense também precisava ter cuidado com as transições, embora o adversário não tenha conseguido transformar suas chegadas em vantagem no placar.

O equilíbrio, portanto, não significava que o Tricolor estivesse dominando completamente a eliminatória. A equipe tinha mais iniciativa, mas encontrava dificuldades para romper a organização defensiva palmeirense. Ao mesmo tempo, o Palmeiras não produzia o suficiente para afastar o risco de sofrer um gol. O jogo permaneceu preso a esse cenário durante boa parte do confronto, até que as mudanças de Marcão deram ao Fluminense uma nova possibilidade de atacar.

As substituições de Marcão mudaram o rumo da semifinal

O segundo tempo começou com uma tentativa de aumentar a intensidade tricolor. A entrada de Serna no lugar de Savarino, que teve uma atuação apagada, melhorou a recomposição e a pressão no campo de ataque, mas não resolveu imediatamente o problema ofensivo. O Fluminense continuava encontrando dificuldades para transformar a posse de bola em chances claras, enquanto o Palmeiras crescia à medida que alguns jogadores importantes dos cariocas, como Ganso e Hulk, demonstravam sinais de desgaste.

A mudança mais decisiva aconteceu aos 34 minutos da etapa final, quando Marcão retirou Canobbio e Guga para colocar Samuel Xavier. A partir dali, o Fluminense encontrou a combinação que precisava para finalmente superar Carlos Miguel. A jogada reuniu participação de jovens e experiência: Samuel Xavier tabelou com Hulk, a bola chegou a Serna, que participou da construção, e Hércules recebeu na entrada da área para finalizar colocado e marcar o gol que igualou o placar agregado.

O lance teve importância não apenas pelo resultado, mas pela maneira como surgiu. Depois de um período em que a equipe mantinha a posse sem encontrar espaços, o gol nasceu de uma sequência objetiva, com movimentação e velocidade para desorganizar a defesa palmeirense. Hércules voltou a aparecer em um momento decisivo da campanha, confirmando sua importância em uma equipe que precisava de uma jogada individual e coletiva para continuar sonhando com a final.

O Fluminense, porém, não conseguiu aproveitar o impulso do gol para construir uma segunda oportunidade clara. A equipe passou a buscar contra-ataques quando o Palmeiras se lançava ao ataque, enquanto os paulistas tentavam encontrar o empate que evitaria a disputa por pênaltis. O Tricolor conseguiu sustentar a vantagem mínima até o apito final, mas não ampliou o placar, e a classificação passou a depender das cobranças.

A escolha de Marcão pelas substituições merece destaque porque demonstrou que o treinador conseguiu encontrar uma solução em um jogo que parecia caminhar para um desfecho favorável ao Palmeiras. O gol de Hércules não foi consequência de uma pressão ofensiva constante, mas de uma alteração que ajudou a criar uma nova dinâmica na reta final. A equipe mostrou capacidade de reagir, embora não tenha conseguido repetir a eficiência necessária para resolver a eliminatória antes dos pênaltis.

A disputa de pênaltis transformou Nonato em um personagem injustiçado

Quando o confronto chegou às penalidades, o Fluminense já havia feito o suficiente para manter viva a possibilidade de classificação, mas a disputa passou a depender de um tipo de pressão diferente daquela enfrentada durante os 90 minutos. O Palmeiras venceu por 5 a 3 e confirmou a vaga na final, enquanto Nonato acabou associado à eliminação por causa de sua cobrança.

A disputa de pênaltis tem uma característica que torna esse tipo de desfecho especialmente doloroso: ela pode transformar um jogador que teve boa atuação durante a partida no principal símbolo de uma derrota coletiva. Nonato esteve entre os destaques do Fluminense, mas acabou exposto ao peso do resultado em um momento no qual o desempenho anterior pouco importa para a percepção imediata da torcida.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que a eliminação é tão difícil de aceitar. Durante a maior parte do confronto, o Fluminense tentou encontrar espaços, corrigiu problemas com as substituições e marcou o gol necessário para levar a disputa adiante. A equipe não conseguiu concluir a missão, mas reduzir toda a campanha ou a atuação de um jogador a uma cobrança de pênalti seria ignorar o contexto que levou o Tricolor até aquele momento.

Isso não significa que a eliminação deva ser tratada como um resultado indiferente ou que a responsabilidade esportiva desapareça diante da crueldade das cobranças. O Fluminense teve oportunidades para buscar o gol mais cedo e não conseguiu produzir volume ofensivo suficiente durante boa parte da partida. Ainda assim, quando a equipe finalmente encontrou o caminho para igualar o agregado, mostrou que tinha condições de competir pela vaga. A derrota nos pênaltis não elimina essas evidências, embora seja o resultado que determinará como a semifinal será lembrada.

O trauma de 2008 volta à memória, mas a temporada ainda oferece uma resposta

A eliminação inevitavelmente recupera a lembrança de 2008, quando o Fluminense perdeu a final da Libertadores para a LDU nos pênaltis, no Maracanã. A conquista continental de 2023 havia representado uma resposta histórica àquela frustração, mas não tornou o clube imune à dor de perder uma oportunidade em uma disputa eliminatória. Em 2026, o cenário é diferente, porque o Tricolor caiu na semifinal, e não na decisão, mas a sensação de ver um objetivo escapar nas cobranças aproxima os dois episódios.

Existe, contudo, uma diferença importante entre reviver um trauma e permanecer preso a ele. O Fluminense já demonstrou que é capaz de reconstruir sua trajetória continental, superar frustrações e voltar a competir por títulos. A eliminação diante do Palmeiras é um revés esportivo, mas não precisa determinar o que virá a seguir. O risco está em permitir que o resultado apague os sinais positivos apresentados durante a campanha e transforme a dor em uma avaliação definitiva sobre o trabalho realizado.

O desafio imediato será retomar o foco na reta final da temporada. Restam sete partidas para o Fluminense buscar os resultados necessários para voltar à Libertadores em 2027, objetivo que ganha ainda mais importância depois de uma eliminação como essa. Permanecer entre os participantes do torneio não garante uma nova campanha de sucesso, mas oferece a oportunidade de transformar a frustração em experiência e tentar novamente.

A classificação para a próxima edição também tem valor simbólico. Para superar de vez a lembrança de 2026, o Fluminense precisa continuar disputando a competição, construindo novas histórias e criando outras oportunidades de chegar à decisão. O caminho não será simples, porque a eliminação deixa consequências emocionais e esportivas, mas o clube tem uma referência recente de que pode voltar ao topo da América mesmo depois de anos de espera.

A semifinal contra o Palmeiras deixa, assim, duas conclusões que precisam coexistir. O Fluminense não conseguiu a classificação e terá de conviver com a frustração de ter chegado tão perto, mas também apresentou uma equipe capaz de reagir, ajustar o jogo e levar o adversário aos pênaltis. A dor é legítima, assim como a cobrança pelos pontos em que o time poderia ter sido mais eficiente. O próximo passo será impedir que a eliminação encerre a temporada antes da hora e transformar os sete jogos restantes em uma oportunidade concreta de retornar à Libertadores em 2027.

(Foto: Miguel Schincariol/AFP)